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Entre orgulho e insegurança: o retrato da fragilidade no cinema

Vistos como símbolos de autenticidade por suas formas de agir e pensar, alguns personagens nem sempre são o que aparentam ser
Por Gabriel Albuquerque (gabrielalbuquerque@usp.br)

Na história do cinema, muitos personagens se tornaram icônicos pelas suas demonstrações de orgulho e autoconfiança, convencendo legiões de fãs de que suas personalidades eram a referência de força e poder a ser seguida. Contudo, alguns desses ícones possuem um lado não desejável pelo público e que fica escondido dos holofotes: a fragilidade.

São figuras que, por debaixo da máscara, escondem fortes emoções e vulnerabilidade emocional, oriundas dos mais diversos tipos de história. A maioria dos filmes que possuem esses ícones tratam a fragilidade dos personagens como um segredo a ser revelado como uma reviravolta na trama que agrega no desenvolvimento do personagem.

Com o avanço da internet, tornou-se muito mais fácil para o consumidor escolher qual persona vai adotar, tendo em vista que agora ele poderia assistir mais filmes e conversar com mais pessoas com gostos semelhantes. Bastava selecionar uma personalidade que fosse “literalmente eu”, uma expressão usada principalmente entre os jovens para se referir a personagens que eles consideram icônicos e referências de personalidade.

Em entrevista à Cinéfilos, o professor do curso de Psicologia do Mackenzie, Marcelo Santos, comentou sobre alguns impactos desse fenômeno na saúde mental das pessoas. “É possível pensar que dentro dessa questão, o personagem vai modelar um comportamento desta pessoa que assiste, aceitando que aquele modelo pode ser ideal, criando uma identificação excessiva com aquele personagem.”

Segundo Marcelo, as razões para essa inspiração do indivíduo na ficção também podem estar relacionadas à um momento de vulnerabilidade pessoal, problema de depressão, perdas na família ou outras situações de estresse emocional.

Richard “Rick” Blaine (Humphrey Bogart)

Em Casablanca (1942), o telespectador acompanha a história de Richard “Rick” Blaine, um americano cínico exilado, dono do bar e cassino Rick’s Café Américain, na cidade marroquina de nome homônimo do filme. Em plena Segunda Guerra Mundial, o estabelecimento de Rick se tornou um ponto de encontro para diversos refugiados que buscam chegar a Lisboa — e, posteriormente, aos Estados Unidos — e para contrabandistas que realizam o transporte clandestino.

Rick Blaine e Ilsa Lund se encarando, com os rostos próximos [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Inicialmente, Rick é apresentado de forma misteriosa, sendo um homem de poucas palavras e que só fala o necessário, mas que sempre é ouvido quando quer falar. As pessoas que frequentam aquele círculo social o respeitam não por medo, mas por admiração. Essa personalidade que Richard mostra em público foi vista como o homem ideal por muito tempo, fazendo com que sua atenção seja disputada por bajuladores ao longo do filme.

No vai e vem de pessoas em seu estabelecimento, o ex-amor da vida do americano, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), aparece em seu bar, casada com outro homem e fugindo do exército alemão após saírem da França ocupada. Rick ainda não superou o fim do romance, interrompido devido à fuga de Ilsa, que deixou Richard desolado e frágil.

Se antes Rick era uma referência de masculinidade e do homem elegante, agora pode ser visto como um romântico do coração partido, buscando esquecer o passado, o amor de sua vida e tudo que lhe faça lembrar daquela época, assim como muitas pessoas após sofrerem uma decepção amorosa ou um término traumático.

Miranda Priestly (Meryl Streep)

No filme O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006), inspirado na obra literária de Lauren Weisberger, acompanhamos a vida da recém-formada jornalista Andy Sachs (Anne Hathaway ), que se muda para Nova Iorque e consegue um emprego na renomado revista de moda Runaway. Na sede da revista, a editora Miranda Priestly comanda com punhos de ferro todos os detalhes e intimida qualquer um de seus subalternos com sua personalidade fria e sua influência no mundo da moda.

Miranda é uma mulher muito focada em sua carreira, extremamente controladora e exigente com seus funcionários, sendo rotineiro que suas secretárias tenham que realizar tarefas absurdas — mesmo que estejam fora do expediente — apenas para agradar um desejo momentâneo da editora. Sua rispidez, personalidade forte e autoconfiança de suas ações lhe renderam o apelido de “Dama de Ferro” entre o resto da mídia que cobre o mundo da moda.

Miranda Priestly cercada por paparazzi durante a Semana de Moda de Paris [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Entretanto, durante a Paris Fashion Week (Semana de Moda de Paris), Miranda revela à Andy e ao telespectador um lado que permanece escondido de todos: Em sua vida pessoal, que já está totalmente afetada pela profissional, tem problemas no casamento e receio do que suas filhas irão pensar quando virem o que a mídia fala dela.

Miranda priorizou sua carreira e colhe os frutos de suas ações, assim como muitas pessoas que fazem do escritório sua segunda casa e esquecem de priorizar os aspectos na vida pessoal, sejam eles a família ou amigos, afetando suas relações.

Tyler Durden (Brad Pitt)

Clube da Luta (Fight Club, 1999) conta a história pela perspectiva do narrador (Edward Norton) que está inserido na história, mas que nunca menciona seu nome na maior parte do filme. 

