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Crônica | Rir, chorar e rir mais um pouco

Ambulante de café da manhã escuta histórias e percebe vidas no meio do movimento da cidade de São Paulo
Ambulante de café da manhã em terminal de ônibus
Por Catarina Martines (catarina.martines@usp.br)

Lá do outro lado da rua começa aquela gritaria de novo. A mulher que trabalha como secretária em uma clínica odontológica no Itaim Bibi não aguenta mais isso. É todo dia, aproximadamente das 7:30 até às 8:00 horas (justamente o horário que ela espera seu primeiro ônibus no primeiro ponto do Minhocão). Essa barulheira toda é a cereja do bolo de sua noite mal dormida, um marido que não tira a mesa do café da manhã um dia sequer e um filho pré-adolescente mal humorado logo cedo. Tudo isso resulta em uma dor de cabeça em plena segunda de manhã. Um ótimo jeito para começar a semana. 

“Será que a vida dessas aí é tão boa assim?” é o pensamento que a acompanha até chegar no serviço. Tanto problema e tristeza no mundo e elas conseguem ficar de pernas para o ar logo cedo. Enquanto isso ela resolve dia após dia a agenda de um médico mal humorado com clientes mais mal humorados ainda e lida com esse enjoo com a vida a exatamente dois anos e três meses. “Talvez eu sinta inveja delas, né?”, ela pensa enquanto engole sozinha seus próprios desgostos. 

São seis mulheres mais ele, o Floriano Macaúbas. No mesmo ponto há exatamente 10 anos. Nesse dia ele vendeu bolo de churros e de mesclado, além de pão de queijo, torta e café, com ou sem leite. As opções de alimento variam todo dia, assim como a maioria dos clientes, mas alguns grupos permanecem os mesmos. Sua localização facilita seu ofício. Além de estar próximo de uma estação de metrô Marechal Deodoro, o centro da cidade oferece uma variedade de clientes, seja por ser o destino final de trabalhadores, seja por ser um ponto de passagem essencial a suas travessias.

Fotografia de uma mesa de café da manhã com bolo de um vendedor de rua
Floriano Macaúbas conhece pelo nome boa parte das clientes que param para tomar café antes do trabalho [Imagem: Catarina Martines/Jornalismo Júnior]

Esse grupo de mulheres também têm suas próprias movimentações, mas preserva-se a companhia uma da outra. Uma chega mais cedo e vai embora antes, outra chega e fica só quinze minutos e há as que fiquem durante a meia hora diária inteira destinada a companhia das colegas  junto da mesa de café da manhã do Floriano. “Olha quem vem vindo lá! É a maconheira!”. Alice, “a maconheira”, explica seus apelido: “elas me chamam assim porque eu sou a única do grupo que fuma”. 

Comum a paisagem paulista, os chamados “ambulantes de café da manhã” normalmente instalam suas mesas próximas à estação de metrô para conseguirem alcançar o maior fluxo de pessoas possível. São mesinhas retráteis e uma rotina que inicia bem antes que a de grande parte dos trabalhadores. Para conseguir atender os clientes na ida para o serviço é necessário que tudo já esteja pronto antes que a rotina dos outros comece. Floriano acorda às 3 horas da manhã para conseguir preparar os alimentos e estar pronto para as vendas às 5 horas.  

A avenida Pacaembu passa embaixo de sua mesa. Na sua frente fica um corredor de ônibus e acima dele, o Minhocão, que conecta as zonas leste e oeste da cidade de São Paulo. As histórias compartilhadas todo dia vazam por aí, quase se esgueirando pelo ar da cidade e alcançando os ouvidos dos pedestres. Com o tempo, ele mesmo foi acumulando histórias para contar. Como o dia em que o celular dele foi roubado e ele foi atrás do sujeito e quase se meteu em uma enrascada. 

