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F1 Academy: o holofote nas mulheres do automobilismo

Categoria exclusivamente feminina busca ampliar o espaço para mulheres no esporte e levar pilotas a competir na Fórmula 1

Por Mayara Felisardo (mayarafelisardo@usp.br)

A escassez de mulheres no ramo do automobilismo não é um problema recente. Em 76 anos de existência da Fórmula 1, categoria mais emblemática e popular do esporte, apenas duas mulheres largaram em uma corrida oficial: Maria Teresa De Filippis e Lella Lombardi. Além disso, esse cenário não restringe-se apenas à Fórmula 1 e pode ser observado em outras ramificações do universo automobilístico. 

A criação da F1 Academy surgiu como resposta à falta de inclusão das mulheres nas corridas. Elaborada pela Fórmula 1 em 2022, a categoria é exclusivamente feminina e busca desenvolver pilotas para a base do esporte. Com a esperança de destacar essas jovens, a F1A consolidou-se como a aposta mais concreta até o momento para dar fim à dominação masculina e permitir que mulheres possam competir, também, nas divisões de maior prestígio. 

Um novo caminho

A F1 Academy foi projetada e desenvolvida pela mesma organização que promove a Fórmula 1. A categoria foi anunciada em novembro de 2022 e teve seu primeiro campeonato já em 2023. De acordo com a proposta exposta, a F1A foi idealizada como “porta de entrada” para os monopostos, ou seja, um degrau entre o kart e as categorias de base focado somente na transição de pilotas. 

Sob a direção de Susie Wolff, ex-pilota profissional e ex-chefe de equipe da Venturi na Fórmula E, a categoria cresce mais a cada ano. Ao contrário de propostas similares desenvolvidas anteriormente  — como a W Series, campeonato de monopostos disputado exclusivamente por mulheres entre 2019 e 2022 —, a F1A conquistou um apoio expressivo. Apesar de ter sido recebido com certo ceticismo no início, especialmente por críticos em relação à presença feminina no esporte, o projeto recebe grande destaque atualmente.

O lançamento da série documental F1: The Academy na Netflix, em maio de 2025, impulsionou ainda mais a F1 Academy. Com sete episódios, a produção acompanhou a temporada de 2024 da categoria e retratou os desafios das pilotas, cenas exclusivas dos bastidores e uma visão mais intimista do que é ser uma mulher dentro do automobilismo.

Atualmente, após a implementação de atualizações no grid para garantir o máximo de aproveitamento e oportunidades para as jovens, a F1A conta com seis times e 18 pilotas — entre elas, a brasileira Rafaela Ferreira. Cada uma recebe apoio e patrocínio externo de equipes da Fórmula 1 ou de grandes marcas, como Tommy Hilfiger, Charlotte Tilbury e Puma, com o objetivo de garantir maior visibilidade e mentoria. A categoria aceita mulheres que tenham entre 16 e 25 anos no seu momento de estreia e impõe o limite de duas temporadas em que elas podem competir.

O macacão utilizado pelas pilotas é caracterizado com as cores da equipe ou marca que as ‘apadrinhou’ [Imagem: Reprodução/Instagram/@f1academy]

Calendário e motor da F1 Academy

As corridas da F1 Academy ocorrem nos mesmos finais de semana que algumas das corridas da Fórmula 1 e totalizam sete provas espalhadas por diversos países. Em 2026, a temporada teve início em Xangai, no Grande Prêmio da China, entre 13 e 15 de março, e terá fim no Grande Prêmio de Las Vegas, entre os dias 15 e 19 de novembro.

A estrutura dos finais de semana de corrida segue um padrão semelhante ao da Fórmula 1. Na sexta-feira, as pilotas passam por um treino livre pela manhã e realizam a sessão de qualificação durante a tarde. A Corrida 1, na tarde de sábado, ocorre com o grid invertido, ou seja, as oito primeiras colocadas na classificação do dia anterior trocam de posição para determinar o grid de largada. Já a Corrida 2 acontece no domingo de manhã, com o grid de largada definido pela mesma ordem dos resultados da qualificação.  

A tabela de pontuação final é definida por um conjunto de quesitos que englobam o desempenho nas três provas. Dois pontos são atribuídos para a pilota que conquistou a pole — ou seja, a primeira posiçãona qualificação e um ponto é conferido à pessoa que fizer a volta mais rápida nas duas corridas, caso ela termine entre as oito primeiras na Corrida 1 ou entre as dez primeiras na Corrida 2. Além disso, as oito primeiras colocadas na corrida com o grid invertido e as dez primeiras colocadas na segunda prova também recebem uma quantidade de pontos, que varia de acordo com cada posição. 

