Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br)
No dia 3 de setembro, é comemorado o Dia Nacional do Biólogo, uma data que busca celebrar e reconhecer o trabalho daqueles que se dedicam a estudar as diferentes formas de vida. Para marcar esse momento, o Laboratório conversa com a bióloga Lúcia Helena Piedade Kiill acerca da Caatinga, sua importância e funcionamento, e sobre sua profissão.
A pesquisadora é formada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e é doutora em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os estudos dela se concentram na ecologia, com ênfase em reprodução e polinização de plantas nativas, além da conservação da biodiversidade. Já desenvolveu atividades de docência e pesquisa em instituições de ensino superior e centros de estudos no sudeste. Ela trabalha na unidade Semiárido da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária desde 2001.
O cenário de suas pesquisas atuais é a Caatinga, um ecossistema único que esconde uma rica biodiversidade por trás de sua paisagem árida e do clima seco. Nesta entrevista, Lúcia Kiill fala sobre a flora nativa da Caatinga, os desafios do trabalho e o papel da ciência no futuro do bioma.

Laboratório: O que te levou a escolher o curso de Biologia e a focar seus estudos na Caatinga?
Lúcia Kiill: No sexto ano da escola, fiz uma viagem para Petrópolis e visitei uma estufa cheia de orquídeas. Quando eu entrei ali, vi flores de todos os lados e trabalhadores fazendo o cruzamento de plantas. Eu falei para minha mãe: “é isso que eu quero fazer!”, ela disse que, então, eu teria que fazer Biologia. Depois, tive uma professora no Ensino Médio muito bacana, Maria Lúcia, que também foi inspiradora.
Quanto à Caatinga, foi amor à primeira vista! Meu marido veio primeiro para essa região, antes disso eu estava fazendo doutorado na Unicamp, estudando as plantas locais de São Paulo. Um tempo depois dele, eu vim para cá no período de chuva e vi tudo florido. Lindo maravilhoso. Eu perguntava para as pessoas sobre as plantas locais e elas me respondiam que ninguém as havia estudado ainda ou que não sabiam o que era. Então, eu pensei, “Aqui é o meu lugar, é a Caatinga que eu vou estudar!”
Laboratório: Você mencionou que, quando chegou, as pessoas não tinham muito conhecimento sobre a flora local. Você acha que existe um estereótipo em relação a Caatinga, principalmente para indivíduos que vivem em outros biomas? Se sim, qual seria?
Lúcia: Com certeza, a visão que se tem da Caatinga é a que a mídia vende. Chão quebrado, seca, falta de água e muita fome, essa é a imagem que o restante do Brasil tem sobre o sertão. O que nós vemos aqui é uma outra realidade: tem 6 meses de seca, mas tem meses chuvosos, nos quais o bioma apresenta uma riqueza muito grande. Se compararmos a biodiversidade da Caatinga em relação a outros tipos de vegetação brasileiros, há mais espécies aqui do que na própria Amazônia, mas uma está na mídia e a outra não. Brincamos que a Caatinga é o “patinho feio dos biomas”, é aquele que o pessoal não dá muito valor, que ainda não reconheceram o potencial que tem.

