Por Carolina Ziemer (carolziemer@usp.br)
Como manter o público engajado em um conflito ativo há mais de quatro anos? Esse é o maior desafio da editora-chefe do Kyiv Independent, Olga Rudenko, que participou do 10º Festival piauí de Jornalismo neste domingo (6). Durante a mesa, conduzida por Ana Clara Costa e João Batista Jr., da revista piauí, Olga discutiu os impactos da mudança de postura do governo de Donald Trump, os desafios de manter a atenção internacional sobre o conflito e os riscos enfrentados por jornalistas que trabalham dentro de uma guerra.
“A chegada de Trump no governo norte-americano e a mudança de rota tomada em relação ao conflito, principalmente no começo de 2025, fez muitas pessoas na Ucrânia se sentirem traídas e envergonhadas”, comenta Olga. “Foi um lembrete de que, no fim do dia, estamos sozinhos”, completa.
Guerra em pauta
Mais de quatro anos após o início da invasão em larga escala, outro problema preocupa a jornalista: o chamado “war fatigue”, ou cansaço da guerra. O termo descreve a perda gradual de interesse do público internacional por um conflito extenso. Para Olga, é natural que quem acompanha a guerra à distância queira voltar a atenção para outros assuntos mais quentes, o que representa um desafio para a imprensa.
“Eu acredito que é parte do trabalho dos jornalistas desses lugares explicar para o público o porquê eles precisam continuar assistindo”, disse. Segundo ela, o conflito continua tendo consequências para a segurança e o futuro da Europa e da própria Ucrânia, o que já deveria ser suficiente para o interesse do público.
O Kyiv Independent tenta enfrentar esse desgaste apostando em diferentes formatos. Além do site, a redação produz conteúdo para redes sociais, vídeos e documentários. Na opinião da editora-chefe, repetir a mesma forma de contar a guerra pode fazer com que histórias diferentes e desdobramentos da situação pareçam iguais ao leitor.
Sua estratégia é voltada principalmente para uma audiência internacional. O veículo publica suas reportagens em inglês e possui mais de 35 mil apoiadores recorrentes, sendo 99% deles de fora da Ucrânia. Com isso, cerca de 70% do faturamento da organização vem das contribuições dos membros.
O paradoxo político
Embora o jornal tenha uma clara posição contra a guerra e a favor do povo ucraniano, os jornalistas do Kyiv Independent não deixam de criticar o governo de Volodymyr Zelensky – presidente do país desde 2019 –, o qual apresenta controvérsias. “Precisamos dar luz sobre o que o governo está fazendo e torná-lo responsável pelas ações. A população merece conhecer o governo que está nos guiando na guerra.”
Olga não acredita que Zelensky deve receber bandeira branca pelo simples fato de ter sido considerado um herói no começo do conflito pela coragem de ficar em Kiev. Muito pelo contrário, ela defende a necessidade de ter um olhar ainda mais crítico, intenso e preciso, porque é o trabalho dele que garante a sobrevivência ou não do povo ucraniano.
“Como jornalistas, nós acreditamos que precisamos manter nossa função central mesmo durante uma guerra e isso significa reportar aquilo que é de interesse público”
Olga Rudenko
Devido ao público internacional, ela entende que muitos interpretam apoiar Zelensky e apoiar a Ucrânia como sinônimos. “Essa audiência quer vê-lo como a personificação da coragem e da resiliência do povo ucrâniano”, conta. Para Olga, essas duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: ele pode ser um herói após a invasão e, mesmo assim, cometer erros durante seu mandato. “O problema é que esses erros custam caro. Eles prejudicam nossa defesa e nossos recursos para sobrevivência. E o público merece saber disso.”
Jornalistas na linha de frente
Manter essa cobertura significa, porém, expor os próprios profissionais aos riscos do conflito. Repórteres do Kyiv Independent trabalham em áreas próximas à linha de frente e vivem os efeitos da guerra no cotidiano. Logo, compartilham dos mesmos anseios do resto da população, como a preocupação com o bem-estar de suas famílias.
A redação adota medidas para tentar reduzir os riscos durante o trabalho de campo, mas a editora reconhece que não é possível eliminá-los completamente, dada que a cobertura do veículo difere da dos estrangeiros. Enquanto outros meios de comunicação enviam um repórter que pode voltar para casa em outro país após concluir sua apuração, os jornalistas ucranianos não conseguem escapar dessa realidade. “Nós não temos outro lar, a Ucrânia é nossa casa.”
Para a editora-chefe, entretanto, ainda não há uma perspectiva clara de encerramento do conflito. À medida que a guerra continua sem uma solução consensual entre Rússia e Ucrânia, o desafio do Kyiv Independent permanece não apenas em acompanhar e compartilhar os acontecimentos, mas em convencer uma audiência cada vez mais distante de que ainda é necessário olhar para eles.
