Jornalismo Júnior

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Como os anos 2000 atuam no imaginário de uma nova geração

As tendências do período ganham novos significados e continuam a influenciar jovens que não viveram os anos 2000
Britney Spears performando ajoelhada no palco com figurino de pedrarias nos anos 2000.

Por Larissa Santos (larissasantos22@usp.br)

Conhecido por suas músicas vibrantes e sua aura juvenil, os anos 2000 marcou gerações pela singularidade em sua estética, principalmente, nas músicas e na moda. Essas características influenciam jovens de diferentes partes do mundo até a atualidade. O pop foi um dos estilos musicais emblemáticos da época e ganhou grande notoriedade com artistas como Britney Spears, Christina Aguilera, Avril Lavigne e Beyoncé. 

Consolidado com artistas majoritariamente estadunidenses, a estética presente no pop dos anos 2000 interligava moda, música e televisão. Segundo o artigo científico “Música: formando tribos, constituindo identidades sociais”, os autores abordam como os gêneros musicais podem ser fatores de formação de identidades sociais, pertencimento  e identificação grupal, refletindo nas relações interpessoais, na inserção em grupos, nas vestimentas e ações dos indivíduos. Também, refletindo como a música tem um fator importante no cotidiano das pessoas, indo além de apenas vestir uma roupa, e passando a representar uma parte da história que conecta pessoas que compartilham gostos em comum.

Moda, Exagero e Futurismo

A moda dos anos 2000 remonta o final da década de 1990 e foi influenciada por um futurismo otimista. Isso ocorreu em meio ao temor do “Bug do Milênio”, um erro de programação que poderia derrubar sistemas de computadores ao redor do mundo na virada do século. Assim, conforme aponta o portal de moda “Steal The Look”,  houve uma valorização de roupas que remetiam à ideia de futuro na época, com peças confeccionadas em tecidos prateados e holográficos.

Comparativo de moda futurista e gótica entre desfile de alta-costura e a personagem Trinity do filme Matrix.
Em 1999, o estilista John Galliano desenhou uma coleção para a grife Christian Dior inspirada em The Matrix (1999), com vinil brilhante e formas afiadas. [Imagem: Reprodução/Instagram/@unfash]

A indústria cultural — com a televisão, as revistas e os videoclipes — tinha grande influência sobre o consumo dos jovens. Artistas como Britney Spears ajudaram a popularizar uma estética que combinava peças de cintura baixa, materiais brilhantes, acessórios chamativos, óculos coloridos e elementos futuristas. Em apresentações, clipes e aparições públicas, a cantora contribuiu para que esse estilo fosse consumido e propagado mundo afora.

A estética Y2K, abreviação de Years 2000 — anos 2000s, em português — também incorporava elementos considerados extravagantes para a época, como calças de cintura baixa e modelagem ampla, tops curtos, aplicações brilhantes, estampas coloridas e acessórios chamativos.

 O termo foi criado nos anos 1995  pelo programador David Eddy, mas tomou maior repercussão ao final dos anos 90 pelo medo da virada do milênio. A combinação entre referências futuristas e elementos da cultura pop ajudaram a transformar o estilo em uma das marcas visuais dessa virada. 

Também, em 2020 o termo voltou a se popularizar pelo isolamento em que o mundo se encontrava, no qual jovens da Geração Z passaram a remeter o termo com nostalgia em suas redes sociais.

Britney Spears e Mick Jagger sorrindo durante entrevista nos anos 2000 nos estúdios da MTV.
Britney e Mick Jagger no VMA 2001, momentos antes da cantora estrear ao vivo o seu novo single I’m a Slave 4 U [Imagem: Reprodução/Instagram/@britneyspears]

Entre diferentes gerações

Em entrevista ao Sala 33, Maximilian Kauffmann, estudante de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo (USP), relata sua visão sobre os anos 2000. Ele conta que boa parte da visão que tem sobre esse período vem de sua vivência familiar e das narrativas presentes na internet e no cinema. Filmes como High School Musical (2006), segundo ele, chegaram a influenciar seu estilo de se vestir, assim como outras produções adolescentes da época.