Laboratório: Qual informação, dado ou fato importante sobre a Caatinga você acredita que todos deveriam saber?
Lúcia Kiill: Que a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. A Amazônia é encontrada no Brasil, mas também em países vizinhos, o mesmo ocorre com a Mata Atlântica e com o Cerrado. Ou seja, temos plantas e espécies que ninguém mais tem. Imagine o potencial biológico que temos nas mãos.
Laboratório: Sobre as espécies da Caatinga, qual você considera a mais incompreendida? Ou seja, que possui grande importância ecológica, mas as pessoas não costumam reconhecer isso?
Lúcia Kiill: Geralmente são as espécies herbáceas de modo geral. As pessoas falam que ‘esse mato não serve para nada’, mas ele tem um papel fundamental: fazer a cobertura do solo. Diferente das árvores e arbustos, essas plantinhas protegem a terra, de forma que as gotas de chuva não caiam diretamente no terreno e não causem processos de erosão. Elas também aumentam a umidade próximo ao chão, e é essa camada que, quando começar a decompor, vai deixar o solo mais fértil. O extrato herbáceo é muito importante e, muitas vezes, não é valorizado.
Laboratório: Se uma planta precisa de água para sobreviver e que não chove por cerca de 6 meses na Caatinga, quais são as principais estratégias que o bioma desenvolveu para florescer apesar de tudo?
Lúcia: São várias as estratégias. Varia de espécie para espécie, depende do tamanho da planta, se ela é herbácea, um arbusto ou uma árvore. As herbáceas, mais rasteiras têm o ciclo de vida durante a estação chuvosa. Elas aproveitam as chuvas para florescer, formar sementes e dispersá-las no solo. Com a seca, os grãos ficam dormentes no solo. Na a próxima estação chuvosa, quando e a umidade voltar ao ambiente, elas recomeçam o ciclo e germinam.
O umbuzeiro, árvore símbolo do sertão, é exemplo emblemático de espécie arbórea. Ele tem várias estratégias, como raízes que formam estruturas de armazenamento, onde se guarda água e nutrientes. Durante visitas na Embrapa, especialmente com crianças, falamos que o ser humano imita a natureza. Se hoje temos o sistema das cisternas, que guarda a água da chuva para usar na época da seca no solo, foi baseado no umbuzeiro.
Outra tática dessa e de outras espécies da Caatinga consiste em evitar a perda de água por transpiração. É por meio das folhas que a vegetação libera vapor de água na atmosfera. Nelas, existe uma célula responsável por controlar esse processo, o “estômato”, que se parece com um feijão. No período mais quente do dia, essa estrutura se fecha e, no mais úmido, se abre e transpira. As plantas da Caatinga são sábias, quando chega o fim do período chuvoso, elas perdem totalmente as suas folhas, o que anula a perda de água. Outros exemplos são os cactos, que armazenam água no caule. Enquanto isso, as folhas deles têm espinhos, que os protegem contra animais que iriam comê-los em busca de água na seca.

Laboratório: Durante seu doutorado na Unicamp, você estudou sobre o papel da polinização na natureza. Como esse procedimento funciona na Caatinga que enfrenta longo período de seca?
Lúcia: A polinização é um processo importante em qualquer ecossistema, sem ele não há variabilidade genética, essencial para sobrevivência. Essa variabilidade é feita pelo cruzamento. Há uma parte feminina, com anteras, e uma parte masculina, com grãos de pólen. E existem diferentes tipos de fecundação. Há plantas que, se o pólen cair na parte feminina da flor, ela já forma fruto. Em contrapartida, há as que precisam de pólen de outro pé para haver frutificação. Outras plantas são ainda mais complicadas e precisam de um agente que leva os gametas masculinos de uma árvore até a outra. Existe uma gama muito grande de agentes polinizadores, bichos que às vezes nem imaginamos. Os mais conhecidos são as abelhas, realmente os mais importantes, mas também tem formigas, beija-flor, morcegos, lagartos que participam desse processo. Isso nos mostra uma interação muito grande da fauna e da flora da região.
Laboratório: Quando se trata das relações entre plantas e animais, qual você acredita ser a interação mais interessante ou surpreendente?
Lúcia: É difícil escolher uma, porque depende de cada relação. Dentro dos polinizadores, o mais surpreendente são os morcegos. As flores polinizadas por eles abrem à noite, geralmente são brancas e sem odor, visto que esses animais não enxergam e não têm o olfato desenvolvido.

Laboratório: Qual sua função atual na Embrapa?
Lúcia: Na Embrapa eu fui contratada para a área de caracterização de ecossistemas, onde procuramos identificar os potenciais das plantas da região, É como um trabalho de detetive. Eu vou para a vegetação procurar espécies que podem se tornar alternativas de alimento para os caprinos e ovinos – aqui tem muitos desses rebanhos –, por exemplo. Minha área é mais básica, primeiro vem a prospecção, depois outros colegas aprofundam. Além disso, estou na gestão da Embrapa Semiárido, então concilio pesquisa com gerência.
Laboratório: Pode citar alguma potencialidade de uso que você encontrou em alguma espécie vegetal e que teve êxito nos estudos seguintes ?
Lúcia: Existem vários. Um deles, por exemplo, foi um livro sobre plantas da Caatinga com potencial ornamental. Muitos não pensam na beleza desse bioma. A vegetação é resistente, o que é interessante para o ramo de decoração, já que o consumidor poderia passar um mês fora sem se preocupar em molhar plantas dentro de casa. Pensando também na quantidade de água gasta para manter um gramado, é possível substituir por plantas da Caatinga que fazem o papel de forração e que precisam de menos irrigação.

