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O passado nunca foi tão atual: como a nostalgia movimenta o consumo entre jovens

O fascínio pelo passado impulsiona o consumo de produtos, músicas e produções de outras décadas, enquanto marcas e redes sociais transformam a nostalgia em uma poderosa estratégia de mercado
Na imagem, uma mulher jovem à esquerda segurando uma câmera digital. Do centro para a direita, vários dispositivos, como vinis, câmerasm mp3, CDs, celulares e rádios.
Por Loren Tangi (lorentangi@usp.br)

O retorno de tendências associadas a décadas passadas tem se tornado muito recorrente. O fenômeno, que já acontece a mais tempo do que se imagina, recebeu destaque nos últimos anos, principalmente em 2026. A venda de produtos como vinil, cybershots, roupas de brechós e livros de sebos se tornaram uma nova moda, principalmente entre os jovens. 

Mas além dos produtos físicos, a tendência inclui até mesmo o consumo de músicas, séries e trends nas redes sociais. Impulsionada por múltiplos aspectos, como influência das redes sociais e até mesmo perspectivas acerca do futuro, ela vem acompanhada  pela narrativa da Nostalgia.

Definida pelo dicionário como “Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada, de uma condição que deixou de possuir, de um lugar, de algo que já viveu”, a nostalgia acompanha a sociedade a anos, e se tornou uma ferramenta dentro da lógica da indústria cultural do capitalismo para o fomento de vendas, segundo Cláudia Pereira.

Em entrevista ao Sala33, a  professora, que é associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), aponta que a nostalgia é criada pelo mercado da moda, que precisa estar sempre se movimentando e é estimulado pela ideia de imitação e diferenciação. Segundo a especialista , a nostalgia torna possível essa diferenciação, pois em algum momento o repertório de ideias se esgota e a percepção mais eficiente é olhar para trás e trabalhar com a ideia de ressignificar o passado.

De acordo com o jornal Ebsrasil a venda de cybershots aumentou em 563% em 2024 [Imagem: Reprodução/Instagram @prettylambstuff]

A trilha sonora do passado conquista novas gerações

De acordo com estudo publicado pela Luminate — monitor de mercado que faz análise de conteúdos culturais — em 2026, o consumo de músicas populares entre os anos 1990 e 2000 está aumentando mais rápido do que de músicas mais atuais. Com destaque nas faixas de 1990, que tiveram um crescimento anual de 8%. Os dados indicam que o interesse por essas músicas parte não apenas de pessoas que viveram as respectivas épocas, anos 1970, 1980, 1990 ou até 2000, mas o público de 13 a 24 anos consome músicas lançadas antes de seu nascimento.

Os dados se  relacionam, por exemplo, com o sucesso de séries como Stranger Things (2016-2025), que se passa na década de 1980, entre jovens. Com uma ambientação nostálgica, a série foi responsável por fazer com que músicas como Running Up That Hill, de Kate Bush, tivessem  um aumento de 8.700% nos streams globais de acordo com a Billboard. Purple Rain, de Prince, que também fez parte da trilha sonora, obteve um aumento de 243% no total de streams e 577% entre o público da geração Z,segundo a revista americana Variety.

Redes sociais como o TikTok também se revelam um meio de descobertas musicais. De acordo com pesquisa feita pelo Dolby Laboratories onde 2000 estadunidenses foram entrevistados, quase 70% deles afirmaram terem descoberto uma música de uma década atrás pela primeira vez e 57% afirmam que as redes sociais são a principal forma de descobrir novas músicas. 

O que domina os streamings

Em 2023 a Nielsen, empresa responsável por analisar dados de audiência, divulgou a lista das 10 séries mais assistidas nos streamings, que  não conta com nenhum título lançado antes de 2020. A série Suits (2011-2019), que gira em torno do personagem Mike Ross (Patrick J. Adams), um gênio que vive fazendo provas para outras pessoas, ocupou o primeiro lugar da lista. 

O público aponta, em comentários nas redes sociais, que motivos pela preferência vão de aspectos como a aparência mais natural dos atores, um grande contraste com a nova onda de cirurgias plásticas, até a impossibilidade de criar alguma conexão com séries atuais por serem muito curtas e constantemente canceladas pelas produtoras. Essa familiaridade com as histórias e até mesmo com a parte visual das produções fazem com que até hoje séries como Grey’s Anatomy (2005-presente), Gilmore Girls (2000-2007) e Friends (1994-2004) tenham grande audiência.

