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Afrofuturismo: o cinema como forma de reescrita da história negra

No movimento, afrodescendentes desenvolvem narrativas ligadas à ancestralidade visando um futuro melhor
Por Nicolas Sabino (nicolassabino@usp.br)

Há sete anos, chegava aos cinemas o primeiro filme com um super-herói negro da Marvel. Com Chadwick Boseman no papel de T’challa, Pantera Negra (Black Panther, 2018) se tornou um sucesso de bilheteria e foi pioneiro em diversos aspectos. O protagonismo negro do longa foi evidenciado por meio da representação de uma tecnologia ficcional, juntamente da realeza africana. Esse conjunto de fatores recebe o nome de afrofuturismo, movimento que une a ficção científica à ancestralidade, visando modificar o senso comum sobre o que é ser negro.

Além da característica estética que carrega, o afrofuturismo também possui um caráter político. Como o próprio nome indica, o movimento discute a relação das pessoas negras com o futuro, tendo em vista que sua participação atual na sociedade ainda carrega os efeitos da diáspora, a imigração forçada de africanos como escravizados para as Américas.

Em entrevista ao Cinéfilos, Zaika dos Santos, artista, cientista de dados e fundadora da Black Speculative Art Movement Brasil, afirma que o afrofuturismo é um conceito que engloba arte, ciência, tecnologia, inovação africana e afrodescendente. “É tudo aquilo que foi negado historicamente: a participação de africanos e afrodescendentes no processo da história, da ciência, da tecnologia e das artes numa perspectiva de emancipação da história, ou seja, daquilo que é dito como conhecimento universal.”

Pantera Negra foi o primeiro filme de super-herói a ser indicado ao Oscar e arrecadou mais de 1 bilhão de dólares [Imagem: Reprodução/IMDb]

O cinema pode ser considerado uma espécie de subcampo de expressão do afrofuturismo na arte, assim como a literatura, a música e a moda, por exemplo. Porém, esse movimento possui uma limitação em caracterizar as obras que são afrofuturistas.

Zaika afirma que o afrofuturismo, diferente de outros movimentos negros nacionais, parte de uma autoafirmação. “Então se ele [criativo, termo que designa artistas e pensadores ligados ao meio] se autonomeia como parte do movimento, não é uma lista que vai dizer quem é e quem não é. Porque esse criativo vai passar por diversas reflexões de como o seu trabalho consegue transitar entre as relações do tempo”, diz ela.

Como os parâmetros para definir se uma obra é afrofuturista não são bem definidos, reconhecê-la parte muito da intuição. Ao assistir um filme é possível classificá-lo ou não como afrofuturista pelas reflexões que causa no imaginário de seu público. Essa forma de afetar a cognição própria é a parte que mais desperta interesse em Zaika. Para a artista, quando os aspectos históricos são alinhados a elementos visuais e sonoros, montagem e edição, eles são capazes de conduzir o espectador a se reconectar com essas narrativas presentes em sua cognição.

O pai do afrofuturismo

Considerado o primeiro filme a levar o afrofuturismo para o cinema, Space is the Place (1974) narra a aventura do lendário jazzista Sun Rá e sua banda Arkestra para criar um novo planeta habitado por negros americanos. A obra é interligada por um álbum de mesmo nome, que serviu de trilha sonora para o longa. 

Segundo Zaika, o filme de Sun Rá parte de uma “cognição do autoreconhecimento”, em que o espectador é capaz de se entender por meio da narrativa. Trazendo perspectivas de reconexão com a ancestralidade e elementos da cultura egípcia, o longa resgata as narrativas africanas e afrodescendentes e as projeta numa relação de futuro. “Sun Rá faz o filme com o que ele tinha como recurso na época. Ele não narra toda a conversa africana dentro da sua narrativa ficcional, ele narra o que ele conseguia no seu tempo”, analisa.

Space is the Place carrega muito do período em que foi produzido, como a relação com o renascimento do Harlem. Até mesmo a busca por um novo planeta tem ligação com a corrida espacial americana, sendo a chegada do homem à lua uma inspiração para o artista.

Fora das telas, Sun Rá também vivenciava o afrofuturismo. Nas apresentações da banda, ele e os outros músicos utilizavam túnicas egípcias e chapéus espaciais, o que gerou certa estranheza na época. Inspirado pela nova identidade de Malcolm X, ele alterou seu nome de batismo pela primeira vez para Le Sony’r Ra em 1952, trazendo uma referência ao deus egípcio do Sol. Ele não se considerava humano, alegando, às vezes, ser um anjo ou um ser vindo de Saturno.

Essa falta de identidade com o planeta Terra parte de uma descrença de Sun Rá com os humanos. Para ele, o mundo jamais iria abandonar o racismo e, por isso, a solução seria habitar um novo planeta livre desses problemas.

