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Verdade científica por trás do ‘hype’ do colágeno 

Suplementos prometem rejuvenescimento e alívio articular, mas estudos analisam o impacto da propaganda na indústria farmacêutica
Por Gabriella dos Santos (gabriella.santos12@usp.br)

Produtos à base de colágeno são comumente procurados para retardar o envelhecimento da pele e curar dores nas articulações. Mas será que essa pequena proteína compactada em medicamentos caros realmente funciona? 

Nos últimos anos, propagandas sobre cremes e pílulas supostamente milagrosas ganharam notoriedade no meio digital, principalmente devido a constante divulgação dessa promessa por influenciadores digitais de bem-estar. Embora a relação entre colágeno e saúde seja investigada há décadas – alguns estudos, por exemplo, relatam a redução de dores em atletas com queixas articulares ou pessoas com artrite e osteoporose –, a verdadeira eficácia desse produto não tem uma conclusão exata. 

De acordo com a nutricionista esportiva Vanessa Lobato, essa imprecisão se deve à predominância de estudos patrocinados pela indústria, que tendem a relatar resultados mais positivos ao invés de negativos.

Um estudo realizado pelo The American Journal of Medicine, verificou que artigos financiados por empresas farmacêuticas obtiveram resultados positivos do colágeno para dores nas articulações, enquanto estudos que não foram financiados não obtiveram resultados significativos. “Isso indica que ele pode até ajudar um pouco, mas não é o tratamento principal para artrite ou dor nas articulações”, afirma a Vanessa Lobato. 

O que é colágeno e por que ele declina

O colágeno é a proteína mais abundante do organismo. Ele corresponde a cerca de 30% do total das proteínas e é o principal componente estrutural dos tecidos conjuntivos, como pele, tendões, ligamentos, cartilagens e ossos. No corpo humano,  o colágeno funciona como uma “armadura” natural, dando firmeza, elasticidade e sustentação. 

A partir dos 25 anos, a produção natural dessa substância começa a declinar, diminuindo cerca de 1% ao ano – e esse processo se acentua ainda mais na menopausa, a partir dos 45 anos. Essa redução é a responsável pelos sinais mais aparentes de envelhecimento, como rugas, flacidez e desgaste nas articulações. Estudos mostram que o fumo, o álcool, o alto consumo de açúcar e até mesmo a exposição à poluição também reduzem a produção de colágeno ao longo do tempo. 

Porém, engana-se quem acredita que ao ingerir pílulas de colágeno ou passar um creme terá sua pele nova em folha. Como qualquer proteína, ao ser consumido (através da alimentação ou de suplementação), o colágeno passa pelo sistema digestivo onde é quebrado em aminoácidos e em pequenos peptídeos. Nesse processo, os aminoácidos são absorvidos pelo organismo e levados para o tecido onde há maior necessidade, ou seja, eles não se dirigem diretamente para as rugas. 

“Algumas dessas pequenas partículas chegam intactas ao sangue e podem atuar como sinalizadores celulares, estimulando a produção de colágeno. Mas isso não significa que o colágeno ingerido vai direto para a pele”, explica Vanessa Lobato. 

Pílulas de colágeno em prato com garfos
O uso de colágeno é indicado quando começam a surgir sinais como: diminuição da espessura dos fios de cabelo, pele fina e desidratada, aumento da flacidez e perda de elasticidade da pele [Imagem: Reprodução/Pixabay]

Além disso, o colágeno é dividido em mais de 25 tipos, mas os mais comuns são o tipo 1 (presentes na pele e nos ossos), o tipo 2(nas cartilagens) e o tipo 3 (em vasos sanguíneos e órgãos). No entanto, os suplementos disponíveis no mercado geralmente são hidrolisados, derivados de fontes animais como bovinos ou peixes, e nem sempre atendem às necessidades do corpo – e, portanto, não substituem refeições ricas em vitamina C, zinco, cobre, ferro e silício, que são cofatores importantes nesse processo. 

“O colágeno é uma proteína de baixo valor biológico, ou seja, não contém todos os aminoácidos essenciais em quantidade suficiente. Por isso, tomar colágeno em excesso não substitui uma alimentação equilibrada com proteínas completas e pode trazer prejuízos à saúde” alerta Paulo Cuevas, biólogo e doutorando em bioquímica pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo. 

Em geral, as proteínas demandam bastante água para serem digeridas e metabolizadas, e uma ingestão excessiva pode culminar em sintomas como inchaço, azia e reações alérgicas. 

