Por Fernando Silvestre (fernando.silvestre@usp.br), Manuela Trafane (manutraf@usp.br) e Nicolas Sabino (nicolassabino@usp.br)
Atualmente, quase 80% dos jogadores da NBA (National Basketball League) são negros. O basquete tem grande influência da cultura afro-americana e vice-versa. Mas, na NBA, não foi sempre assim: mesmo que a população negra americana tenha jogado o esporte desde sua chegada às quadras de rua no país, não estiveram presentes na maior liga de basquetebol do mundo por algum tempo. O primeiro homem negro a mostrar suas habilidades com a bola laranja dentro de quadra, na principal competição do esporte, foi Earl Lloyd, 75 anos atrás.
A vida do pioneiro
Earl Francis Lloyd nasceu no dia 3 de abril de 1928 na cidade de Alexandria, na Virgínia. Seu pai era funcionário de uma indústria de carvão e sua mãe, dona de casa. Por conta das Leis Jim Crow — medidas que promoviam a segregação e a discriminação racial em praticamente todos os níveis e hierarquias da sociedade americana — Lloyd conviveu com o racismo diariamente em sua infância. Para ele, a quadra era um lugar sagrado que o afastava da discriminação.

Lloyd foi o primeiro afro-americano a treinar uma equipa da NBA [Imagem: Reprodução/Evening Star/Wikimedia Commons]
Alto e magro, o estadunidense chamava atenção sempre que jogava. Ao terminar o ensino médio, recebeu uma bolsa de estudos para jogar basquete no time universitário Yellow Jackets, da West Virginia State University (WVSU). Na equipe, recebeu o apelido de “Big Cat” e algumas nomeações para conferências universitárias: duas para o All-State Virginia Interscholastic Conference e três nomeações para o All-South Atlantic Conference.
Lloyd jogou no WVSU de 1947 a 1950 e levou os Yellow Jackets aos títulos da temporada regular e do torneio da Central Intercollegiate Athletic Association (CIAA), conferência de atléticas universitárias de faculdades historicamente negras. De 1947 a 1948, seu time não perdeu um jogo sequer e foram campeões nacionais da CIAA. Lloyd se formou em educação física na WVSU em 1950.
O início nas grandes quadras
Sua chegada na NBA aconteceu simultaneamente a de outros dois atletas negros: Chuck Cooper e Nat Clifton. Cooper era ala-armador da Duquesne University Boston Celtics e foi o primeiro afro-americano a ser oficialmente convocado para a NBA. Já Clifton foi o primeiro negro a assinar um contrato profissional de grande liga, com o New York Knicks.
A estreia de Lloyd na maior competição de basquete do mundo aconteceu em 31 de outubro de 1950. Na cidade nova-iorquina de Rochester, o atleta jogou pelo Washington Capitols, time que viria a falir em janeiro do ano seguinte. Ele se tornou o primeiro afro-americano a entrar em quadra por uma grande liga, aos 22 anos de idade, e marcou seis pontos na ocasião.
Ao todo, Lloyd jogou apenas sete partidas pelo Capitols antes de ser convocado para o serviço militar. Depois de dispensado, foi contratado pelo Syracuse Nationals. Entre 1954 e 1955, teve sua melhor temporada como profissional e ajudou o time a conquistar o título da NBA. Depois, em 1958, se transferiu para o Detroit Pistons, onde permaneceu por duas temporadas, antes de se aposentar como jogador.
Fora das quadras, o atleta continuou vivendo do basquete. Ele se tornou o primeiro técnico afro-americano do Pistons durante duas temporadas e depois seguiu como olheiro por mais cinco. No time, ele treinou Dave Bing e Bob Lanier, jogadores que futuramente entraram para o Hall da Fama.

Ao todo, Earl Lloyd jogou 560 jogos e somou 4.682 pontos na carreira [Imagem: Reprodução/The White House/Wikimedia Commons]
Talento não basta
O bom desempenho de Lloyd não o impediu de sofrer com a discriminação racial. Após vencer pelo Syracuse Nationals, o jogador saiu para comemorar com seu colega de time Johnny “Red” Kerr. “Estávamos comemorando a vitória, eu estava com o braço em volta de Earl, e alguns torcedores simplesmente cuspiram na gente”, disse Kerr. “Não foi porque tínhamos vencido o jogo. Eles estavam cuspindo no Earl.”