O narrador vive uma vida consumista e sem propósito, trabalha em um escritório igualmente despretensioso e sofre constantemente com insônia, que ele decide tratar participando de clubes de autoajuda para pessoas com comorbidades (alcoolismo, câncer, tuberculose e outros) mesmo sem possuir nenhuma daquelas condições, apenas para possuir um alívio momentâneo e poder dormir a noite. 

Em uma viagem a trabalho, o protagonista sem nome conhece Tyler Durden, um vendedor de sabonetes com muito conhecimento em explosivos caseiros e reações químicas, enquanto viajava de avião de volta para casa. 

Tyler é um anarquista por natureza, que critica o sistema capitalista e sua forma predatória de lucrar através de instituições financeiras e pelo consumismo desenfreado. Esse posicionamento político fica claro quando é apresentado a casa onde ele mora: um casarão abandonado, caindo aos pedaços. 

Esse estilo de vida subversivo combinado com sua personalidade forte lhe fez ser respeitado pouco a pouco pelas ruas americanas, como um símbolo de força e da masculinidade entre os jovens-adultos dos anos 1990 e 2000.

Tyler Durden, à esquerda, em uma das primeiras interações com o narrador, à direita [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Após uma explosão em seu apartamento, o narrador passa a morar com Tyler em uma casa abandonada. Juntos, eles decidem fundar o Clube da Luta, onde homens de todos os tipos poderiam lutar entre si e extravasar suas frustrações com sessões de pancadaria.

A situação começa escalonar para algo maior, com Tyler criando o Projeto Destruição, que consiste em abalar as estruturas do capitalismo através de atentados terroristas contra instituições de crédito. Após uma discussão entre o narrador sem nome e Tyler, a dupla se separa repentinamente devido ao desaparecimento de Durden.

Na procura realizada pelo protagonista, ele finalmente entende o que estava acontecendo: Em uma busca pela liberdade, ele confundiu com a fuga de si próprio e compreende que nunca esteve no controle da situação. A suposta revolta contra o mundo moderno que o motivava, na verdade, era muito mais interna do que externa. Da mesma forma que muitas pessoas buscam uma personalidade forte ficcional para si, o narrador também fez isso, indo ainda mais além no mundo da fantasia.

Nina Sayers (Natalie Portman)

Em Cisne Negro (Black Swan, 2010), acompanhamos a vida de Nina Sayers, uma jovem bailarina de Nova Iorque extremamente perfeccionista e, como muitas outras dançarinas de sua profissão, totalmente consumida pela arte. Na companhia de balé onde Nina ensaia, uma oportunidade de ouro surge: o diretor decidiu que a companhia iria apresentar uma nova versão do clássico O Lago dos Cisnes.

Com a saída da bailarina principal, Beth MacIntyre (Winona Ryder), do papel principal devido à sua idade mais avançada, Nina é a principal escolha para assumir o posto graças ao seu incrível talento.

Nina apresenta durante todo o filme uma obsessão extrema por ser perfeita enquanto performa nos ensaios ou nos palcos. Sua fixação em ser melhor a cada dia que passa já lhe rendeu inúmeras lesões, noites inquietas e até mesmo delírios sobre estar sendo perseguida pela sua rival na companhia, a bailarina Lily (Mila Kunis).

Sua principal concorrente ao papel principal conseguia representar o Cisne Negro melhor do que Nina a primeiro momento, aquilo lhe fez aumentar ainda mais a intensidade de seus ensaios e sua entrega à arte.

Nina Sayers, em destaque, durante um dos ensaios da companhia de balé [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Ao longo do filme, o telespectador começa a conhecer um lado da protagonista nunca mostrado para as pessoas ao seu redor. A maior parte do seu perfeccionismo e obsessão pelo balé surge devido à pressão que ela sofre de sua mãe controladora, que projeta seus antigos sonhos na filha sem permitir que ela viva normalmente.

Nina Sayers sempre foi muito idolatrada por pessoas em situações semelhantes a dela, sofrendo constantemente pressão familiar para ser aprovado no vestibular ou para ser o melhor em algum hobby, mesmo não sendo necessário.

Os impactos desses personagens no mundo real

Personagens que quebram as expectativas do público a respeito de sua personalidade não são de hoje, muito menos uma exclusividade do cinema. O especialista Pedro Curi, coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, defende a existência de personagens que seguem esse conceito.

“Ainda que seja um processo que vem de muito tempo, acredito que cada vez mais estamos vendo personagens, figuras públicas ou mesmo marcas que demonstram fragilidade e que não tem problema em assumir erros”, afirma o professor.

Uma das possíveis justificativas para a paixão que o público mais jovem possui por esse arquétipo é a alta exposição ao mundo digital, que permite com que as pessoas divulguem publicamente qualquer coisa relacionada às suas vidas, incluindo as fragilidades de cada um.

De acordo com o professor, os jovens notam pontos de identificação nessas figuras e as adotam para si, da mesma forma que ocorre nas redes sociais. Os personagens perfeitos já não agradam tanto quanto antigamente, consequentemente precisaram ser reformulados — o Superman , por exemplo — para se adequar ao novo público.

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