Além disso, o excesso de colágeno natural pode desencadear doenças autoimunes conhecidas como colagenoses (como artrite reumatoide, lúpus e esclerodermia), causando endurecimento dos tecidos. Portanto, a suplementação de colágeno em pacientes com essas condições é recomendada somente sob supervisão médica, pois o uso descontrolado de doses elevadas pode sobrecarregar órgãos. 

Preços altos e o poder da propaganda

O mercado global de colágeno atingiu 9,9 bilhões de dólares em 2024. Segundo relatório da Grand Review Research, até 2030 a indústria de colágeno deverá ser avaliada em 18,7 bilhões de dólares, exibindo uma taxa de crescimento anual de 11,6% entre 2025 e 2030. 

Na indústria dos nutricosméticos brasileiros, o segmento de colágeno já ultrapassa US$10 bilhões em faturamento, impulsionado muitas vezes por uma avalanche de propagandas de influenciadores digitais que vendem promessas irreais. 

O preço elevado desses produtos, que podem custar de R$100 a R$300 por frasco, levanta questionamentos sobre o real valor do investimento. “Não há comprovação científica robusta que justifique esses preços elevados. É importante que o consumidor saiba que o colágeno não é uma solução milagrosa e que o custo alto nem sempre reflete eficácia” avalia Cuevas. 

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regula esses produtos como suplementos alimentares, exigindo que as promessas sejam baseadas em evidências. A onda do marketing, especialmente nas redes sociais, amplifica mitos que vão desde “rejuvenescimento em poucos dias” até “cura total de dores articulares”. 

Colágeno sendo testado por duas pesquisadoras em laboratório
O colágeno continua a ser um aliado potencial para a saúde, porém os mitos de rejuvenescimento milagroso devem ser temperados pela ciência [Imagem: Reprodução/ Pexels]

Como alternativa, especialistas enfatizam opções mais baratas e eficazes que auxiliam na produção natural de colágeno no corpo. Paulo Cuevas afirma que a medida mais significativa para obter resultados é manter uma dieta saudável e cultivar hábitos como não fumar e praticar exercícios. “Essas medidas são muito mais eficazes e econômicas do que investir em suplementos caros”, diz.

A nutricionista Lobato complementa: “quando pensamos em saúde de longo prazo, não basta somente a suplementação. É necessário um conjunto de cofatores como a Vitamina C, presentes na laranja, acerola, morango; ácidos graxos essenciais, como peixes, e proteínas completas, como carnes que ajudam na síntese de colágeno e reduzem inflamações no corpo”. Além das opções de origem animal, o consumo de quinoa, soja e sementes de cânhamo e chia também auxiliam nesse processo.

O que dizem os estudos científicos

Alguns estudos sugerem que a suplementação de colágeno apresenta possíveis efeitos benéficos à pele, mas todos possuem ressalvas. Uma meta-análise publicada em 2025 pelo The American Journal of Medicine revelou que, ao excluir estudos financiados pela indústria, os efeitos positivos do colágeno para dor e função articular deixam de ser significativos.

Outro estudo, realizado pela revista Nutrients em 2020, analisou 19 pesquisas com 1.125 participantes, e concluiu que peptídeos de colágeno hidrolisado podem melhorar a elasticidade de até 10 a 20% após 8-12 semanas de uso, com dosagens de 5-10g por dia. Mas os efeitos são pequenos, variam conforme idade e estilo de vida, e os benefícios para rugas profundas são inconclusivos.

Existem no mercado cremes com peptídeos bioativos de colágeno (como Verisol, Fortigel e BodyBalance). Os peptídeos de colágeno têm dificuldade para atravessar a barreira da pele por serem muito grandes e hidrofílicos (têm afinidade com água). Segundo Lobato, a ideia principal é que em cremes com peptídeos bioativos esses pequenos fragmentos de colágeno sejam mais facilmente absorvidos e consigam agir de forma mais específica nos tecidos do corpo. 

Entretanto, ela aponta que as evidências que sustentam essa alegação são, em sua maioria, adquiridas em estudos patrocinados pelas fabricantes dos produtos e que “ainda faltam confirmações independentes para garantir uma resposta efetiva da suplementação de colágeno”.

Para Paulo Cuevas, a criação de cremes tópicos (aplicados diretamente na pele) é uma área de mútuo interesse da indústria farmacêutica e bioquímica. O intuito é que eles possam obter efeitos mais promissores do que a ingestão oral de colágeno. “No futuro, é possível que a gente tenha alguns medicamentos. As evidências científicas dizem muito mais sobre o uso cosmético do que sobre o uso oral”, conclui. 

*Imagem de capa:

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