Em outra ocasião, um garçom se recusou a servir Lloyd, que voltou para o seu quarto de hotel para comer. Em uma demonstração de apoio, Horace “Bones” McKinney, técnico do Capitols na época, foi até o quarto do estadunidense e se juntou a ele para o jantar. “Bones era de Wake Forest, Carolina do Norte, no Sul Profundo, e foi criado no Sul durante as décadas de 30 e 40”, disse Lloyd. “Você sabe que ele não precisava fazer isso. Coisas assim a gente não esquece.”
Mesmo com tanta hostilidade, o jogador se manteve firme. “Lembro-me de que em Fort Wayne, Indiana, ficamos em um hotel onde me deixaram dormir, mas não me deixaram comer. Eles não queriam que ninguém me visse”, declarou o atleta. “Você precisa se lembrar, eu cresci na segregada Virgínia, então eu já tinha visto isso antes.”
A família de Lloyd também foi importante para que ele pudesse resistir à opressão. Segundo ele, seus pais estavam em seu primeiro jogo e lembrava de sua mãe respondendo a provocações de torcedores locais, que perguntavam se um negro poderia jogar na liga.
“Se você se deixar amargurar, isso vai te corroer por dentro. Se a adversidade não te mata, ela te torna uma pessoa melhor.”
Earl Francis Lloyd
Lloyd foi consagrado no Hall da Fama do Esporte da Virgínia em 1993 e foi incluído no Hall da Fama do basquete em 2003. Ele continuou acompanhando a NBA por toda a vida, assistindo aos jogos de casa. O ex-atleta sabia que tinha um papel importante na formação da liga e na forma como ela é hoje, mas não era de se gabar por isso. Lloyd faleceu em 26 de fevereiro de 2015, aos 86 anos, e deixou três filhos e quatro netos.
Um esporte negro
Em entrevista ao Arquibancada, Dr. Louis Moore, professor de história esportiva da Michigan State University, afirma que a participação de Lloyd na NBA tornou inevitável a entrada de negros na liga. “Era fácil acessar o basquete porque era um esporte da cidade, você só precisa de uma bola e um lugar para poder jogar um contra um ou dois contra dois”, diz.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as quadras não paravam de surgir nas cidades, crescentes devido ao movimento de migração da população negra — que saía das cidades do Sul, onde a segregação era mais intensa, para outras regiões do país. “Os jogadores negros traziam esse brilho para o basquete. Podemos dizer que permitia que eles fossem descolados, porque podiam fazer manobras e trazer um estilo ao jogo”, continua Dr.Moore.
A ligação existia desde antes da criação da liga. O professor da Michigan State University conta sobre bailes negros que aconteciam nos anos 1920 — neles, comunidades se uniam para assistir a jogos de times compostos apenas por jogadores negros, como o Harlem Globetrotters. Os eventos uniam o basquete à comédia e ao jazz: “O basquete está na cultura negra estadunidense desde seu início”, conta.
Em 1946 o esporte saiu dos salões e das ruas e se profissionalizou. A Associação de Basquete da América, atual NBA, contava com a disputa de 11 equipes pelo prêmio, mas nenhum atleta negro. Os principais motivos para isso eram o receio sobre a reação do público com a entrada de jogadores negros e a segregação dentro da lei.
Exclusão de negros no basquete profissional
Depois da entrada de Lloyd, outro passo importante foi dado para a inclusão de pessoas pretas e pardas na NBA: a entrada de Bill Russel, jogador do Boston Celtics, em 1950. Russel é considerado o principal ator para a inclusão sociocultural de negros no basquete. O ex-jogador assumiu uma postura anti-racista e realizou o primeiro ato contra a segregação racial dentro da NBA.
Outro evento marcante nessa luta aconteceu em 1968. A final da temporada ocorreu um dia depois do assassinato do ativista Martin Luther King Jr. Mesmo com um clima de revolta no país e o pedido de adiamento do embate por Russel e Wilt Chamberlains, do Philadelphia 76ers, a NBA decidiu dar continuidade ao jogo. A entidade relatou a necessidade de manter a data pré-estabelecida por questões contratuais.
Já nos anos 1980, a ascensão da rivalidade Lakers-Celtics fez a liga receber atenção internacional. Além da rivalidade dos times, criou-se na mídia uma disputa entre os jogadores Magic Johnson, do Lakers, e Larry Bird, do Celtics. Larry era branco e integrava o time da cidade de Boston, que possui a reputação de grande desigualdade racial no seu elenco. Por outro lado, por ser um jogador negro, Magic foi tomado como símbolo pelas camadas populares. A rivalidade foi representada pela mídia não só como um jogo qualquer, mas também uma disputa entre brancos e negros.

