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Artigo utiliza obras literárias para entender linha do tempo das favelas brasileiras 

A publicação relaciona a literatura feita por autores de regiões periféricas com o espaço urbano e suas estruturas socioculturais
Foto de longe de várias casas
Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)

Um artigo produzido por três arquitetos e urbanistas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) representou, através de três obras literárias, a mudança na auto percepção dos moradores de periferias brasileiras entre os anos de 1960 e 2016. Os livros escolhidos foram “Quarto de despejo” (Editora Ática, 1960) de Carolina Maria de Jesus, “Becos da Memória” (Mazza Editora, 2006) de Conceição Evaristo e “Flores de Alvenaria” (Global Editora, 2016) de Sérgio Vaz, e simbolizam três momentos diferentes das favelas: a formação, a remoção e o reconhecimento.

Ao longo do artigo, os autores ressaltam que esta sequência não é linear: a criação de novas favelas, as remoções de casas, as expulsões de moradores e a precariedade continuam existindo no Brasil, mesmo com maior valorização da identidade cultural presente nas periferias.

O ponto de conexão entre as áreas de pesquisa dos três autores do artigo é a ligação do território com temáticas insurgentes ou emergentes, ou seja, objetos de estudo e práticas sociais que contestam estruturas tradicionais ou que ganham relevância diante de transformações atuais, como direito à cidade, desigualdades na qualidade de habitação, direito a espaços públicos e oferta de moradia. Segundo Manoela Jazar, uma das pesquisadoras responsáveis pelo artigo, ao selecionar as três obras, Clovis Ultramari e Paulo Nascimento Neto, ambos arquitetos e urbanistas pela PUC-PR, entenderam que registros internos feitos por autores que vivenciaram a periferia trariam informações que faltavam no aprendizado institucional.  

Com uma abordagem voltada para a reflexão social, os estudiosos não trabalharam diretamente com dados numéricos. As buscas por dados geográficos foram feitas a partir de bases secundárias, como informações já disponibilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações principais foram obtidas por meio dos relatos presentes nos livros, que reafirmaram a dificuldade de encontrar registros de autores periféricos.

A coletividade impulsiona a luta social

A escolha de representar tal mudança de perspectiva através de livros foi impulsionada por “Quarto de Despejo”,  o diário de Carolina que reúne suas reflexões e relatos sobre o cotidiano da antiga favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo. Jazar afirmou que “ler quarto de despejo, um marco literário brasileiro, deu potencial para abrir muitas frentes de abordagem”.

“Os livros trazem um posicionamento de recolocação na sociedade, um grupo social se colocando como cidadão também”, afirmou a autora do artigo. Ela disse, ainda, que a metáfora do quarto de despejo de Carolina ser a periferia se reconfigura durante as obras escolhidas: “a favela se coloca agora como parte da cidade também, ela não é mais quarto de despejo. Ela [favela] diz que temos direitos, necessidades, desejos e produções que são tão importantes quanto a sala de estar”. 

Dada a subjetividade presente nos relatos de Carolina Maria de Jesus, nas narrações de Conceição Evaristo e nos poemas de Sérgio Vaz, os autores do artigo defendem que a subjetividade faz parte do social. Bem como defendem que a produção cultural fomentada nas favelas andou de mãos dadas com a mudança nas relações sociais e com a ligação das pessoas da comunidade ao território. “O que antes era vergonhoso ou problemático, aos poucos foi se ressignificou  e se tornou uma força motriz.” 

O artigo propõe o termo “cidade incipiente” para enfatizar uma característica compartilhada nas favelas: são espaços urbanos construídos de forma gradual, marcados por falta de integração de infraestrutura e de reconhecimento institucional instável. O termo não substitui “favelas” ou “periferias”, mas destaca as transformações paulatinas e desiguais dos territórios brasileiros.

Segundo Jazar, mesmo que, atualmente, favelas sejam mais valorizadas no quesito social e cultural e apontem avanços na autoconsciência da comunidade enquanto um espaço de dignidade, identidade e cultura, isso não significa que mudanças não precisem acontecer nesses locais.

Foto das vista de uma janela com uma rede de proteção.
De acordo com censo demográfico do IBGE, existem cerca de 12,4 mil favelas no Brasil [Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

Os livros registram impactos humanos

As obras escolhidas registram aspectos dificilmente encontrados em documentos institucionais: o impacto e sentimento humano perante às situações vivenciadas nas favelas. Segundo Jazar, o ponto central da análise não é a mudança física das chamadas “cidades incipientes”, mas sim a maneira como ela é percebida e entender as diversas questões que cercam a população brasileira além de informações institucionais.

Os autores defendem que os relatos são fontes essenciais para entender a urbanização brasileira, que carece de informações escritas por quem viveu o surgimento de favelas, suas diversas remoções e suas formas de encontrar resistência. “A ideia foi buscar uma conversa entre autores das regiões periféricas. Entender como a visão de dentro foi sendo alterada e como se formou um senso de pertencimento, um orgulho, que, antigamente, não era tão efervescente “, relatou.

“A comunidade é mais ativa em uma sociedade que está em busca de direitos, novas infraestruturas, qualidade de vida, habitação, asfalto de qualidade, conexões viárias e qualidade de transporte.”

Manoela Jazar, arquiteta e urbanista da PUC-PR 

Imagem de capa: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior 

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