Por Estela Bughay (estelabhupalo@usp.br)
Não é apenas de documentos velhos, poeira e boa vontade dos colaboradores que um acervo histórico sobrevive. Esses espaços escondem um conjunto enorme de equipamentos necessários para garantir sua sobrevivência, desde produtos químicos específicos para higienização de materiais até scanners altamente tecnológicos para a digitalização de documentos, o que faz com que os acervos deixem de ser apenas importantes centros de conhecimento e cultura, e se tornem mobilizadores no desenvolvimento de novas tecnologias. Em entrevista para o Laboratório, especialistas explicaram como o trabalho de conservação de documentos é meticuloso e dependente de aparatos tecnológicos em todo o processo.
De arquivo a centro de conhecimento: o que é um acervo histórico?
Um acervo histórico, antes de tudo, é um depósito de documentos. Sejam públicos ou privados, eles são responsáveis pelo armazenamento, catalogação e organização de materiais históricos que poderão ser utilizados como fonte de dados e informações. No Brasil, um exemplo é o Arquivo Nacional, que desde sua criação, em 1838, abriga documentos sobre a administração pública do país, e o Arquivo Público do Estado de São Paulo, criado em 1892, responsável por um acervo de mais de 25 milhões de documentos textuais e iconográficos sobre a história de São Paulo e do Brasil.
Para além do papel de armazenar documentos, os acervos também existem em uma dimensão pedagógica. De acordo com o Professor Doutor Vitor Marcos Gregório, coordenador do Acervo e Centro de Pesquisa Histórica de União da Vitória, os acervos são espaços de democratização do conhecimento histórico, e desempenham um papel importante na criação da identidade cultural e histórica do local em que se encontram. É nos acervos históricos que ideias são trocadas, pesquisas são realizadas e o conhecimento é compartilhado.
Por isso, a conservação dos documentos é fundamental para que os acervos possam cumprir sua função, defende o professor. É nesse processo de limpeza, restauração, organização e digitalização que as tecnologias se fazem necessárias e se tornam indispensáveis para a sobrevivência desses espaços.
Quais são essas tecnologias?
Tudo começa com a higienização. Quando chegam aos acervos, os documentos costumam apresentar acúmulo de sujeira devido ao seu tempo de existência e às condições em que foram previamente armazenados. Rita Cunha, conservadora restauradora de bens culturais e doutoranda em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica em entrevista ao Laboratório que a higienização tem como objetivo remover as sujidades e pode ser feita de duas formas. Há a limpeza mecânica, que utiliza trinchas ou pincéis de cerdas macias e aspiradores com filtro HEPA (responsáveis por reter partículas de até 0,3 mícrons) para remover poeira e resíduos soltos, e a limpeza química, utilizada em casos de acidez elevada ou quando há partículas impregnadas no papel. A limpeza química, também chamada de higienização úmida, utiliza água deionizada, que é isenta de minerais contaminantes. Por envolver risco de danos irreversíveis ao documento, o procedimento exige alto conhecimento técnico para ser realizado.
Para a restauração dos documentos, Cunha destaca a importância de utilizar técnicas reversíveis e que sejam quimicamente estáveis, a fim de preservar ao máximo o documento em sua forma original. Quando o material apresenta rasgos e fragilidades, utiliza-se o papel japonês associado a adesivos reversíveis, como a metilcelulose, para consolidar sua estrutura. Já em casos de deformação, os documentos passam pelo processo de planificação, que recorre à umidade controlada e prensagem adequada.
Outro aspecto importante da conservação de materiais históricos é o controle do ambiente em que eles são armazenados. A ventilação e temperatura devem seguir normas rigorosas para evitar que a documentação fique exposta aos processos naturais de degradação, como amarelamento e acidificação, além da ação de agentes biológicos como fungos e insetos. Cunha explica que o espaço deve ser mantido entre 18 °C e 22 °C e umidade relativa entre 45% e 55%, para garantir a preservação dos documentos. Segundo ela, variações bruscas no ambiente devem ser evitadas, para que não haja deformações estruturais causadas pela dilatação e contração do material. Para a iluminação, também existem tecnologias específicas que devem ser utilizadas. O recomendado são lâmpadas de baixa de radiação ultravioleta, para evitar a desintegração de tintas e o envelhecimento celulósico.