Os times Celtics e Lakers já tiveram 11 duelos em finais da NBA [Imagem: Reprodução/Steve Lipowsky/Wikimedia Commons]
Episódio importante na luta contra a desigualdade racial nos EUA, em 1990, Harvey Gantt disputava as eleições para senador e tentava tornar-se o primeiro homem preto no cargo. Ao mesmo tempo, a grande estrela do basquete norte-americano, Michael Jordan, traçava sua carreira. Os fãs e a mídia cobravam do então jogador do Chicago Bulls um apoio ao candidato. Entretanto, a manifestação não veio como o esperado. Jordan não conhecia Gantt, porém contribuiu para sua campanha, assim como afirma na série documental Arremesso Final (2020).
Após a década de 90, as pautas raciais ganharam força dentro da Liga. Atletas como Allen Iverson, Russell Westbrook e LeBron James se tornaram representantes da luta anti-racista no período. No caso de LeBron, o esportista usa suas redes sociais para manifestar sua posição política. O atleta já investiu cerca de US$2,5 milhões no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana dos Estados Unidos e é dono da fundação Children ‘s Defense Fund — ONG que luta pela igualdade para crianças negras.
O ativismo na liga
Se Lloyd entrou em uma quadra dominada por jogadores brancos, hoje a realidade é diferente. Cerca de 80% dos jogadores da NBA são negros. Esses números permitem que a quadra seja mais do que o espaço para uma partida e se torne palco para o ativismo.

Segundo a ESPN, dos 100 melhores jogadores da história, 69% são afrodescendentes [Imagem: Reprodução/ Facebook/Lebron]
Em 2020, a NBA construiu a chamada “Bolha da NBA”. O complexo localizado na região dos resorts da Disney, em Orlando, nos Estados Unidos, tinha como objetivo abrigar jogadores, famílias, além de equipe técnica, para dar continuidade à temporada durante o confinamento da pandemia de Covid-19.
Antes do jogo 5 pelos playoffs da NBA, no dia 26 de agosto de 2020, os jogadores do Milwaukee Bucks se recusaram a sair do vestiário e anunciaram um boicote à partida. O Bucks jogaria contra o Orlando Magic, time que se uniu ao ato junto das equipes: Oklahoma City Thunder, Houston Rockets, Los Angeles Lakers e Portland Trail Blazers, que também jogariam naquele dia. O protesto apoiava o movimento Black Lives Matter, manifestação anti-racista nos Estados Unidos que eclodiu depois do assassinato de George Floyd pelas mãos de um policial estadunidense.
Nessa ação, os atletas, que já usavam frases como “Justiça” ou “Nos amem” em suas camisas durante a temporada, se manifestaram após outro caso de agressão: o de Jacob Blake no dia 23 de agosto, em Wisconsin. Blake, um homem negro, havia levado sete tiros nas costas por um policial enquanto três de seus filhos assistiam de dentro do carro. Ele sobreviveu, mas ficou com sequelas que o acompanharão pelo resto da vida.
No vestiário, os jogadores participaram de uma teleconferência com o procurador-geral e o vice-governador de Wisconsin. Além disso, leram um comunicado oficial do time, publicado na internet, em que expressaram seu apoio ao ativismo que acontecia por todo o país. Dr. Moore explica que 2020 foi a “tempestade perfeita” para esse tipo de ativismo. “Todo mundo estava em casa. A infeliz morte de George Floyd e um movimento em massa permitiu que os jogadores se sentissem parte de algo”, conta.
Todas essas transformações não seriam possíveis sem o primeiro homem negro em quadra: Earl Lloyd. Entretanto, segundo o professor, a NBA não presta tanta atenção a isso. “Eu acho que nos faltam informações sobre Lloyd e grande parte disso é culpa da NBA. Não acho que fizeram seu papel em celebrar sua figura ao longo dos anos, o que é errado”, diz Dr. Moore. Ele, ainda, conta que a integração natural da cultura negra ao basquete é fator determinante para essa escassez de dados sobre o ex-atleta — diferente do beisebol ou o futebol americano, que precisam expor essas figuras devido ao pequeno número de jogadores negros.
“O legado de Earl Lloyd é aquilo que a NBA decidir que será, e deveria ser gigantesco. Mas, acima de tudo, seu legado é ele mesmo”
Dr. Louis Moore
*Imagem de capa: [Reprodução/The White House/Wikimedia Commons]
