Por Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)
Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, Angelita Habr-Gama foi o nome que redesenhou as fronteiras da medicina brasileira. Mais do que consolidar técnicas que hoje auxiliam milhares de vidas, ela abriu as portas de um meio profundamente masculino e pavimentou o caminho para gerações de mulheres que vieram depois dela.
O legado de Angelita vai muito além dos jalecos, dos títulos internacionais e das paredes dos hospitais. Sua história é a prova viva de que a ambição pode caminhar lado a lado com uma generosidade genuína. Ela não apenas exerceu a medicina, ela a transformou em estilo de vida e em esperança.
Tamanho o prazer que sentia pela sua profissão, a médica se acostumou a ser pioneira em muitas coisas na sua vida. Foi a primeira mulher a se tornar professora titular de uma especialidade cirúrgica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); primeira mulher a ingressar como membro honorário na sociedade cirúrgica American Surgical Association (ASA); primeira fellow do Hospital Saint Marks na Universidade de Londres; primeira e única mulher latino-americana laureada com a Medalha Bigelow (Boston Surgical Society). Além de ter sido incluída na lista dos 2% cientistas mais influentes do mundo pela Universidade de Stanford (2022), ela também já foi considerada uma das mulheres mais influentes do Brasil pela Revista Forbes.
Apesar dos prêmios e reconhecimentos acadêmicos, Angelita foi em primeiro lugar, humana, afirma a Dra. Magaly Gemio, coloproctologista e amiga próxima de Habr-Gama: “Quando ela operava um doente, não importava se fosse do hospital particular ou se fosse do HC [Hospital das Clínicas], ela ia visitar os doentes e fazia questão de os acompanhar. Uma pessoa extremamente acessível e humana, que gostava da vida e aproveitava ela também”.
“Ela conseguiu alcançar tudo o que queria. Foi uma médica e pesquisadora excepcional, além de uma pessoa extraordinária. Angelita era uma pessoa completa.”
Dra. Magaly Gemio, coloproctologista
“Não, não é resposta”
Título do seu livro e sua filosofia de vida, “Não, não é resposta” (DBA, 2020) definiu a trajetória de Angelita da escolha do curso à suas especializações, uma vez que a médica nunca aceitou os “nãos” subentendidos pelas condições de sua vida. Segundo a Dra. Bruna Vailati, membro da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e co-autora de diversos trabalhos com Habr-Gama, “ela nunca aceitou o que era óbvio pra ela. No sentido que era óbvio que uma menina que nasceu na Ilha de Marajó não ia virar médica. Era óbvio que essa médica não ia virar uma cirurgiã. Era óbvio que essa cirurgiã não ia trabalhar com cirurgias abdominais, de tumores volumosos. Ela não sabia ouvir que não. Porque se ela queria uma coisa, era ir até o final.”

Em entrevista ao Jornal da Gazeta, em 2015, Angelita relembrou que, em sua época, o destino mais comum para as mulheres era o magistério. No entanto, decidiu trilhar um caminho diferente ao escolher cursar medicina e, futuramente, a residência médica em cirurgia. Essa decisão, a princípio, não foi compreendida nem por seus pais, nem pelos próprios médicos que a incentivaram a escolher residências mais “femininas” como Ginecologia e Obstetrícia.
Apesar dos estigmas, Gama optou por seguir sua vontade e desenvolver uma habilidade que já carregava desde sua juventude: o corte e a costura, só que dessa vez, na pele humana e não mais em roupas. “Eu tinha uma facilidade maior de usar agulha, de dar pontos, a costureira sabe fazer isso!”, brinca Angelita.
A doutora podia ser definida como teimosa e otimista, segundo Vailati. Sempre acreditava que, mesmo as pesquisas não obtendo os resultados esperados, era possível enxergar uma perspectiva positiva e, quando possível, teimar até que os objetivos fossem alcançados. Relembra, inclusive, quando a doutora apresentou seu método “Watch and Wait” para o tratamento do câncer de reto e recebeu fortes críticas até que sua pesquisa fosse reconhecida e sua técnica adotada como padrão internacional: “quando ela publicou inicialmente, foi um absurdo, um escândalo, foi considerado até antiético, e ela foi tida como uma pessoa louca. Mas se ela tivesse desistido, muitos pacientes não iam ter o benefício da estratégia que ela descreveu hoje.”
Ser médica em tempos de médicos