“Adeus, terráqueos. Vocês só querem falar de verdades… Não de mitos. Bem, eu sou o mito que vos fala. Digo-lhes adeus.”

Sun Rá em Space Is The Place

Sun Rá, com suas músicas que discutem a tecnologia, já dialogava com o afrofuturismo muito antes de seu filme [Imagem: Reprodução/IMDb]

Ressignificação de histórias

Em 2020, a cantora Beyoncé lançou o filme Black Is King (preto é rei, em tradução livre do inglês), um álbum visual que ressignifica a história de O Rei Leão (The Lion King, 1994) para discutir a masculinidade negra e a beleza das mulheres pretas. O filme mergulha nos problemas emocionais e de identidade da população negra, criados a partir da diáspora africana, e lança um novo olhar sobre a África e sua rica cultura ancestral. 

Com a produção, Beyoncé busca modificar o significado de negritude presente no imaginário popular, mas, em especial, o imaginário das próprias pessoas negras. Ela revelou que queria criar algo autêntico sem perder o que é próprio da animação de 1994, e as músicas a guiaram para isso. “Eu não queria tirar a garra e a realidade, porque há lições de vida muito adultas em Rei Leão. Eu não queria diluí-la. Também não queria perder a autenticidade da África. E tudo começa com a batida da bateria e o groove”, disse no documentário de bastidores da produção. 

Para Zaika, o afrofuturismo de Black Is King atinge um local muito afetivo nas pessoas negras por estar relacionado às suas infâncias. “É como se Beyoncé viesse nos perguntar: ‘Vocês lembram daquele filminho que a mamãe e o papai colocavam para a gente e que no final achávamos que era um leãozinho para lá e para cá? Então, crescemos. Vamos conversar sobre ela aqui pelo nosso ponto de vista hoje.’ Então, por isso somos atingidos de um jeito muito diferente.”

Se na animação já se pode analisar a busca de Simba pela sua própria identidade como uma busca de reconexão com seus ancestrais, em Black Is King essa busca fica ainda mais evidente. Quando o filme reafirma a realeza do protagonista africano, um convite é feito para as pessoas negras olharem para seu passado apagado e entenderem que existe beleza em sua história. Aqueles que antes só podiam se conectar com as histórias de pessoas escravizadas, agora voltam o seu olhar para a África e se reconhecem como descendentes de reis e rainhas.

Afrofuturismo no Brasil

A definição de afrofuturismo, por ter nascido nos Estados Unidos, é baseada em conceitos norte-americanos. No Brasil, o movimento chega com uma forte discussão sobre a origem do termo, que foi cunhado por um homem branco. Para Zaika, o que chega mais perto de se equiparar com a linha conceitual de afrofuturismo aqui no Brasil é o Quilombismo de Abdias Nascimento e Amefricanidade de Lélia Gonzalez, feitos simultaneamente com a produção de Sun Rá.

Como a diáspora no Brasil e nos Estados Unidos se desenvolveram de maneiras diferentes, o afrofuturismo nos filmes desses países também se dá de formas distintas. A cientista analisa que o cinema negro brasileiro dialoga com muitos autores intelectuais nacionais, autores esses que, de certa forma, se aproximam do movimento. Por isso, ela acredita que os filmes negros nacionais possuem uma ficção especulativa própria. “Mesmo que existam produções afro-brasileiras que consigam discutir com a perspectiva do afrofuturismo, por exemplo, Medida Provisória (2020) e Marte Um (2022), eu vi os filmes para muito além dessa estética.”

Com um elenco de peso, Medida Provisória apresenta um Brasil distópico que obriga os negros a se mudarem para a África [Imagem: Reprodução/IMDb]

A artista não enxerga a produção de afrodescendentes no Brasil somente pela lente do afrofuturismo. “Eu gosto muito de pensar essa produção afrodescendente brasileira por vários lugares de convergência. E por isso que eu trago comigo o conceito de afrofuturalidade”, comenta. Ela considera que a produção feita na América Latina se mistura mutuamente e que não precisa estar devidamente encaixada em um único lugar, podendo transitar entre autores e conceitos diferentes.

Embora o afrofuturismo possa ser encontrado em filmes do mundo inteiro, a predominância da produção americana no formato é inegável. Ana Beatriz Almeida, mestre em estética e história da arte, avalia a possibilidade de o conceito englobar as produções negras em um único lugar:  “Então aquilo que não está dentro do cânone mitológico branco, que é feito por pessoas americanas, a gente chama de afrofuturismo?”, questiona Ana. 

Ela alerta que histórias, como as de pessoas bem sucedidas da África, estão sendo taxadas de ficcionais por pessoas que não acreditam que exista uma elite africana e afrodescendente. “A Nigéria é um dos países mais ricos do continente africano. Se você pensa que isso é ficção, você também já coloca isso no lugar do impossível. Sendo que existe, de fato, uma elite milionária que vem de uma África pobre”, declara.

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