Jornalismo Júnior

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10º Festival piauí de Jornalismo | Principal trabalho do editor-chefe da The Atlantic surgiu de forma “preguiçosa”, segundo ele

Na mesa de fechamento da 10ª edição do Festival piauí de Jornalismo, Jeffrey Goldberg relembra tensões envolvendo o caso SignalGate e ressalta relacionamento flutuante com Trump

por João Zogobi (jvznogueira@usp.br)

Nem todas as grandes pautas exigem esforços jornalísticos exuberantes. Enquanto dirigia seu carro, Jeffrey Goldberg, editor-chefe da revista americana The Atlantic, foi acidentalmente adicionado em um grupo no aplicativo de mensagem Signal – semelhante ao Whatsapp. Os integrantes eram nada menos que a mais alta cúpula  do governo norte-americano, que conversava sobre um ataque aos Houthis iemenitas. O caso ficou conhecido como Signalgate.

Por ter sido adicionado ao grupo sem esforço algum, o editor-chefe brincou com o fato de seu principal trabalho jornalístico ter surgido, segundo ele, de “forma preguiçosa” e relembrou a enorme infraestrutura jurídica que criou para lidar com o ocorrido.

Esse foi o principal tema sobre o qual Goldberg foi questionado em entrevista dada a Daniel Bergamasco, da revista piauí, e Flávia Lima, da Folha de S.Paulo, no principal auditório da Cinemateca Brasileira que recebeu a última mesa do 10° Festival piauí de Jornalismo, em São Paulo.

Além do caso SignalGate, o jornalista abordou de forma bem humorada e descontraída suas relações instáveis com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, questões de desinformação, jornalismo na atualidade e  descreveu um modelo de negócios que busca independência relativa dos anúncios publicitários.

Caiu do céu

Em março de 2024, enquanto dirigia, Jeffrey Goldberg, editor-chefe da revista americana The Atlantic, começou a receber notícias de um grupo até então desconhecido. Após parar o carro, pois “claramente não olharia o celular ao volante” , se deparou com um grupo contendo figuras do alto escalão do governo dos Estados Unidos, mas olhou com desconfiança, conta o jornalista após ser questionado por Bergamasco.

Goldberg explicaque recebeu aqueles recados por semanas, mas desacreditou ser verídico “porque é burro demais fazer isso” e pensava ser “uma armadilha ou campanha de desinformação contra a imprensa”.

As mensagens eram trocadas por figuras como Mike Waltz, então Conselheiro de Segurança Nacional, Pete Hegseth, Secretário de Defesa, Marco Rubio, Secretário de Estado e até John Ratcliff, diretor da Central de Inteligência Americana (CIA).

Nelas, as lideranças da defesa norte-americana detalhavam o formato operacional sobre as primeiras bombas que seriam jogadas contra os Houthis, grupo político e militar que controla parte do Iêmen, fato que aconteceu horas depois.

Ao pesquisar relatos sobre o Iêmen na rede social X, antigo Twitter, o jornalista deparou-se com diversos vídeos que relatam bombardeios em partes do país árabe e, somente após isso, teve certeza de que não caíra em uma armadilha, mas estava diante de um  dos mais importantes casos de falha de segurança da política de defesa americana, explicou.

Os juristas e a  Kryptonita 

“Lidava com meu celular como se fosse Kryptonita e precisava protegê-lo com aquelas informações extremamente sensíveis” é o que conta Jeffrey Goldberg. Flávia Lima questionou o editor-chefe sobre o procedimento para que a reportagem fosse publicada e o jornalista revelou a criação de uma grande infraestrutura jurídica.

Goldberg conta que criou, na revista, três grupos jurídicos que trabalharam sob três pilares: liberdade,segurança nacional e direito penal. Ainda explica que tinha noção de que não deveria (e nem queria) saber daquilo que estava lendo: “Queria saber a reverberação do ataque, mas aquilo era segredo de Estado”.

Após fazer a apuração ético-jurídica e ter certeza que seus vazamentos “não colocariam em risco a vida de outros americanos”, o jornalista explica que resolveu publicar a matéria “porque era minha responsabilidade, quando estava pronto, de dizer ao povo que seu governo não fazia um bom governo”.

