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‘A Única Saída’ é uma sátira da crise do capitalismo e da masculinidade tradicional

Representante sul-coreano nas premiações, novo filme de Park Chan-wook usa humor e desconforto em thriller de classes
Por Beatriz La Corte (beatrizlacorte@usp.br)

A Única Saída (어쩔수가없다, 2025), do icônico diretor Park Chan-wook, estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22). O longa é, inevitavelmente, uma sátira do capitalismo tardio, da automação e da competitividade. O cineasta sul-coreano tem maestria ao ilustrar que, ainda que o mundo do trabalho reflita valores de futuro, modernidade e progresso, as estruturas sociais permanecem rígidas no tradicionalismo patriarcal. O roteiro foi baseado no livro O Corte (Companhia das Letras, 2001), de Donald E. Westlake. 

A trama apresenta Yo Man-soo (Lee Byung-hun), um homem que dedicou 25 anos de sua vida a uma empresa da indústria do papel. Quando a companhia é adquirida por investidores americanos, o protagonista é despedido. Man-soo se inscreve para outro emprego na mesma indústria e cria um plano: inventa uma vaga falsa e recebe currículos de candidatos. Assim, ele consegue identificar quem são seus maiores concorrentes no ramo. Sua missão é, literalmente, eliminar a concorrência e, para isso, três homens precisam ser assassinados. 

O projeto de adaptação do livro por Park Chan-wook teve início há mais de 15 anos [Imagem: Reprodução/YouTube/@NEON]

O absurdo do roteiro é muito bem complementado pelo tom humorístico na primeira metade do filme. Na segunda parte, o aspecto é marcado por cenas mais repulsivas que beiram o body horror. O humor do longa se apoia em dois pilares: fisicalidade (slapstick) e constrangimento (cringe comedy). Lee Byung-hun, apesar de ser amplamente reconhecido no Ocidente por papéis menos expansivos, executa os momentos de comédia com excelência. O ator brilha nessas cenas e seu sorriso contagia os espectadores com facilidade. A performance rendeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical.

Por um bom tempo de sua duração, Park Chan-wook engana ao levar quem assiste a pensar que esse pode ser um filme de comédia para ser visto em família. O humor slapstick é aquele comumente visto em, por exemplo, Charlie Chaplin, Mr. Bean e Os Trapalhões: são as cenas de quedas, tropeços e constrangimentos corporais. O longa recorre a esse recurso, embora o execute de maneira mais refinada e moderna, evitando o exagero teatral.

O tom muda a partir da primeira vez que o protagonista assassina um concorrente, e diferentes aspectos estilísticos evidenciam isso. Por exemplo, a câmera e os enquadramentos se tornam mais rígidos. Antes, a câmera passeava pelos cenários livremente, como se o ambiente fosse algo amplo a ser explorado. A partir da segunda metade, o cenário passa a ser enquadrado e limitado. A sensação cinematográfica consequente é de aprisionamento. A iluminação torna-se menos uniforme e as texturas corporais são evidenciadas. O absurdo do plano de assassinato, antes de ser realizado, é cômico. Depois de realizado, é grotesco.

O foco da obra é a crítica às dinâmicas de trabalho atuais, mas, ainda assim, outro retrato se sobressai: a crise da masculinidade no capitalismo tardio. Sociólogos como Raewyn Connell e Ricardo Sennett desenvolveram o argumento de que o capitalismo produz um modelo de masculinidade provedor e competitivo que entra em crise quando o trabalho se precariza. Em homens cuja identidade masculina é diretamente associada ao trabalho, o desemprego torna-se sinônimo de humilhação. A obra de Park Chan-wook é uma ilustração perfeita dessas teses.

Para uma obra que retrata uma realidade tão decadente, o longa é bem contido e se beneficiaria de mais ousadia em seus aspectos formais: a paleta de cores, o ritmo —  com exceção das cenas de comédia — e a atuação são sóbrias demais para o roteiro. O filme deixa a desejar ao ilustrar a distopia, não a dramatizando o suficiente a ponto de gerar conexão emocional com os espectadores.

Para o protagonista, estar empregado valida a sua masculinidade e mantém a estrutura familiar [Imagem: Reprodução/YouTube/@NEON]

A temporada de premiações em 2026 tem demonstrado uma maior receptividade por parte da indústria hollywoodiana a produções audiovisuais de língua não-inglesa. No Globo de Ouro, filmes de 2025 como O Agente Secreto, do Brasil, Foi Apenas um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), do Irã, Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), da Noruega, e A Única Saída, da Coreia do Sul, cativaram a atenção do público.

A Coreia do Sul investe na indústria cultural como estratégia de soft power global há algumas décadas. O pontapé inicial se deu em 1993, quando um relatório do governo apontou que o filme Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) havia rendido mais do que a venda de milhões de carros Hyundai.

Nas décadas seguintes, os doramas ganharam atenção global, o K-pop encantou as novas gerações e, em 2020, um filme coreano foi o primeiro em língua não-inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Filme. No ano seguinte, Round 6 (2021-2025) tornou-se a série mais assistida da Netflix. Apesar das expectativas e da maestria de Park Chan-wook e Lee Byung-hun, o longa não deve ser um dos maiores concorrentes de O Agente Secreto ou de Wagner Moura, mais em alta na temporada, em futuras premiações. 

A Única Saída já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer

*Imagem de capa: Reprodução/49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

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