“Nós sentimos falta de um tempo que não vivemos”
Maximilian Kauffmann

Também questionado sobre o que assimilava como uma característica marcante dos anos 2000, Kauffmann responde que as pessoas pareciam mais felizes e perfeitas, enquanto as relações e o mundo não aparentavam ser tão complexos quanto atualmente. Para ele, a vida parecia seguir um curso mais leve: “Onde todo mundo é feliz”.

Entre as explicações para a atmosfera nostálgica está a influência das narrativas digitais. Em entrevista à Jornalismo Júnior, Issaaf Karhawi, jornalista e professora na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), explica que o digital permite o rompimento de lógicas de tempo e espaço. “Plataformas como TikTok se organizam a partir da lógica do presente permanente”, menciona.

Os meios digitais também contribuem para que diferentes partes da história sejam revisitadas e colaboram com a possibilidade de conexão com diferentes momentos da indústria cultural. Publicidades ou regravações de músicas são exemplos de produtos do próprio mercado cultural que dialogam com as gerações atuais. Isso pode levar jovens a reproduzir e romantizar visões de outras épocas. Karhawi aponta que “a nostalgia tem um apelo comercial interessante, o digital traz os produtos midiáticos para uma lógica presentificada o tempo inteiro.”

“A temporalidade é do presente, nas redes sociais não há passado e nem futuro”
Issaaf Karhawi

Para os jovens que não viveram os anos 2000, a nostalgia não parte necessariamente de uma memória, mas das referências que chegam até eles. Entre músicas, roupas, filmes, redes sociais e produtos que retornam ao cotidiano, o passado é reinterpretado e ganha novos significados. Mais do que reviver uma época, essa geração cria sua própria versão dos anos 2000 — uma versão construída a partir da cultura digital e dos recortes que permaneceram em circulação ao longo do tempo.

“Eu sempre senti falta de um sentimento”
Maximilian Kauffmann

Segundo Karhawi, as incertezas do futuro podem contribuir para o apelo nostálgico de uma suposta sensação de segurança existente no passado. Isso pode remeter a sentimentos que levam a pessoa a pensar em uma determinada época com nostalgia, embora não a tenha vivenciado.

Festa na USP 

Em agosto de 2026, uma festa intitulada “De volta aos anos 2000” foi realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Seu tema e dress code foram inspirados nas tendências populares do período.

Multidão reunida em evento noturno ou festa sob área coberta com iluminação neon magenta e roxa.
A festa contou com uma seleção de músicas que reuniu os hits pop do final dos anos 90 aos 2000 [Imagem: Larissa Santos /Acervo Pessoal]

Camila Cabello, Beyoncé, Britney Spears, Icona Pop, Charli XCX, Rihanna, Lady Gaga, Fifth Harmony, Katy Perry, Taylor Swift, Justin Bieber e outros artistas estavam no topo da playlist da festa.A estética Y2K era nítida: óculos escuros, minissaias, calças de cintura baixa, muito brilho e maquiagens com sombras e gloss complementavam as vestimentas. Acessórios como argolas e cintos também completavam os looks e reforçavam a personalidade de cada produção.

Além das roupas em tons claros e brilhantes, vestes que remetem à cultura emo também marcaram presença. Roupas pretas, meias-calças rasgadas, franjas e maquiagens marcantes ocuparam o prédio e se mostraram uma parte importante da estética do período, marcada por uma proposta melancólica e ligada a bandas como Paramore, Fall Out Boy e My Chemical Romance.

Look estilo Y2K e grunge urbano com saia curta, casaco preto e meia-calça arrastão rasgada.
O encontro mostrou como as músicas dos anos 2000 ainda são parte importante do imaginário dos jovens, remetendo à rebeldia juvenil e despertando sentimentos de nostalgia [Imagem: Larissa Santos /Acervo Pessoal]

*Imagem de capa: Reprodução /Instagram @britneyspears creditada: @Scott Gries]

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