Laboratório: Após descoberto possível uso para plantas nativas, é possível realizar esse aproveitamento de forma sustentável? E quais seriam os cuidados necessários para gerar menos perdas para o ecossistema?
Lúcia: Trabalhamos na Embrapa, justamente, essa questão de evitar o extrativismo, ou seja, aproveitar a planta só no seu ambiente natural. Tem comunidades que vivem de ir no campo e coletar os frutos do licuri – uma palmeira –, para vender, fazer o óleo e outros produtos. Hoje, queremos trazer essas plantas para uma condição de cultivo. Eu não trabalho sozinha, tenho outros colegas que trabalham com outras áreas da ciências para ajudar.
Primeiro, pegamos uma espécie interessante, que produz algum produto importante e que pode ser produzida por pequenos produtores. Depois, pesquisamos as condições adequadas de cultivo, como espaçamento, frequência de irrigação e poda. É o que chamamos de pacote tecnológico, há toda uma sequência para criar uma alternativa para o produtor. Pensamos em todos os detalhes para chegar com o pacote pronto, por isso, às vezes, as pesquisas demoram 10, 15 anos. Só ofertamos os produtos depois de prontos. Costumamos brincar que somos pagos para “errar pelos outros”, já que uma alternativa oferecida não pode ter erros.

Laboratório: Qual o maior desafio e qual o momento mais prazeroso do seu trabalho de bióloga?
Lúcia: O mais prazeroso é, com certeza, a ida ao campo. Cada vez que penso ‘hoje não haverá surpresas’ ou que já conhece tudo de uma área, quando passa lá um tempo depois encontra uma espécie nunca vista naquele local. Sempre tem algo inédito e isso na Caatinga é frequente. São essas coisas que nos motivam. O maior desafio é fazer com que essas tecnologias, desenvolvidas por nós, gerem renda e alternativas para a região. Existem, por exemplo, grandes empresas da parte ornamental ou geradoras de bioinsumos e agroquímicos, mas queremos gerar alternativas para as pessoas daqui, que produzem aqui e não criar soluções para uma empresa de São Paulo ou do Rio Grande do Sul.
Laboratório: Em todos os anos da sua carreira, qual a experiência – seja ela positiva ou negativa, em laboratório ou no campo – que mais te marcou?
Lúcia: A experiência que mais nos marca é ver como seu trabalho impactou positivamente uma comunidade. Como você fez um grupo deixar de ser vulnerável e passar a ter renda, alternativas e crescer, principalmente as mulheres rurais. Temos alguns trabalhos, vou citar o de uma cooperativa da Bahia que hoje tem independência e exportam, inclusive, polpa de umbu para outros países da Europa, por exemplo. Tudo graças às pesquisas que a Embrapa começou. Saber que você está mudando a realidade das pessoas no campo é o que mais me emociona.
Laboratório: Qual a principal característica que estudantes que pensam em fazer Biologia e trabalhar na área devem ter para crescer no setor? E qual recado você deixaria para eles?
Lúcia: Eles têm que ser observadores, porque, às vezes, as coisas estão na nossa frente e não enxergamos. Além de persistentes, porque, às vezes, não é em um primeiro momento que as coisas vão dar certo. Quanto ao recado, falaria que é uma profissão muito importante e que sempre haverá campo, porque hoje nós conhecemos muito pouco das relações entre espécies. Tem um mundo a ser descoberto e é uma área vasta, que precisa de muita gente com olhar apurado para estudar a biodiversidade.

*Imagem de capa: Lúcia P. Kiill/Acervo Pessoal