Mas as melhores histórias estão longe de serem essas repletas de aventuras pela cidade. Ali, enquanto ele atende a clientela que passa na correria, alguns param para tomar o café com calma e sentam no ponto de táxi que fica perto de sua banca. Nesse espaço cada um escuta e fala o que sente vontade. “Tem gente que eu conheço aqui há oito anos. Frequenta o mesmo lugar, faz a mesma rotina todos os dias”. E essa rotina inclui esse espaço de chorar e de rir.

Via de vidas

Pai mineiro, mãe baiana e avó carioca. Desde de que se conhece por gente, Floriano é de São Paulo. Ele se formou em dois cursos: administração e fotografia. Como fotógrafo, dentro de sua própria agência de eventos ele já registrou 380 casamentos. “A crise entrou, começou a cair, aí eu desisti. Foi quando eu montei isso aqui. Na verdade, não montei para mim, eu montei para minha mulher”. Sua esposa conseguiu um trabalho melhor e o negócio acabou ficando para ele. Hoje, por mais que as vendas de café da manhã representem um lucro a mais para a família, ele diz que a razão para continuar é outra. “Eu não venho nem pra vender, é mais uma terapia do que trabalho. Porque eu tenho um trabalho. Eu tenho uma empresa que eu trabalho com segurança digital”. Ele explica que, por mais que não seja essencial para a renda de sua família, a venda de café da manhã é um importante complemento. Ele vai dormir todo dia às onze horas da noite e acorda cedo para preparar os alimentos. Os finais de semana são seu único descanso diante da rotina agitada.

A cada manhã, a cena se repete. Desde que chega no ponto logo cedo, entre clientes que se alternam a cada dia, há os grupos que aparecem e se dispersam a cada hora. “Tem o pessoal das seis, das sete, e das oito horas. Cada um tem suas histórias, suas conversas, cada um tem seu jeito”. O grupo que chega mais cedo é mais sonolento e tem mais pressa, muitos são estudantes. Já o último, das 7:30 até as 8:00. São as “mais doidas”, como ele brinca. São todas mulheres que trabalham no entorno como diaristas ou nos mercados próximos e que iniciam sua rotina justamente ali. 

Mulheres sentadas em um ponto de ônibus
A cada dia, uma das mulheres do grupo paga a rodada de café antes de ir para o serviço [Imagem: Catarina Martines/Jornalismo Júnior]

De vez em quando, as vozes atravessam a avenida e chamam atenção de quem passa apressado. Há quem reclame do barulho, há quem sorria sem saber o motivo. Para Floriano, é justamente isso que faz sentido. Entre uma piada e outra, alguém sempre lembra das dificuldades:o aluguel, o ônibus atrasado, a vida que não dá trégua.

Como a mulher que trabalha na clínica odontológica, elas também têm problemas em casa. Mas ali, Alice, Joyce, Juremy e todas as outras que fazem parte desse grupo têm voz e nome. Os desabafos são vários. Tem dias que o riso supera o choro e dias que o choro supera o riso, mas entre as conversas sobre a casa, o trabalho, a comida e o marido, esse espaço de escuta se torna fundamental. “Quantas vezes eu tô com algum problema em casa, aí eu chego aqui, começo a contar e eu choro ali e lá. Aí de vez em quando ela chora também”, comenta uma delas. Nos aniversários sempre tem uma comemoração especial e no fim de ano também acontece um amigo secreto. Tem alguns conhecidos da banca de café da manhã que Floriano já programou de alugar uma casa e passar o fim de ano juntos com suas famílias.

Há dez anos Floriano mantém o mesmo ponto, o mesmo café e, principalmente, as mesmas vozes. Já viu gente perder o emprego, mudar de bairro, se separar, casar de novo. Alguns clientes nunca mais voltaram, mas às vezes mandam mensagem, ligam, perguntam das meninas. Outros, novos, se encaixam sem esforço na roda. É um pedaço de cidade que se renova todos os dias, mas nunca muda de alma.

[Imagem de capa: Catarina Martines/Jornalismo Júnior]

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