Jornalismo Júnior

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Entre a lenda e o mito do Relâmpago McQueen

De volta aos cinemas, o primeiro filme de Carros completou 20 anos e recebeu uma homenagem na Fórmula 1; na Jornalismo Júnior, o principal personagem da franquia ganhou uma crônica
Por Davi Caldas  (odavicaldas@usp.br)

Todo campeão vira uma lenda. E algumas lendas acabam virando mitos. Eu, no entanto, sou um mero telespectador, um simples amante dos esportes. Cresci vendo automobilismo com meu pai e confesso que me apaixonei pelos roncos daqueles motores.

E como alguém que nasceu nos 2000 e gosta da cultura automobilística, claro que uma das minhas animações preferidas é Carros, da Pixar. Inclusive, o segundo filme (Cars 2, 2011), lançado quando eu já não era apenas uma criança e sim um grande rapaz de sete anos pronto para assistir uma história com muito suspense e carros de alta velocidade, vi nos cinemas com a minha mamãe.

Um pouco depois daquela ótima experiência cinematográfica, comecei a torcer para a Ferrari na Fórmula 1. Influência do carro vermelho do McQueen? Ou será do Francesco Bernoulli, um dos melhores personagens de Carros 2 e de toda a franquia? Ou ainda do Guido ‘pit stop’, assíduo torcedor da montadora italiana? Apenas sei que gostaria muito de ter visto Sebastian Vettel vencer um título na Scuderia e, atualmente, sofro da mesma forma com Charles Leclerc.

Antes da emocionante vitória de Kimi Antonelli no GP da Itália de 2026, a Fórmula 1 prestou uma homenagem aos 20 anos da franquia Carros, com uma volta de apresentação do Relâmpago McQueen

Contudo, o automobilismo que mais me encanta é aquele que eu não cheguei a ver. Os “ídolos do passado”, pode-se dizer. Isso me fez querer ler sobre essas histórias e conhecê-las melhor. Hoje, Max Verstappen é quem aquece as pistas da principal categoria do esporte a motor, mas e na década de 1950, quando o simples fato de terminar uma corrida com vida já era uma vitória?

E assim pesquisei sobre Juan Manuel Fangio, pentacampeão em uma época que muitos vencedores – como Alberto Ascari, primeiro multicampeão e rival do argentino nos autódromos – morriam praticando esse trabalho perigoso à época. Arriscar suas vidas por “amor ao esporte” era o que esses pilotos faziam a cada nova corrida.

Fui buscar outros nomes para além da F1 e descobri Ken Miles, um britânico que fez história em provas de endurance e morreu testando um de seus carros. No cinema, Ford vs Ferrari (Ford v Ferrari, 2019) retratou sua emocionante trajetória. A obra, vencedora de duas estatuetas no Oscar 2020, conseguiu juntar a dramaticidade do piloto com a empolgação de suas corridas.

Também conhecido em alguns mercados por Le Mans 66′, Ford v Ferrari foi o primeiro longa sobre corridas a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme; Carros foi indicado como Melhor Animação

E isso é exatamente o que faltou na franquia Carros. Por mais que o público costume lembrar com bastante carinho da trilogia – que de fato é muito boa -, ela falha na sua questão mais simples: contar a história de seus campeões. É mencionado que o Relâmpago McQueen, principal estrela dos filmes, foi extremamente vencedor na Copa Pistão, mas cadê o registro dessas vitórias?

No primeiro filme (Cars, 2006), o número 95 deixou de vencer o título para ajudar o Rei Strip Weathers na última corrida da temporada. A frase “é só uma taça vazia”, dita por Doc Hudson, gritou na sua mente – e para ser honesto, o final não poderia ser melhor. A crítica, no entanto, encaixa-se perfeitamente para a sequência da animação.

Ka-Chow! O Relâmpago McQueen tem um motor V-8, 750 cavalos de potência, tração traseira e atinge uma velocidade máxima de 322 km por hora, acelerando de 0 a 97 km por hora em 4,5 segundos

Em Carros 2, os roteiristas deixaram escapar o auge de McQueen para apresentar uma história de espionagem. É legal, mas fica um gosto de “quero mais”. Ver o protagonista competir e até vencer um carro de Fórmula 1 – inerentemente mais rápido do que os stock cars da NASCAR – é a única pista exibida sobre o quão veloz e dominante ele está (mas convenhamos, em um campeonato que não vale nada). Tudo o que temos é o que nos contam: de repente, de um filme para o outro, o carro da Rust-eze é tetracampeão. Isso sem ao menos termos visto uma mísera vitória na Copa Pistão, nem sequer uma corrida vencida nesses quatro títulos.

Carros 3 (Cars 3, 2017) também não resolveu essa questão. O início mostrou um pouco do Relâmpago correndo e vencendo algumas provas, mas é realmente apenas “um pouco”, bem pouco, quase nada. Na grande parte do filme, vemos um carro velho, que não consegue mais acompanhar os talentos da nova geração. Ele está acabado e ultrapassado. O 95 até tenta a volta por cima, mas o final decepciona mais uma vez ao confirmar a sua falta de condições para competir com os demais carros.

