Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br)
Na cobertura do velório de Nelson Mandela, em dezembro de 2013, o jornalista Musikilu Mojeed recebeu uma ligação. Falas do ex-presidente sobre o atual governante da África do Sul, que poderiam desestabilizar o governo, estavam em documentos que poderiam ser publicados a qualquer momento com a aprovação do editor-chefe.
Essa é uma das histórias investigativas que o jornalista nigeriano Musikilu Mojeed contou para o público no 10° Festival Piauí de Jornalismo. Análise, apuração e confirmação são os três pilares colocados pelo jornalista para a construção de uma investigação bem sucedida.
Homenageado por diversas organizações como a Global Shining Light, Musikilu Mojeed produziu reportagens sobre direitos humanos, tráfico de pessoas e corrupção no continente africano. O jornalista foi um dos nove diretores de redação internacionais convidados para o evento.
No segundo dia do festival (6), o editor-chefe da Premium Times, foi entrevistado por Angélica Santa Cruz (Piauí) e Pedro Borges (Alma Preta). Além de editor, o jornalista também é cofundador do portal de notícias nigeriano.
Com sede em Abuja, capital da Nigéria, a Premium Times cobre assuntos ligados ao tema do festival deste ano: “No olho do furacão: diretores de redação em tempos de tormenta”. Além da publicação de reportagens investigativas renomadas, de acordo com os mediadores da mesa, a redação do portal conta com 120 pessoas na equipe, destaca-se 80 jornalistas na linha de frente das notícias.

saúde, agricultura, artes/vida e esportes.
[Imagem: Premium Times Opinion]
O jornalismo e temas de cobertura na Nigéria
O mediador Pedro Borges solicitou a Musikilo que contasse um pouco mais sobre os tipos de cobertura que acontecem na Nigéria. O país africano não atrai a atenção de muitos veículos estrangeiros, assim como o Brasil, que não tem muita visibilidade para cobertura internacional.
O editor-chefe conta que reportagens frequentes são sobre o terrorismo no noroeste nigeriano, abusos de policiais, sequestros no sul e a economia picking up (com aceleração e fortes pressões inflacionárias provocadas por tensões geopolíticas).
Em 1966, a Nigéria tornou-se independente com um programa democrático e o governo militar, até 1979. Depois, houve um novo período de transição democrática de outubro de 1979 até meados de dezembro de 1983, quando os militares assumiram o poder até 1999.
De acordo com o entrevistado, a Nigéria é um país que nunca teve uma democracia consistente e contínua. Problemas de corrupção são recorrentes no país, Musikilu cita que houve uma quebra na democracia a partir da Segunda República nigeriana.
A Segunda República da Nigéria foi o período de governo civil no país que durou de 1º de outubro de 1979 a 31 de dezembro de 1983. Após esse período, aconteceu um golpe militar que colocou o general Muhammadu Buhari no poder.
“ Você precisa de jornalistas, para uma democracia forte”
Musikilo Mojeed
Conflitos consequentes da reportagem investigativa
Em 2017, a redação do portal digital Premium Times foi invadida por policiais, após Musikilu produzir uma reportagem que denunciava o chefe do exército da Nigéria. A equipe foi acusada de difamação, após ter rejeitado a exigência do governo de retratar as notícias sobre o Exército nigeriano e suas operações.
O jornalista da Premium Times ainda afirma que os crimes cibernéticos contra jornalistas estão cada vez mais frequentes. As disputas por poder ocasionam ameaças a jornalistas investigativos.

[Imagem: Reprodução/Fetisov Journalism Award]
O jornalista aponta uma mudança que vem acontecendo há 15 anos: a migração constante dos jornais para as plataformas digitais, o motivo é a falta de investimento nas redações.
“É fácil o governo pressionar o jornal na Nigéria” diz Musikilu. Ele ainda discute que o advertising (anúncios), é o que muitas vezes, ajuda a manter a organização jornalística.
O jornalista do portal Alma Preta perguntou a Musikilo sobre a dinâmica de ser um marido, gestor, editor-chefe e jornalista em tempos de tormenta. Para o entrevistado, é importante o jornalista saber sobre o assunto que está cobrindo. Ele defende melhorar o conhecimento para os jornalistas fazerem reportagens, assim como as universidades que oferecem o curso de jornalismo.
“Se eu não descanso, é porque tento colocar todo o meu conhecimento no trabalho”
Musikilu Mojeed
Em 2017, Mojeed e sua equipe foram premiados com o prêmio Pulitzer de Reportagem Explicativa. Na mesa, ele citou a investigação dos Panama Papers que realizou junto com a equipe do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos).
A fase principal de apuração e investigação jornalística dos Panama Papers durou mais de um ano antes da publicação das primeiras reportagens. O ex- presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) José Roberto de Toledo participou da investigação no Brasil.
Segundo o balanço divulgado pelo ICIJ no terceiro aniversário da investigação, o Panama Papers ajudou a recuperar mais de US$1,2 bilhão ao redor do mundo. Em 2026, o Pulitzer de Reportagem Explicativa foi para o San Francisco Chronicle, pela série sobre as consequências dos incêndios em Los Angeles.
Musikilu citou algumas investigações sobre ocultações de bancos e não pagamento de impostos que começaram aproximadamente em 2015 e foram publicadas junto com a reportagem vencedora do Pulitzer em 2016.
O editor-chefe é um defensor da colaboração jornalística, ele cita que jornalistas de diversos países podem apurar e escrever juntos, como ocorreu na reportagem ganhadora do Pulitzer. Essas reportagens produzidas em conjunto ajudaram o editor-chefe a aumentar sua conexão com os colegas jornalistas, para ele, fazer jornalismo também é um hobby.

[Imagem: Reprodução/Premium Times]
A mediadora da Piauí perguntou se houve algum arrependimento ou preocupação durante tantos anos de jornalismo investigativo. Musikilo assume que o jornalismo deveria ser melhor remunerado.
No caso da Nigéria, os jornalistas continuam como alvos, em razão da mentalidade do regime militar ainda ser instaurada. Hoje, ele enxerga o jornalismo como um degrau na carreira das pessoas que buscam por melhores salários, e não como uma paixão exercida na profissão.
“Começamos a nos envolver [nas forças de segurança] para que eles entendam que o jornalismo é necessário”
Musikilu Mojeed
A denúncia e a reportagem cidadã
Musikilo preside a Comissão Nacional Nigeriana do Instituto da Imprensa, e nos últimos cinco anos, trabalhou em como educar as forças de segurança sobre o papel do jornalista. O premiado disse que o serviço secreto era conhecido como violador durante o regime militar e jornalistas sofriam atentados. Ele pontua que é necessário uma reforma na polícia.
O black book é um livro que, de acordo com Musikilu, levou o Premium Times ao brilho global. O material destaca assassinatos e abusos cometidos pela polícia e pelas Forças de Segurança. Com isso, o trabalho dele e de outros jornalistas trouxe alarde sobre as condenações desses nomes que estão no livro.
Com a ascensão das redes sociais, cidadãos comuns documentam abusos e trabalham para destacar as violações das autoridades. Musikilu sugere que não ignorem o que as pessoas publicam na internet, pois pode ser um sinal do que está acontecendo no país.
‘Você deve reportar consistentemente à distância, caso contrário, eles nunca farão nada”
Musikilu Mojeed
[Imagem da Capa: Reprodução/João Zogobi-Jornalismo Júnior]
