Por Maria Luiza Negrão (maluizacnegrao@gmail.com)
Entre os dias 9 e 19 de abril, será realizada a 31ª edição do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, que ocorre em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com programação diversa, que inclui até uma seleção especial infantil — o É Tudinho Verdade, novidade deste ano —, a abertura do festival em terras paulistanas fica por conta do biográfico Bowie: The Final Act (2025).
Dirigido por Jonathan Stiasny, o documentário reúne amigos e ex-colegas de David Bowie para recontar a trajetória artística e pessoal do camaleão do rock. O filme passa pelo icônico Ziggy Stardust dos anos 70 até chegar ao terminal Blackstar, de 2016, mas sua condução é heterogênea e questionável.

Às vésperas do ano 2000, em meio ao fascínio com as novas invenções digitais, Bowie declarou que a internet era assustadora e uma força alienígena. “Existe vida em Marte? Sim, ela acabou de pousar aqui”. O depoimento deflagra a característica que definiu sua carreira: o fardo de, sob quaisquer circunstâncias, estar à frente do tempo em que vivia.
Tão à frente que lançou seu último álbum Blackstar apenas dois dias antes de sua morte. Sua obra derradeira foi produzida como um grand finale. Uma despedida excelente para um astro de seu porte, como sugere o título do documentário. É uma pena, portanto, que esse final act ocupe tão pouco espaço dentro dos 90 minutos de filme.
O que dura e perdura é a volatilidade de Bowie, que o carregou por uma infinita montanha-russa de adoração e rejeição frente ao público. Os relatos — todos muito bem gravados, iluminados e editados — concordam: ele não era de fazer sala para ninguém e nem de ficar onde não queria mais estar.
A construção narrativa do longa tenta, então, condensar a lógica bowiana, o que não foi a escolha mais esperta a se fazer. Em meio aos muitos ziguezagues do filme, o não-fã pode ficar ainda mais confuso quanto às escolhas do cantor. Para o público, entender a sequência cronológica dos acontecimentos mostrados em muitas idas e vindas temporais é tão difícil quanto deve ser produzir um documentário — mas esse, felizmente, era trabalho para a equipe, e não para nós, meros espectadores.
Também felizmente, a confusão não joga fora todo o potencial do filme. Há ainda o brilho técnico da fotografia e iluminação e a excelente edição do documentário como um todo. O uso bem-encaixado de materiais de arquivo se une aos pontos positivos do longa que, assim como Bowie, é capaz de arrancar lágrimas do público, principalmente em torno do final da vida do artista e da produção.

Este filme fez parte do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’. Para mais resenhas do festival, clique na tag no início do texto.
Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@etudoverdade