Meme veiculado na internet utilizando parte da capa
do terceiro filme de Carros

A trilogia é finalizada com McQueen sendo o mentor de um outro carro, assim como Doc Hudson, uma vez, foi seu mentor. E ironicamente, os dois têm algo em comum: suas vitórias não foram mostradas. O Fabuloso, no entanto, possui histórias muito interessantes que vão além do personagem. Paul Newman, ator que dublou o número 51, foi um dos grandes nomes da história do cinema, conseguindo indicações ao Oscar em cinco décadas diferentes. Em 1986, ganhou um prêmio honorário da Academia, enquanto que no ano seguinte conquistou a estatueta de Melhor Ator pelo seu desempenho na obra A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986). Também venceu prêmios em Cannes, Globo de Ouro, BAFTA e vários outros festivais.

Mas a atuação não foi a única carreira em que Paul teve excelência. Newman também foi um piloto respeitado no automobilismo profissional, conquistando títulos nacionais na SCCA (Sports Car Club of America) e tendo em seu currículo um segundo lugar na conceituada 24 Horas de Le Mans, em 1979, e uma terceira colocação geral nas 24 Horas de Daytona, em 1995, aos 70 anos. Em ambas corridas, conquistou o título de sua classe (IMSA GTX e GTS-1, respectivamente).

O ator descobriu a paixão pelo esporte a motor nas gravações do longa-metragem 500 Milhas (Winning, 1969) e estreou nas corridas em 1972, aos 47 anos. Mas a experiência no automobilismo não limitou-se às pistas: em 1983, co-fundou a vitoriosa equipe de Fórmula Indy Newman/Haas Racing junto a Carl Haas, acumulando diversos títulos com Mario Andretti, Nigel Mansell, Sébastien Bourdais e o brasileiro Cristiano da Matta.

Além do dublador, o Hudson Hornet em si também foi um carro que existiu na vida real e dominou a NASCAR no início dos anos 1950, sendo principalmente associado aos pilotos Marshall Teague, Herb Thomas e Tim Flock. O modelo da Hudson Motor Car Company, assim como na animação, foi tricampeão consecutivo, de 1951 a 1953, e usava o apelido de “Fabulous” na lateral do carro.

Isso pressupõe que as vitórias do Fabuloso Hudson Hornet, por mais que não sejam mostradas nos filmes, existem e foram registradas. São histórias que podem ser contadas. Assim como Strip “The King” Weathers, personagem baseado em Richard Petty, um dos maiores pilotos da história da NASCAR e dublador do número 43 em Carros.

Na versão alemã do filme, o Rei também foi interpretado por Niki Lauda, enquanto que na dublagem finlandesa, Mika Häkkinen foi quem deu voz ao carro da Dinoco. No Brasil, Rubinho Barrichello dublou o sobrinho de Strip, Cal Weathers. Lendas como Michael Schumacher, Lewis Hamilton, Mario Andretti, Jeff Gordon e Darrell Waltrip também foram dubladores nestes filmes, além de várias outras participações regionais de pilotos na versão americana ou nas adaptações de diferentes países, como Fernando Alonso, Emerson Fittipaldi e Sebastian Vettel.

Em entrevista à NASCAR, o heptacampeão Richard Petty expõe lendário modelo Plymouth Superbird, adaptado na animação Carros; além dele próprio, seu filho e também piloto, Kyle Petty, dublou o sobrinho de Strip Weathers (Cal Weathers) em Carros 3

Por um lado, isso cria um ar místico ao personagem principal da franquia. Sabemos que ele foi rápido o suficiente para se tornar imbatível durante o seu auge, mas nunca chegamos a ver essas cenas. Também não temos paralelos reais para traçar ao 95. Às vezes, a ideia hipotética de um carro que se autodenomina como “a velocidade” é mais empolgante e eletrizante do que uma cena de animação ou corrida da vida real.

Outro aspecto é a mensagem que Carros transmite, principalmente às crianças. Vencer nem sempre é tudo, e por mais que McQueen tenha sido heptacampeão, as histórias dos filmes priorizam os ensinamentos de Doc Hudson, as amizades de Radiator Springs e o espírito de equipe acima do individual. Conduzir a vitória da sua discípula no último momento do terceiro filme foi praticamente tão importante para o personagem quanto se ele mesmo tivesse vencido, assim como carregar Strip Weathers até a linha de chegada no início da franquia teve mais peso do que a taça.

Contudo, é apenas decepcionante passar toda uma trilogia sem ter realmente visto o quão magnífico ele foi nas pistas do universo de Carros. A menos que novos projetos prequels sejam feitos, nunca saberemos o sinônimo do que é ser a própria velocidade.

O Relâmpago McQueen vira apenas um mito, no sentido mais fabuloso, narrativo e fantástico da palavra. Apesar de ser o personagem principal da franquia, é o mais misterioso dentre os campeões mostrados nos filmes. É uma lenda da Copa Pistão, mas quase que uma mitologia contada para nós, telespectadores.

Possante como um jato, veloz como um foguete. Katchau!

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