Habr-Gama enfrentou barreiras durante toda a consolidação da sua carreira em medicina e precisou se provar diversas vezes capaz de atuar em sua especialidade apenas por conta do seu gênero.
Na escolha de cirurgia como sua ocupação, recebeu críticas que afirmavam que ela tiraria a oportunidade de um homem seguir essa carreira, uma vez que ele não precisaria abdicar da sua carreira por conta do casamento e da maternidade, ideia comum no cenário brasileiro dos anos 60.
Angelita optou por não ter filhos. Afirmava que não queria fazer medicina nem a maternidade de forma incompleta.”Ela vivia numa época em que a maternidade não era compatível com o trabalho dela. E ela não se arrependeu disso, porque foi uma pessoa que teve uma carreira muito bem-sucedida e uma pessoa que se destacou muito.” afirma Bruna.
Além dos estigmas da maternidade, Vailati lembra de um caso em que a doutora teve de assinar uma carta de interesse de estágio apenas com seu sobrenome, em um hospital tradicional de coloproctologia na Inglaterra, para que pensassem que se tratava de um homem e fosse aceita. Conta também que, nesse hospital, o ambiente não era preparado para receber mulheres, e que não existiam aventais cirúrgicos em tamanhos femininos.
Por estar sempre presente em um ambiente majoritariamente masculino, Angelita nunca perdeu seu desejo de se expressar como mulher. A Dra. Magaly Gemio relembra como a colega se portava no ambiente cirúrgico: “Uma coisa que eu via na doutora era que ela estava sempre arrumada, de salto alto. Sempre impecável.”
“Ela manteve, apesar de estar num ambiente muito masculino e machista, e que a gente tem uma tendência de também ficar muito masculina para se integrar, uma postura extremamente feminina.”
Dra. Bruna Vailati, co-autora de trabalhos científicos com Habr-Gama
Por fim, Magaly ainda afirma que a postura dos médicos de rebaixar Angelita não tinha relação com o fato de ela ser mulher, e sim com o fato de ela ser uma competidora forte e diferenciada, sendo seu sexo apenas uma justificativa para afastá-la dos cargos de importância. Completa que caso existisse uma competição, com certeza colocaria em risco a posição dos homens na medicina.
“Watch and Wait”: a técnica renomada

Angelita especializou-se na área de coloproctologia, especialidade médica e cirúrgica que diagnostica e trata doenças do intestino delgado, intestino grosso, reto e ânus. A área de estudo concentra o tratamento de alguns tipos de câncer, como o colorretal, que foi objeto de estudo de Gama. O tumor desse câncer tem uma taxa de cura muito significativa, principalmente quando diagnosticado de forma precoce, então os médicos da área podem se preocupar com a qualidade de vida que os pacientes terão após o tratamento, segundo a Dra. Bruna Vailati.
Foi exatamente isso que Angelita propôs com seu método “Watch and Wait”. Antes, a maioria dos casos desses tumores era tratada com a retirada do reto, o que implicava em urgências evacuatórias durante todo o restante de vida dos pacientes. “O que a doutora Angelita fez na década de 80 foi observar que alguns pacientes que faziam radioterapia, não tinham nenhuma célula de tumor sobrando naquela peça cirúrgica. E ela começou a pensar: se tem casos que o tumor some, por que estamos tirando o reto e prejudicando a qualidade de vida das pessoas?” conta Vailati.
“Você imagina, ter um câncer de reto e escapar de uma cirurgia, de uma colostomia definitiva e ficar curada só com isso? Quer dizer, isso foi excepcional mesmo.”
Dra. Magaly Gemio, coloproctologista
A doutora Bruna explicou melhor como funciona a metodologia: “a gente observa [Watch] os pacientes e espera [Wait] para ver como vai ser a evolução. Se aquele paciente tiver algum sinal de tumor, a gente vai precisar encaminhar ele para cirurgia. E com isso, ela percebeu que um percentual importante dos pacientes, 20, 30%, respondiam completamente e nunca precisariam de cirurgia.”
Inicialmente recebido com ceticismo pela comunidade médica, o método “Watch and Wait” revolucionou a área. Após Angelita apresentar resultados robustos e comprovados, a desconfiança deu lugar ao reconhecimento, e o protocolo passou a ser adotado internacionalmente.
Legado
Angelita faleceu em 30 de maio de 2026, aos 92 anos, no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.
Optou por ser velada no local que deu tudo a ela, como costumava dizer, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Sua partida encerrou um dos capítulos mais brilhantes da ciência brasileira, mas deixa uma memória viva de devoção à profissão. “Eu nunca vi ninguém que tivesse tanta satisfação, tanto prazer, tanta felicidade com o próprio trabalho quanto ela. Ela adorava trabalhar, ela adorava cirurgia, ela adorava o que ela fazia”, relembra Vailati sobre os que conviveram de perto com a rotina incansável da médica.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, a doutora consolidou sua atuação como médica, pesquisadora e pessoa memorável. Angelita se foi, mas seu legado continua inspirando as próximas gerações a nunca aceitarem um “não” como resposta.

*[Imagem de capa: Reprodução/ Wikimedia Commons e Instagram