Mesmo após 16 anos do final de Friends, ela ainda apresenta influência no mercado com novas coleções. Uma expressão clara da resistência e da proximidade da sitcom com os fãs, representada na nova colaboração com a marca Crocs, lançada em julho [Imagem: Reprodução / Instagram @sneakernews]

A redescoberta do analógico pela geração digital

As câmeras digitais estão presentes entre os jovens em festas, na faculdade e nas escolas — uma alternativa que se popularizou muito desde a proibição de celulares em 2025. Mesmo com celulares altamente tecnológicos , as câmeras digitais estão de volta pelo seu “aspecto imperfeito” e o contraste com a constante busca por perfeição das redes sociais, além do resgate da estética dos anos 2000.

Lojas físicas e principalmente online, se popularizaram, assim como vídeos sobre influencers falando sobre suas câmeras e aplicativos, como Dazz Cam, que prometem imitar a estética retrô e analógica. A prática faz parte da tentativa de reviver os anos 2000.

Os sebos foram descobertos pelos jovens em 2022, a partir da influência do Booktok, comunidade de criadores de conteúdo de literatura do TikTok. Os sebos são uma alternativa mais acessível e econômica para a literatura, diante do aumento dos preços de livros novos no mercado editorial. O sentimento afetivo criado por livros que já tiveram outros donos e carregam histórias e dedicatórias também são um aspectos que chamam a atenção do público, além da possibilidade de achar edições únicas que não são mais produzidas.

Ricardo Lombardi, dono do sebo Desculpe a Poeira, em São Paulo, afirma que fundou o local em uma tentativa de retomar a tradição de sebos com uma boa curadoria e não apenas um “depósito de livros velhos”, ao notar que os sebos estavam se preocupando principalmente com as vendas online e não com o espaço físico. Ele acredita que o que atrai o público  é a “baixa velocidade”. 

“[O sebo] não está ligado a um fato novo ou lançamentos, é quase como se estivesse parado no tempo, ele tem uma velocidade diferente. E isso atrai as pessoas, especialmente em uma década onde todos estão correndo tanto, com muita pressa e sempre recebendo muita informação de muitas fontes diferentes.”

Ricardo Lombardi

Apesar do sebo Desculpe a Poeira estar localizado em uma pequena rua no bairro de Pinheiros, ele é um local que atrai muitos visitantes e sua popularidade vem crescendo, por ser um local pequeno, nostálgico e com uma dedicada curadoria, repleta de livros de fotografia, jornalismo, literatura e até mesmo vinis
[Imagem: Reprodução/Instagram @desculpeapoeira]

Nostalgia mercadológica e sua relação com as redes sociais

De acordo com a professora Cláudia, que coordena projetos de pesquisa sobre juventudes, mídia e cultura, a nostalgia também vem de um local onde se forma uma relação positiva com o passado em um momento onde o futuro não parece agradável. “Em um momento onde as pessoas vêem uma situação política conturbada, guerras, muitas informações digitais sendo absorvidas a todo momento, os jovens estão cansando disso”, afirma. Para ela, o passado e o analógico têm o poder de transportar as pessoas de um presente pessimista. 

Esse sentimento, quando utilizado por marcas, cria a nostalgia do consumo, que incentiva a compra de diversos produtos que estão ligados à sensação reconfortante. Mesmo quando existem fones mais tecnológicos e músicas em uma versão gratuita e com mais qualidade presente nas plataformas digitais, produtos como fones de fio e discos de vinil vivem um crescimento claro no mercado. 

A venda de discos de vinil já consolidou seu 19º ano consecutivo de crescimento de vendas. De acordo com a Recording Industry Association of America (RIAA), apenas nos Estados Unidos o comércio de LPs e EPs ultrapassou 5 bilhões de reais. Acontecimentos como esse só se explicam por essa lógica da mercantilização da nostalgia e esse sentimento de exaustão do cenário atual, que contribuem entre si.

Um mercado que já passou por um grande declínio nos anos 1990 e 2000 com a popularização dos CDs e dos streamings, hoje retorna como um item de colecionador altamente valorizado
[Imagem: Reprodução/Instagram @giangsaigon2024]

*A capa desta matéria usa imagens editadas do Wikimedia Commons, por McRepairDundee.co.uk, por JoyDeep, e do Vecteezy, por Zabaria Sardar

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