O modelo dos carros utilizados na F1 Academy é idêntico para todas. A única diferença trata-se das cores, usadas para representar a equipe ou marca patrocinadora. As especificações do veículo se aproximam às da Fórmula 4, categoria de base do automobilismo. O chassi, estrutura básica que sustenta todas as partes do automóvel, é o Tatuus T421, e o motor turbo é fornecido pela Autotecnica, capaz de gerar 174 cavalos de potência. Os pneus são fornecidos pela Pirelli, assim como na Fórmula 1, e as pilotas podem atingir uma velocidade máxima de 240 km/h.

Brasileiras na pista da F1 Academy

Assim como em todas as outras categorias do automobilismo, o Brasil também está presente na F1 Academy. Meninas brasileiras passaram a competir na F1A desde a segunda temporada, de maneira a expandir o legado do país dentro do esporte e atrair apoio do público como consequência.

Em 2024, Aurélia Nobels estreou na categoria ao correr como titular pela ART Grand Prix. Com apenas 17 anos, a jovem fazia parte da Ferrari Driver Academy, programa de desenvolvimento de pilotos da Scuderia Ferrari, que ajudou e apoiou sua formação. Na temporada seguinte, Aurélia conseguiu conquistar um pódio na categoria ao chegar em terceiro lugar na Corrida 1 do Grande Prêmio de Las Vegas. Em 2026, após completar seus dois anos na F1 Academy, a pilota passou a correr pela equipe Hillspeed na GB3, principal campeonato de monopostos de base do Reino Unido.

Já Rafaela Ferreira passou a integrar o grid em 2025 como pilota da Campos Racing e com apoio da Racing Bulls, equipe da Fórmula 1. A brasileira também faz parte de um projeto de desenvolvimento da Red Bull exclusivo para mulheres. Após pontuar em diversas corridas, Ferreira renovou seu contrato com a Campos e com a Racing Bulls e permanece na F1 Academy em 2026, com chances de conquistar um pódio na categoria.

Apoio além das pistas

O que permite que a F1 Academy continue a crescer e abrir espaço para mulheres no automobilismo é, acima de tudo, o incentivo de marcas e do público. A categoria surgiu em um momento de aumento da audiência do esporte, especialmente de fãs femininas. Aproveitar esse cenário é uma necessidade para garantir que a inserção dessas jovens seja concretizada.

Em entrevista ao Arquibancada, Milena Rodrigues, mestranda em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e criadora de conteúdo sobre automobilismo, destacou o impacto que o apoio da audiência tem sobre a categoria. “É necessário frisar que o papel do público é muito importante, de mostrar que a gente se importa, que a gente quer assistir as meninas”, aponta. “No primeiro ano da F1 Academy não tinha nem transmissão, mas, por conta do barulho do público, começaram a transmitir a partir do segundo ano.”

Milena também comenta que, ao forçar que equipes da Fórmula 1 e outras marcas ‘apadrinhem’ as pilotas, Susie Wolff possibilitou um alcance e desenvolvimento ainda maior para essas jovens. Para a socióloga, a iniciativa garante que as mulheres recebam o apoio e o patrocínio necessários, além de aumentar a visibilidade da F1A como um todo.

“Não faltam mulheres capazes, o que há é falta de oportunidades e de incentivo. Por isso o papel da F1 Academy é muito importante hoje”

Milena Rodrigues, em entrevista ao Arquibancada

O apoio de pilotos da própria Fórmula 1 também se tornou um grande impulsor para a categoria. Lewis Hamilton, por exemplo, esteve presente em diversas corridas, acompanhou pódios, celebrou as pilotas em suas redes sociais e esteve presente nas garagens das equipes para conversar com as meninas. Esse movimento passou a crescer  e cada vez mais nomes da Fórmula 1 têm acompanhado as corridas da F1 Academy, entre eles o brasileiro Gabriel Bortoleto.

Hamilton é um dos principais apoiadores da Academy desde sua criação [Imagem: Reprodução/Instagram/@f1academy]

Um passo para o futuro

Desde sua criação, a F1 Academy passou a ampliar o espaço para mulheres no automobilismo. Além de permitir que pilotas tenham um lugar para competir e provar sua capacidade, a categoria aumentou a visibilidade dessas jovens e trouxe à tona conversas necessárias sobre a presença feminina — ou a falta dela — no esporte.

