Por Helena Brambilla (helenacbrambilla@usp.br
No dia 25 de junho, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) abriu um processo administrativo contra o canal de esportes CazéTV devido ao número de propagandas de bets e casas de apostas online feitas durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo de 2026, que geraram repercussão na internet. Desde o início do torneio, os comentaristas e narradores dos jogos davam dicas sobre como apostar e mencionavam as possibilidades de retorno instantâneo do dinheiro, sem mencionar as possíveis perdas. A prática infringe o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (CBAP) e, segundo o Conar, induz o telespectador ao erro, colocando em risco sua saúde financeira e mental.
De acordo com dados da consultoria global de lazer e esportes, a Regulus Partners, divulgados à BBC News, o Brasil tornou-se o quinto maior mercado mundial de apostas online em 2025. A estimativa é de que no último ano, as bets tenham faturado cerca de US$ 4,14 bilhões no país. Entretanto, essa abundância financeira entra em conflito com uma realidade social drástica: dados da Pnad Contínua – Rendimento de todas as fontes 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados pelo G1, mostram que, no mesmo ano, 70% da população brasileira sobrevivia com até dois salários mínimos.
Apostas e crise financeira
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgados no primeiro semestre de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior patamar desde o início da série histórica em 2010. Desse total, 84,9% das dívidas são relacionadas às compras no cartão de crédito. Porém, por que as dívidas não estão sendo pagas?
De acordo com a CNC, isso se deve ao fato de que o crescimento das bets no Brasil dificulta o pagamento das dívidas e pode até gerar novos endividamentos. Além disso, a pesquisa mostra que as apostas representam um risco sistêmico para a saúde financeira dos brasileiros, retirando recursos que seriam utilizados para o consumo produtivo ou destinados ao comércio varejista. A associação estima uma perda de R$ 143 bilhões entre os anos de 2023 e 2026.

As bets representaram 38% dentro do gasto com lazer e cultura das classes C, D e E, em 2024, de acordo com dados da consultoria Strategy&, da PwC, divulgados pelo The Intercept Brasil em maio. Mas, segundo a pesquisa, não são apenas essas classes que apostam, o volume de apostas por classe social é bem dividido; o problema não é quantas pessoas apostam, mas sim o quanto isso representa dentro das condições financeiras delas.
O jornal digital fez o cálculo de quanto o valor apostado significa de acordo com a classe social. As famílias de classe média alta apostam, em média, R$ 255 por mês, o que representa menos de 1,5% da renda mensal. Enquanto para os mais pobres e beneficiários do Bolsa Família, que apostam cerca de R$ 152 mensais, o gasto passa a representar 15% do valor do benefício e 5,7% de toda a sua renda anual.
Em entrevista à J.Press, o pesquisador no Centro de Desenvolvimento Internacional da Harvard Kennedy School e economista Victo Silva reafirma a importância de realizar pesquisas sobre o assunto. Para ele, esses levantamentos são necessários, mas alerta que eles devem ir além da vigilância quantitativa — que mede a quantidade em números — e ser também qualitativos para captar os impactos psicológicos e sociais do fenômeno.
Segundo ele, divulgar dados sem uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema que considere é estigmatizar uma população já subjulgada. “Quando você faz esse tipo de comunicação e associa o Bolsa Família a endividamento ou dependência de bets, ainda mais com pouca pesquisa de evidências iniciais que você tem, é uma irresponsabilidade”, afirma.
O lucro é calculado com precisão
De acordo com a psicóloga Jéssica Campara, em entrevista ao podcast Eslen Podcast, as plataformas de apostas online têm um objetivo claro: ganhar dinheiro e, para isso, elas são projetadas para manter o jogador engajado. Dentro das bets existem as chamadas odds, que determinam o ganho de uma aposta. Essas taxas de retorno são calculadas a partir dos perfis dos times que estão jogando por completo e também de como o público vai apostar, para garantir o lucro para a plataforma, conforme reportagem da BBC.
