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Brasileirão Feminino 2026 | Com público recorde no continente, São Paulo empata com o Corinthians e é campeão

Diante de mais de 49 mil torcedores no Morumbi, as Soberanas venceram o confronto por 3 a 2 no agregado e conquistaram o título inédito para o Tricolor

Por Ana Germano (anabrgermano@usp.br), Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) e Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br) final

Na tarde do último sábado (3), a 14º final do Campeonato Brasileiro Feminino, reuniu mais de 40 mil pessoas no Estádio do Morumbi para acompanhar a partida entre São Paulo e Corinthians. Com vantagem no agregado e gol de Bia Menezes, a equipe Tricolor se sagrou a grande campeã da disputa e voltou a levantar a taça após 29 anos, pela segunda vez em sua história, porém a primeira na nova era do torneio.

Com recorde histórico de público em jogos da modalidade na América do Sul, o MorumBIS contou com 49,405 tricolores, para prestigiar a glória, igualmente histórica, das Soberanas sobre as Brabas. O recorde anterior era da final de 2024, também disputada por Corinthians e São Paulo, que ocorreu na Neo Química Arena, com 44,529 torcedores alvinegros.  

A campanha das finalistas

O São Paulo liderou a fase de liga do Brasileirão com 41 pontos conquistados em 17 jogos e, ao lado do Palmeiras, teve a melhor defesa da competição. No mata-mata, a vitória sobre o Grêmio, com gols nos minutos finais no Morumbi, levou as Soberanas às semifinais. Depois, duas vitórias contra o Flamengo colocaram o São Paulo em sua segunda final do torneio. 

O Corinthians, por sua vez, terminou a primeira fase na segunda colocação, apenas três pontos atrás do São Paulo, e teve o melhor ataque da competição. Na fase final, vitórias dentro e fora de casa contra Cruzeiro e Bahia levaram as Brabas à décima final consecutiva do Brasileirão. 

No jogo de ida, disputado na Neo Química Arena, o Corinthians saiu na frente com gol de Gabi Zanotti, mas Giovanna Crivelari empatou ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, Isa, atacante revelada pelas categorias de base são-paulinas, virou o jogo para as Soberanas e não apenas deu a vantagem ao Tricolor, como também quebrou um tabu histórico: o São Paulo se tornou a primeira equipe a vencer a equipe feminina do Corinthians em Itaquera. 

Para a grande decisão, o técnico Thiago Viana manteve a escalação do São Paulo que venceu o jogo de ida. No Corinthians, Emily Lima promoveu três mudanças: Thaís Regina, Érika e Jhonson entraram nos lugares de Duda Mineira, Tamires e Jaqueline.  

Antes da bola rolar, às 14 horas, a torcida Tricolor recepcionou o ônibus do time com uma grande festa para comemorar não apenas a chegada das Soberanas à decisão do Brasileirão, mas também o recorde de público para uma partida de futebol feminino na América do Sul. 

Minuto a minuto da final

Primeiro tempo

Confirmando as projeções do pré-jogo, o início foi de pressão corintiana, já que as Brabas buscavam reverter o placar para evitar o fim de sua sequência de seis títulos seguidos, mas, aos poucos, o São Paulo passou a ter mais a bola e a chegar com perigo à área adversária. Aos 10’, Aline lançou pela esquerda, e Bia Menezes, com liberdade, bateu da risca da grande área. Nicole tentou a defesa, mas a bola entrou, e o Tricolor abriu 3 a 1 no placar agregado. 

A vantagem durou pouco: aos 18’, Juliete pressionou Carlinha na saída de bola, a goleira chutou em cima dela e a atacante mandou para o gol, para deixar o agregado em 3 a 2 e criar no torcedor corinthiano a esperança de uma virada fora de casa. 

Aos 22’, Crivelari cabeceou para as redes e marcou, mas o lance foi anulado por impedimento, causando reclamações do torcedor tricolor e alívio para os espectadores alvinegros. 

Depois disso, o Corinthians cresceu e criou as melhores chances da partida, porém sem sucesso. Aos 26’, Carlinha defendeu uma falta batida por Vic Albuquerque no canto, e pouco depois Jhonson ficou cara-a-cara com a goleira e bateu em cima dela. Aos 40’, Belén Aquino arriscou de fora da área e mandou para fora. Perto do intervalo, o técnico tricolor Thiago Viana levou cartão amarelo por reclamação, e o primeiro tempo terminou em 1 a 1 depois de 49 minutos. 