Ainda em resposta à jornalista da Folha de S.Paulo, Goldberg conta que o governo tentou sufocar o caso à época desmentindo o  teor secreto das mensagens, mas ao mesmo tempo foi “fortemente convidado a não expor algumas informações”, o que escancarou  a hipocrisia de algumas instituições governamentais.

Antes de mudar a temática, o jornalista criticou o corporativismo do governo, afinal “em qualquer outro governo, o responsável por aquilo seria demitido, mas esse é diferente”, conta Goldberg ao criticar o fato de Mike Waltz, responsável por adicionar Goldberg ao grupo, “cair pra cima”, em uma expressão de Flávia Lima, e virar embaixador dos EUA na Organização das Nações Unidas após esse caso.

“Não estamos na resistência de Trump. Escrevemos o que vemos e escreveríamos bem sobre ele caso ele fizesse coisas boas. Mas não é isso que estamos vendo.”, conta Jeffrey Goldberg[Imagem: Jornalismo Júnior/Beatriz Sandoval] 

O elefante na loja de cerâmica

A jornalista da Folha de S. Paulo direcionou a conversa para uma temática importante acerca da crise político-social vivida pela imprensa no século 21. Sobre isso, Goldberg afirmou reconhecer a fratura da imprensa, mas não retira a responsabilidade de políticos que descredibilizam leis e violam regras básicas da ordem social, inclusive nas mídias.

Nesse sentido, ressaltou que parte da crise está ligada a uma ruptura no sistema de “pesos e contrapesos”. O jornalista se refere ao sistema de divisão do Estado em três poderes – executivo, legislativo e judiciário. Nele, os sistemas buscam se equilibrar e controlar entre si, mas “o congresso [legislativo] não está atuando em cima da sua responsabilidade de segurar o executivo, mas o legislativo está”, diz Goldberg.

O jornalista colocou a Corte Judiciária americana como uma importante ferramenta para segurar o presidente Donald Trump. Em relação a Trump, Goldberg sente dificuldades em explicar sua ascensão e se questiona se “Trump surgiu para colapsar o sistema ou se esse sistema já estava colapsado e o Presidente só se aproveitou disso”.

Ressaltou que a ascensão de Donald Trump seria impossível sem as redes sociais e uma “espetacularização que transformou os políticos em entretenimento”, o que abriu brechas para uma onda autoritária.

O sistema de contrapesos que tínhamos é muito forte, mas não dura pra sempre sob pressão de pessoas com mentalidade autoritária ou populistas.” 

Jeffrey Goldberg

Uma leitura do país

“Fazer algo de alta qualidade, com boa apuração, edição e matérias que nos diferenciariam de uma massa de mediocridade” foi a definição de uma fórmula do sucesso de Goldberg para a revista The Atlantic.

Com 1,6 milhão de leitores e três prêmios pulitzer sob a sua gestão,o jornalista ressalta que acessou um público “extremamente educado que encara textos densos”. Público que entendeu, diferentemente da geração Z, segundo ele, que o conhecimento precisa ser lentamente construído e, mais importante que isso, precisa ser construído sob o conhecimento de outros. Esse conhecimento de ponta exige um investimento, explica o jornalista.

“Um dos últimos desastres do jornalismo é pensarmos que nosso trabalho não era valoroso suficiente para ser pago.Tem-se êxito porque algumas pessoas sabem que algo do tamanho dessa qualidade é algo passível de ser pago.”

Jeffrey Goldberg

Por fim, Goldberg explicou que esse investimento precisa, preferencialmente, ser independente das flutuações do mercado publicitário. Hoje, a revista The Atlantic é 80% financiada por assinaturas e 20% por publicidade, explica o editor-chefe: “isso é muito melhor do que depender de grandes marcas, pois quando cai o mercado publicitário, você perde muito dinheiro”, respondeu para Bergamasco.

“O que temos não é um emprego, é uma missão: trazer a maior quantidade de realidade para todo o mundo”, finalizou Goldberg antes dos aplausos da plateia presente na Cinemateca Brasileira, e, assim, encerrou o 10° Festival piauí de Jornalismo.

[Imagem da Capa: Beatriz Sandoval-Jornalismo Júnior]

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