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‘A Cronologia da Água’: Kristen Stewart dobra a aposta na sensorialida

Em longa de estreia, cineasta adapta livro de memórias com ousadia formal e vaivém narrativo
Por João Lucas Casanova (joaolcasanova@usp.br)

Kristen Stewart tem mesmo uma carreira singular. De estrela na saga adolescente Crepúsculo, onde enfrentou os floreios e mazelas da fama, à atriz de filmes independentes, tornando-se inclusive musa de Olivier Assayas, Stewart é dos raros casos de artistas que vão do céu ao inferno com igual dignidade.

Sua estreia na direção, A Cronologia da Água (The Chronology of Water, 2026), que estreia nesta quinta-feira (2), deixa isso claro. Baseado no livro de memórias de mesmo nome, escrito por Lidia Yuknavitch e sem publicação no Brasil, o longa é repleto de subidas e descidas, nem sempre distinguíveis como tal, pertencentes à experiência humana.

A escritora da obra original, Yuknavitch, é vivida no filme de Stewart por Imogen Poots, da juventude à vida adulta. Crescendo em um ambiente opressivo e com um pai abusador, a jovem encontra escape na natação e resistência na escrita.

Apesar dos momentos narrativos — os relacionamentos, as idas e vindas, as tragédias e êxitos  — serem bem demarcados, com frequência o foco se desvirtua dos fatos e se aproxima da experiência de senti-los. Da infância marcada pela incompreensão à juventude que alterna entre pesos e extravasos, o longa caminha pelos eventos biográficos com a fluidez aquosa que intitula a obra, menos enquanto alegoria dramática fajuta e mais como apropriação efetivamente sentida na forma.

Talvez seja esse o aspecto que se sobressaia no longa. A preocupação com a materialização da imagem e do som, seus efeitos em constante destaque, é impassível a qualquer que seja o espectador. Se há quem considere uma tendência de conformismo ao texto no cinema derivado da literatura, Stewart vem para subverter as expectativas.

O longa está o tempo todo tentando buscar maneiras novas de apresentar suas proposições temáticas. Há ênfase no aspecto tátil, na sensorialidade das experiências vividas pela protagonista, seja pelas ranhuras sonoras, ampliadas pelo som galopante de uma boa sala de cinema, ou nos closes exacerbados e cortes abruptos, que rompem com a visão estática e esquemática das regras de coesão cinematográfica.

Em nenhum momento essas características causam uma confusão no espectador. A história segue uma progressão natural, mesmo com recursos narrativos que embaralham e adensam o que se entende por tempo e sua continuidade no espaço da memória. Com isso, o drama não se perde pela predileção formal, mas é atenuado. Nas duas horas de projeção, a repetição à exaustão de traquejos audiovisuais acaba por deixar a humanidade de Yuknavitch em segundo plano.

É um efeito curioso. Não há na protagonista de Stewart ausência de sentimento. Eles estão, na realidade, esmiuçados na tela de muitas formas. Porém, isso também faz com que sua experiência prática seja dissociada de parte do significado. Entende-se o que ela sente, o porquê sente, mas há pouco espaço para compreendê-la para além da sensorialidade.

A personagem Lidia Yuknavitch é vivida na infância pela atriz mirim Angelika Mihailova [Imagem: Divulgação/Filmes da Estação]

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), de Terrence Malick, opta por caminhos parecidos. No longa, uma viagem expansiva pelas origens do universo sob a ótica de uma família comum americana, faz-se também uma escolha pela inconvencionalidade, pela busca de novas imagens e experiências de cinema. Uma diferença primordial para o filme de Stewart é que, em Malick, o trajeto atende antes à bem fundamentada ordem da fé. A espiritualidade como mote de uma jornada sem entrada e saída clara, mas conteúdo inviolável.

Há em A Cronologia da Água temas muito fortes que conduzem o drama: gênero, sexualidade, a extensão do trauma, sua possibilidade de contornamento ou não. Nada disso se dilui por completo, mas tem pouco da assertividade emocional que a intensa experiência estética apresenta.

Não deixa de ser admirável a tentativa válida de se abraçar o todo que faz a estreante cineasta. Stewart já está há tempo demais nesta indústria para saber que o conformismo não traz consigo benefícios. E as consequências não olham motivação. Se for para pecar, é melhor que sejam pecados novos, dotados da subjetividade de quem os realiza.

A Cronologia da Água já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer

*Imagem da capa: [Imagem: Divulgação/Filmes da Estação]

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