A publicação explica que, em um jogo entre o melhor (A) time do campeonato e o pior (B), as odds de vitória para o time A seriam baixas, pois é esperado que esse time ganhe. No entanto, a cotação para o time B seria altíssima, o que engana o público. Parte dos apostadores acredita que está sendo mais inteligente que a casa ao apostar no time que tem menos chance de ganhar, pois se eles estiverem certos, o ganho será muito maior que o valor apostado. Outra parte segue o caminho “mais seguro” e aposta no time que tem mais chances de vitória, porque se der a obviedade, eles vencem.
As odds são calculadas cruzando a probabilidade estatística do evento com a expectativa de aposta dos jogadores, isto é, garantindo que a margem da casa, o juice, esteja protegida. O valor de todas as apostas cobre o prêmio dos vencedores e, ainda assim, gera dinheiro para as plataformas.

Os motores do crescimento de mercado das Bets
Segundo relatório do Banco Central (BC), divulgado em setembro de 2024, durante o mês de agosto de 2024, os 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para as bets via Pix — para termos de comparação, com essa mesma quantia seria possível comprar na época, em torno de 3,5 milhões de cestas básicas. O documento mostra ainda que o mercado das bets já é dez vezes maior que as loterias tradicionais.
Para Sílva, a alta aderência do Pix para transações desse tipo se deve ao fato de que é considerado um “diluidor de fricções”, ou seja, ele “facilita o processo de transferir dinheiro para as empresas de apostas”. O economista complementa que as transações que não são benéficas para a economia ou para a sociedade, como as apostas online, devem ter maiores fricções.
A advogada desportiva Júlia Cunha compartilha a mesma opinião. Ela explica que, diferentemente de jogar na loteria, por exemplo, em que o jogador se dirige até o local, com o Pix todas essas dificuldades são “diluídas”, o que torna a aposta mais fácil e prática.“O Pix sozinho só facilita a transação, o problema acaba sendo a combinação entre facilidade de acesso, impulsividade e falta de educação financeira e legislativa”, afirma.
Em entrevista à J.Press, Maria (nome fictício usado para preservar a identidade da fonte), irmã de um ex-adicto, relata como o vício em jogos de apostas levou seu irmão João (nome fictício usado para preservar a identidade da vítima) ao suicídio. Segundo ela, a facilidade das apostas online contribuiu para o vício. “Teve uma época que minha família ficou toda viciada em bingo. Para o bingo, ele tinha que sair da casa dele pra ir até o lugar jogar. Só que com o acesso no celular ficou bem mais fácil pra ele jogar e isso foi alimentando mais ainda o vício dele”, afirma.
Ludopatia: quando apostar vira doença
A ludopatia é um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), caracterizado pela vontade incontrolável de jogar. Em novembro de 2024, o Ministério da Saúde enviou um ofício ao Supremo Tribunal Federal (STF) classificando o processo de vício em apostas como se assemelhasse ao vício em álcool ou cigarro. Porém, de acordo com um artigo publicado pela Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o viciante não é uma substância, mas, sim, a liberação do hormônio dopamina no cérebro que se intensifica a cada jogada e faz com que a pessoa fique dependente dessa sensação.
Maria (nome fictício) relatou que a identificação da doença foi o que comprometeu a situação de João (nome fictício). “É uma doença. E antes de ele falecer, ele deixou um vídeo pra minha cunhada, dizendo que o jogo o venceu, que ele não conseguia sair daquilo. Então, é uma doença e a gente descobriu isso depois que ele foi”.
O caso do irmão de Maria não é isolado. De acordo com um estudo do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP), mais de 27% dos jogadores compulsivos brasileiros apresentaram ideação suicida. A taxa de mortalidade por suicídio, dentro da taxa de mortalidade total, segundo a OMS entre homens é de 12,6% por 100 mil enquanto, entre mulheres, a taxa é de 5,4% a cada 100 mil.