No intervalo, o Corinthians trocou Vic Albuquerque e Gi Fernandes por Jaqueline e Gisela Robledo, respectivamente, e voltou ainda mais ofensivo.

Segundo tempo

Logo nos minutos iniciais da segunda etapa, Jhonson chutou da meia-lua e tentou servir Juliete, mas Carlinha saiu bem para defender, e impediu o gol do Corinthians, que, assim como no primeiro tempo, teve as melhores oportunidades. Aos 4’, a goleira encaixou um chute de longe de Jaqueline, e, no instante seguinte, Jhonson, em boa tabela com Belén Aquino, ficou de frente para o gol e mandou para fora. 

O lance mais dramático da decisão veio aos 19’, quando Érika foi puxada na pequena área e, após análise do VAR, a arbitragem marcou pênalti para o Corinthians. Gabi Zanotti foi para a cobrança e bateu fraco no canto esquerdo, para defesa de Carlinha, que manteve o agregado em 3 a 2. A partir desse momento, o Morumbis entrou em clima de festa, com a torcida comemorando antecipadamente e show de luzes. 

A final alcançou cerca de 23 milhões de telespectadores pela TV Globo, com picos de 14 pontos de audiência em São Paulo e no Rio de Janeiro [Imagem: Acervo pessoal/Leticia Cristina]

O São Paulo trocou várias peças, com as entradas de Késia, Mylena Carioca e Rafa Soares, e passou a atacar mais. Aos 31’, dois contra-ataques seguidos pela esquerda, com Késia e Isa Guimarães, geraram perigo, e aos 34’, Mylena Carioca avançou pela direita e bateu cruzado, mas Nicole espalmou.

A reta final foi aberta, veloz e nervosa, com contra-ataques dos dois lados. O árbitro deu 9 minutos de acréscimo, e ainda houve mudanças: Maricel Pereyra entrou no lugar de Isa Guimarães no lado do São Paulo, e Ariel substituiu Belén Aquino no lado do Corinthians. Enquanto as jogadoras são-paulinas aguardavam ansiosas no banco, Ariel cabeceou aos 45’ +7’, e Carlinha encaixou a bola, evitando a última grande chance corintiana. Ao fim do tempo acrescido, o juiz encerrou a partida: 1 a 1 no jogo, 3 a 2 no agregado, e as Soberanas se consagraram campeãs pela segunda vez, mas de forma inédita dentro de casa, diante de 49.405 torcedores.

Destaques da final

Carlinha

A goleira Carlinha viveu uma final de altos e baixos no MorumBIS. Após falhar no lance que originou o gol de empate do Corinthians, a camisa 1 se recuperou no segundo tempo e tornou-se decisiva para a conquista tricolor: defendeu o pênalti cobrado por Gabi Zanotti e ainda realizou outras intervenções importantes na pressão corintiana. Eleita a melhor jogadora da final, ela ainda recebeu um Hyundai i20 zero quilômetro como prêmio.

Carlinha chegou ao São Paulo em 2019, na retomada do projeto de futebol feminino do clube e, atualmente, é a jogadora com mais tempo de casa e mais partidas na história do elenco [Imagem: Reprodução/Instagram/@csilva932] 

Bia Menezes

Autora do gol que deu o título brasileiro ao São Paulo, a lateral-esquerda Bia Menezes foi um dos principais nomes da conquista tricolor. No empate por 1 a 1 contra o Corinthians, no MorumBIS, ela abriu o placar e colocou o São Paulo em vantagem na decisão. Após o apito final, também falou sobre a desconfiança em torno da equipe antes do campeonato e destacou o apoio dos torcedores presentes no estádio. “Muitas pessoas falaram que não chegaríamos nem entre os oito”, em entrevista pós-jogo.

Na comemoração do gol, Bia homenageou a mãe, falecida em 2021, que era torcedora fanática do Tricolor [Imagem: Reprodução/Instagram/@biamenezes_] 

Gabi Zanotti

Veterana do futebol feminino aos 41 anos, Gabi Zanotti é uma das principais referências do Corinthians. Apesar de ter sido um dos destaques do jogo de ida ao abrir o placar com uma cabeçada por cima da goleira, a meio-campista teve uma atuação abaixo do esperado no confronto final ao cobrar um pênalti sem força que parou em Carlinha e perder a chance de colocar as Brabas em vantagem no placar agregado.

