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Nuremberg’: tem pessoas como os nazistas em todos os países do mundo, inclusive na América

James Vanderbilt surpreende com narrativa crítica, ultrapassando o julgamento de Nuremberg rumo aos Estados Unidos do século XXI
Bernardo Medeiros (bernardo10medeiros@usp.br)

Dirigido por James Vanderbilt, Nuremberg (2026) chega aos cinemas nesta quinta-feira (26) e coleciona precedentes para ser mais um filme cafona, épico e anacrônico sobre a Segunda Guerra Mundial, relatando a “última” vitória dos Aliados sobre a Alemanha. É fácil esperar que o longa-metragem massacre os nazistas e engrandeça os americanos, sobrevoando erros históricos e debates essenciais do período. No entanto, a produção destoa do portfólio de Vanderbilt, e o resultado é uma obra bem construída, que mantém o aspecto heróico e dramático do Tribunal, mas deixa o espectador com mais reflexões do que respostas.

Em 7 de setembro de 1945, soldados do 7º Exército dos Estados Unidos capturaram Herman Göring, oficial do alto comando alemão considerado o braço direito de Adolf Hitler. Junto a outros 21 oficiais, Göring foi mantido preso em Luxemburgo, enquanto esperavam um desfecho para a trama doentia que teceram ao longo de mais de uma década. É a partir daí que o longa começa a se revelar como mais do que um velho clichê de guerra.

O tribunal de Nuremberg ficou conhecido como o “tribunal das seis milhões de palavras” pela quantidade massiva de documentos que foram deixados pelos nazistas
[Imagem: Divulgação/ Diamond Films]

O filme é uma adaptação da obra O Nazista e o Psiquiatra (Planeta, 2025), de Jack El-Hai, baseada nas interações que Douglas Kelley (Rami Malek) e Hermann Göring (Russel Crowe) tiveram entre o período da sua prisão e o desfecho do julgamento. O livro ainda é um desenvolvimento da obra que Kelley escreveu após a sua experiência, mas que acabou caindo no ostracismo. Nas duas horas e meia de filme, há uma distribuição não exatamente ideal, mas funcional, entre os momentos de interação dos dois personagens e os conflitos secundários da trama. Com um início interessante e final satisfatório, o filme ganha complexidade nas suas questões morais, filosóficas e legais, mas ostenta um meio exageradamente dramático, que muitas vezes esquece o seu propósito.

Até por isso ele consegue ser emotivo, chocante e cativante. Enquanto a trama se desenvolve, o espectador se perde no carisma e charme do oficial nazista, aproximando as questões pessoais que Kelley enfrentou em relação a Göring. Muitas vezes o trabalho do psiquiatra se confunde com o fascínio pelo personagem e mesmo com as relações que crescem com o lado humano do oficial nazista, como a sua família. A intimidade entre ambos, às vezes exagerada, torna-se pivô para a afirmação central da obra: os nazistas são como todas as outras pessoas.

A complexidade da história não se sustenta sem a atuação de Leo Woodwall, como o Sgt. Howie Triest, soldado americano que serve como tradutor entre os prisioneiros alemães e os oficiais americanos. Fugindo das comédias românticas e filmes de ação, Woodwall sustenta um personagem complexo, profundo e enigmático, mesmo que não à primeira vista. É por meio de um monólogo do Sgt. Howie Triest que o filme se desenrola para o seu desfecho, e, durante toda a trama, paira como um ponto de interrogação sobre a certeza da suposta maldade intrínseca aos nazistas.

Ao longo do trama, Douglas Kelley e Howie Triest desenvolvem uma colaboração e amizade que sustentam as grandes questões morais do filme
[Imagem: Divulgação/Diamond Films]

A estrutura clássica de um filme de guerra ainda está presente. O conflito inicial é como julgar um país por crimes que ele mesmo cometeu. Que códigos de lei usar? Como organizar os juízes e promotores? Porque não simplesmente fuzilar os derrotados? Essas dúvidas são respondidas em uma aula histórica sobre a formação do primeiro Tribunal Internacional de Justiça, que serviu como base para o Direito Internacional e tribunais posteriores. As respostas se desenvolvem em uma batalha judicial, em que o juiz americano, Robert H. Jackson (Michael Shannon), apontado como promotor do julgamento, tenta encontrar maneiras de vencer Göring e o que restou do nazismo pelas armas da lei.

O resultado é plenamente satisfatório, mantendo a tensão durante todo o Thriller enquanto abre espaço para o desenvolvimento de uma profundidade maior ao drama histórico. A cartada final também não deixa a desejar, arrematando a história do tribunal em uma batalha intelectual belamente interpretada por Shannon e Crowe, com a ajuda de Richard E. Grant, interpretando brilhantemente o advogado britânico Maxwell Fyfe.

Felizmente, o filme continua. A história de Douglas Kelley e o que aconteceu com ele após o tribunal possui um desfecho rápido, mas o ensinamento que ele deixa é duradouro. Em uma cena detalhadamente desenhada, o filme fecha com um aviso do psiquiatra para os americanos, não tanto os americanos da sua época quanto para os Estados Unidos atuais: “Existem pessoas como os nazistas em todos os países do mundo, inclusive na América”.

Mesmo não sendo o foco central da narrativa, que se volta intensamente para o relacionamento entre o psiquiatra e o nazista, a questão da “origem do mal” está presente em todo o filme, como uma neblina que não se dissipa. A resposta não é certa, e é uma questão de debate entre filósofos, sociólogos e historiadores até hoje, mas deixa a verdade concreta de que o nazismo se proliferou na Alemanha entre pessoas comuns, que não tinham uma predisposição para o mal e eram até demasiadamente humanas.

Uma produção hollywoodiana com ares europeus, Vanderbilt conseguiu equilibrar bem a magnitude de uma boa produção e cinematografia com debates atuais e centrais ao momento histórico que desenhou. Outra glória do longa é a escalação dos atores, que, de forma geral, fizeram um ótimo trabalho. Destaco aqui as interpretações de Leo Woodwall e Michael Shannon, surpreendendo com uma atuação sóbria porém complexa. Os méritos ainda se estendem para Malek, que interpretou mais um personagem profundo com maestria e toques de sarcasmo. O filme não é perfeito, mas, no contexto atual, cai como uma luva.

Mais fácil é acreditar que a história sempre tem um lado bom e um lado ruim, mas ela prova o contrário, e o presente ratifica. A mensagem que o filme deixa não é: “América, nós vencemos!” Mas um pedido de cautela em meio ao extremismo que a mais longeva democracia do mundo está inserida no momento. O retrato que o filme faz de Nuremberg não poderia ser mais fiel. O mesmo país que venceu o nazismo pelas armas e pela justiça vê o seu ressurgimento no coração do próprio governo. Poderia ser uma ficção, mas é mais um drama histórico.

“A única forma de prever o que o homem pode fazer é aquilo que ele já fez”
R.G. Collingwood, citação presente ao final de “Nuremberg

Nuremberg já está disponível nos cinemas brasileiros, confira o trailer:

* Imagem da capa: Divulgação/Diamond Films

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