Regulamentação
Quando se trata de regulamentação do mercado de bets, ainda há muito o que se discutir. Segundo os especialistas ouvidos pela J.Press, Silva e Cunha, o vácuo regulatório após a liberalização das bets no mercado brasileiro e a arrecadação de impostos em cima do lucro das apostas são problemas.
Para Silva, a regulamentação das bets foi a responsável por elevar o acesso a jogos de apostas em escala nacional. “À medida que isso é difundido, fica um pouco mais difícil depois de você voltar atrás. Porque você acaba criando uma cultura”, afirmou.
Cunha explicou que as plataformas iriam se estabelecer no mercado brasileiro de qualquer maneira, pois a lei estipulava isso; mas que o vácuo contribuiu para que elas se estabelecessem no mercado de forma mais predatória.
Outro fator importante citado pela advogada é a responsabilidade da plataforma em relação ao vício: “O que podemos afirmar é que existe um dever legal de diligência das plataformas para identificar comportamentos abusivos ou sinais de dependência, embora ainda exista debate jurídico sobre até onde vai essa responsabilidade civil em casos concretos”.
Ela explica que a Lei nº 14.790/23, conhecida como “Lei das Bets”, prevê a obrigatoriedade de políticas de “jogo responsável” e de prevenção à ludopatia e exige que as empresas de apostas adotem mecanismos de monitoramento de comportamento dos usuários e comunicação constante sobre os riscos do jogo compulsivo.
Além disso, as bets já arrecadaram mais que setores tradicionais da economia, como educação e comércio varejista, por exemplo. Para Victo Silva: “O grande interesse do governo, a meu ver, por enquanto, tirando interesses individuais de talvez um ou outro político, é a arrecadação. Porque é uma escala muito alta, é muito dinheiro.”
Os dados da Receita Federal obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Pay4Fun confirmam a opinião do especialista e mostram que durante o primeiro trimestre de 2026 o governo federal arrecadou R$ 4,17 bilhões com jogos e apostas, dos quais R$ 1,15 bilhão veio das bets.
No Brasil, existem 186 empresas de apostas autorizadas a operar, que estão dentro da Lei 14.790/2023 e cumprem as normas da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). O imposto sobre elas é de 12% em cima da Receita Bruta de Jogo (GGR), que é a receita bruta gerada pelas apostas em uma plataforma. Esse percentual aumenta anualmente, 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028.
Segundo dados do Portal TMC, dentro do valor arrecadado foram utilizados R$ 12,8 milhões pelo Ministério da Saúde para medidas de controle, prevenção e mitigação dos danos das apostas, valor que representa aproximadamente 0,3% do total. Outros ministérios contemplados foram Esporte, Turismo, Segurança Pública, Seguridade Social e Educação.
“O governo está arrecadando muito dinheiro em impostos. Então, quanto maior a atividade e a arrecadação das bets, maior a arrecadação do governo”
Victo Silva
O mercado ilegal, no entanto, ainda existe e faz o Brasil perder em torno de R$ 10,6 bilhões por ano, o que representa 40% da indústria de apostas do país, segundo o presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), Fernando Vieira. Uma pesquisa realizada pela LCA Consultores e apoiada pelo IBJR revelou que 61% dos entrevistados apostam em plataformas irregulares em 2026.
Parte desses apostadores afirma não ter condições de distinguir sites ilegais de plataformas regulamentadas. A advogada explica alguns mecanismos dentro da lei que tentam proteger o usuário das plataformas: “Em regra, podemos confiar nas plataformas que têm como final de domínio o termo ‘.bet.br’, porque somente as operadoras legalizadas podem utilizar essa terminologia. Além disso, no site da SPA/MF, é possível consultar uma lista de todas as operadoras autorizadas.” No entanto, Cunha alerta que esse conhecimento ainda não chegou à maioria dos apostadores e é exatamente nessa lacuna que o mercado ilegal prospera.