Antes dos gramados, Zanotti iniciou sua trajetória no futsal em 2004 e foi premiada no ano seguinte como a melhor jogadora de sua categoria na Seleção Brasileira [Imagem: Reprodução/Instagram/@gabizanottid] 

Um novo capítulo para as Soberanas

Mesmo com uma trajetória de sucesso no futebol feminino na década de 1990, a reconstrução de um projeto solidificado do São Paulo na modalidade só aconteceu em 2019. Quando o clube desconstituiu a equipe em 2000, o futebol feminino brasileiro ainda dava os primeiros passos rumo à profissionalização. A própria conquista do direito à prática da modalidade foi resultado de um longo processo, enquanto a falta de investimento e apoio após a liberação continuou a limitar seu desenvolvimento. 

O São Paulo retornou à elite do Brasileirão em 2020 e rapidamente se consolidou entre os principais clubes do futebol nacional, mas acumulou campanhas irregulares e abaixo das expectativas. Em 2024, o vice-campeonato para o Corinthians, no primeiro ano de Thiago Viana como técnico, representou um primeiro indicador de sucesso para a equipe. No ano seguinte, conquistou a Supercopa, mas ainda buscava uma afirmação definitiva entre as grandes forças da modalidade. E agora, em 2026, encontrou essa resposta diante de um Morumbi que recebeu cerca de 40 mil pessoas a mais do que na decisão anterior. 

O título também ganha peso pelo adversário. O Corinthians chegou à decisão após disputar as últimas dez finais do Brasileirão, conquistar seis títulos consecutivos e construir a maior hegemonia da história da competição. Ao vencer as Brabas em Itaquera no jogo de ida e confirmar a conquista diante de sua torcida, o São Paulo não apenas levantou a taça, mas também interrompeu uma sequência que parecia cada vez mais difícil de ser quebrada diante de um rival histórico. Para além da conquista, o São Paulo embolsou dois milhões de reais após a vitória na soma dos placares, premiação recorde no torneio, enquanto o rival recebeu metade desse valor.

Em um clube marcado por problemas de gestão que atingem diferentes setores, o título tricolor também representa um respiro para a torcida são-paulina. Enquanto a política interna do São Paulo segue cercada por conflitos, a equipe feminina apresenta um caminho diferente: planejamento, competitividade e um elenco cada vez mais identificado com a torcida. O crescimento do interesse pelas Soberanas encontrou resposta nas arquibancadas, e o Morumbi cheio para a decisão mostrou que a relação entre equipe e torcida ultrapassa cada vez mais os resultados dentro de campo. 

O título muda não apenas o patamar do São Paulo, que conseguiu superar as barreiras impostas pela má gestão da diretoria, entre as potências do futebol feminino nacional,, mas mostra também que o futebol feminino deixou de ser coadjuvante para ocupar seu espaço merecido no clube e no esporte nacional. 

A nível nacional, o São Paulo havia conquistado apenas a Taça Brasil, em 1997, e a Supercopa do Brasil, em 2025, no futebol feminino [Imagem: Fernando Lucchi/Jornalismo Júnior] 

Ficha técnica

São Paulo (3) 1 X 1 (2) Corinthians

Data: 03/10/2026

Local: Estádio do MorumBIS

Horário: 16h30

São Paulo (3-4-2-1): Carlinha, Serrana, Bruna Calderan, Tayla, Carol Gil, Bia Menezes (Rafa Soares, 24’ 2T), Robinha (Ana Clara, 40’ 2T), Karla Alves, Aline (Késia, 24’ 2T), Isa Guimarães (Maricel Pereyra, 45’ 2T) e Crivelari (Mylena Carioca, 24’ 2T). Técnico: Thiago Viana.

Corinthians (3-5-2): Nicole, Thais Regina, Thais Ferreira, Erika (Letícia Monteiro, 24’ 2T), Gi Fernandes (Gisela Robledo, 1’ 2T), Duda Sampaio, Vic Albuquerque (Jaqueline, 1’ 2T), Belén Aquino (Ariel, 40’ 2T), Juliete, Jhonson (Andressa Alves, 24’ 2T) e Gabi Zanotti. Técnica: Emily Lima

Gol: São Paulo – Bia Menezes (10’); Corinthians – Juliete (18’).

Cartões amarelos: São Paulo – Karla Alves (53’ 2T); Corinthians – Érika (11’ 2T) e Belén Aquino (11’ 2T).

Arbitragem: Daiane Muniz (SP). Auxiliares: Leila Moreira da Cruz (DF) e Maira Mastella Moreira (RS). Quarta árbitra: Rejane Caetano da Silva (CE). VAR: Adeli Mara Monteiro (SP).

*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@saopaulofc_fem

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