Em entrevista ao Arquibancada, Mariana Pinto, participante do programa FIA Girls on Track Brasil em 2025, destacou a importância da Academy para ampliar os espaços para as mulheres. “A F1 Academy tem esse papel muito importante de inserção feminina dentro da categoria, não só como pilotas, mas também na mídia, e como engenheiras, que ainda são poucas, infelizmente. E essa participação passou a crescer cada vez mais”, afirma.

Mariana também comenta que Susie Wolff, como ex-pilota e agora diretora da categoria, é a prova de que para garantir a presença de mulheres no autoesporte não basta uma pessoa apenas, e sim um esforço conjunto e contínuo: “Susie mostra para nós que não é só sobre você chegar lá, mas sim sobre abrir caminhos para outras mulheres, outras meninas.”

O automobilismo é um esporte tradicionalmente masculino, tanto em relação aos pilotos e engenheiros quanto ao público. Por conta disso, a F1A é recebida com resistência por alguns setores. Em conversa com o Arquibancada, Luiza e Giovana Schenato, criadoras do Be Fast Podcast, explicaram que o papel da categoria se estende muito além das pistas e funciona como um caminho para maiores mudanças. 

“Eu acredito que o principal mérito da Academy, além de dar oportunidade para as meninas, claro, é fazer um trabalho muito grande de dar visibilidade e acostumar os olhos do público a ver mulheres nessa posição”

Giovana Schenato, em entrevista ao Arquibancada

Avanço com limites

Apesar de ser uma categoria importante, a F1 Academy não é perfeita. Algumas críticas são tecidas, principalmente, em relação ao carro usado pelas pilotas e pela carreira delas após saírem da Academy.

Para Max Verstappen, quatro vezes campeão mundial da Fórmula 1, o modelo de carro utilizado pelas pilotas é lento demais e não permite que as mulheres provem sua capacidade. As características técnicas da F1 Academy limitam, muitas vezes, o preparo das atletas para as categorias de alto nível, uma vez que o salto de velocidade e de exigência física são muito grandes.

Outro questionamento em relação à Academy é a falta de oportunidades para as jovens após completarem seus dois anos na categoria. Quando considera-se a carreira subsequente de ex-pilotas, inclusive das campeãs da modalidade, torna-se evidente que o objetivo de permitir sua inserção em níveis mais elevados do automobilismo não se concretizou. Muitas delas voltaram para competições regionais ou passaram a correr em outras ramificações do automobilismo, sem ao menos receber propostas para integrar o grid de categorias como a Fórmula 3, o que seria a progressão esperada para o esporte.

Apesar das críticas, porém, a F1 Academy permanece como a melhor alternativa para a inserção feminina no automobilismo. Para Luiza Schenato, a categoria exerce o papel essencial de aumentar a visibilidade das pilotas e encorajar mais meninas a perseguir o sonho de estar nas pistas. Luiza afirma que, com o crescimento da F1A e mudanças sociais no esporte, a Fórmula 1 caminha inevitavelmente para receber sua primeira mulher como pilota oficial. “Eu acredito que a Fórmula 1 caminha para isso porque o mundo caminha para isso. Todos os lugares caminham para que as mulheres ocupem mais espaços do que já ocuparam em algum momento”, comenta.

Doriane Pin: marcada na história da F1 Academy

No dia 17 de abril de 2026, Doriane Pin, campeã da F1 Academy em 2025, escreveu seu nome na história do automobilismo. Nas pistas históricas de Silverstone, Doriane tornou-se a primeira mulher a dirigir um carro de Fórmula 1 da Mercedes.

Em um teste privado, a pilota francesa completou 76 voltas com o W12, carro dirigido por Lewis Hamilton em 2021. Doriane descreveu a prática como uma experiência única e emocionante. Ela também destacou que, apesar de seu gênero não defini-la, seu desempenho atrás do volante de um carro de Fórmula 1 é a prova do que as mulheres são capazes. Agora, como pilota de desenvolvimento para a Mercedes, Pin ressalta a importância da F1 Academy e defende o papel da categoria em destacar e abrir espaço para as mulheres no esporte.

Doriane começou no kart aos 9 anos e já passou por diversas categorias do autoesporte [Imagem: Reprodução/Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team]

*A capa desta matéria usa imagens editadas de Josh Robinson, Jen_ross83 e Steffen Prößdorf

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