[Imagem: Reprodução Governo do Estado de São Paulo/ Flickr]
“Cabe asseverar que produtos de uso cotidiano representam sérios riscos devido às suas composições instáveis e potencialmente corrosivas” ressalta Cunha. O uso de produtos como fitas adesivas comuns e materiais de limpeza domésticos pode prejudicar o material e causar danos irreversíveis. Ela também destaca a importância de pessoas capacitadas para essa função e a dificuldade de encontrar esses profissionais.
Mas nem tudo são flores…
Por mais que o processo de conservação e manutenção de um acervo exija equipamentos próprios, conhecimento técnico especializado e infraestrutura adequada, essa não é a realidade de muitos acervos históricos de pequeno porte. Esse é o caso do Acervo e Centro de Pesquisa Histórica de União da Vitória, cidade localizada no interior do Paraná, que existe desde 2016 sob a coordenação de Vitor Marcos Gregório, que relatou ao Laboratório as dificuldades enfrentadas durante esses anos.
De acordo com o professor, a estrutura física do Acervo representa um risco para os documentos. “Para um acervo histórico, o espaço físico é fundamental. Então, por exemplo, em hipótese alguma pode ter goteira, e durante muito tempo eu briguei com goteiras, ainda brigo.” relata. Desde 2022, o Acervo funciona na Estação União, local histórico da cidade, que enfrenta problemas em seu prédio, como goteiras recorrentes que podem danificar os materiais armazenados. Além disso, a falta de mobiliário específico para acervos históricos leva o professor e os voluntários do Acervo a recorrerem a soluções improvisadas, como o uso de canos de PVC para guardar mapas, que deveriam ser acondicionados em mapotecas, um tipo de armário específico para a organização e armazenamento de produções cartográficas.
As soluções encontradas são as alternativas que existem diante da falta de investimento. Tanto Cunha quanto Gregório ressaltaram que os acervos, tanto públicos quanto privados, são dependentes de investimentos para obter novas tecnologias. Investimentos, esses, que muitas vezes não existem ou não são contínuos, o que impacta todo o trabalho realizado nos acervos, de acordo com eles.
“Trabalhar com história, com cultura em geral no Brasil, dependendo do nível de cultura, é acostumar-se a trabalhar com a insensibilidade, o descaso da sociedade.”
Vitor Marcos Gregório, coordenador do Acervo e Centro de Pesquisa Histórica de União da Vitória
Na era do digital, a história não pode ficar para trás
Em meio a essas dificuldades, Gregório destaca o meio digital como um aspecto importante para a preservação e acessibilidade dos acervos históricos. Com tecnologias como os scanners e câmeras fotográficas, os materiais podem ser digitalizados e disponibilizados online para que possam ser acessados de qualquer lugar, sem a necessidade de consulta presencial. O professor também ressaltou que o Brasil é pioneiro nessa prática, usando como exemplos a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e o Arquivo Nacional, que disponibilizam gratuitamente seus documentos digitalizados.
Para Cunha, a digitalização também contribui para reduzir o manuseio excessivo dos documentos, o que diminui a chance de danificar o material original. Mesmo assim, o processo deve ser feito com cuidado, pois a fragilidade da documentação representa um desafio. Por isso, é importante a utilização de tecnologias que não representem riscos, como o uso de scanners que permitam a digitalização sem contato direto com os documentos.

[Imagem: Reprodução Governo do Estado de São Paulo Flickr]
Quando questionado se a digitalização não acabaria prejudicando a necessidade de um espaço físico para acervos históricos, o Gregório explicou que não. “Não é só um depositário de documentos, um lugar onde você junta papel velho, você organiza esses documentos, você tem que manter as versões originais desses documentos, então esse espaço sempre vai ser importante, mas ele também é um lugar de troca de ideias, de realização de pesquisas.”, afirma.
As tecnologias, cada vez mais aprimoradas, são uma forma de garantir a sobrevivência dos acervos históricos. “É o acervo cumprindo seu papel de democratização do conhecimento histórico através de um exercício fundamental de tentativa de tornar esse conhecimento histórico acessível”, diz Gregório.
*A capa desta matéria usa imagens editadas de aopsan e neopicture no FreeImages
