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‘Street Fighter’: é clichê, pastelão e ridículo! Ainda bem

Filme mistura live-action e animação com personalidade e apelo nostálgico em uma adaptação divertida da série de jogos
Por Eduardo José (edujs0207sp@usp.br)

“Viver é lutar e lutar é viver” é uma frase que circula em todo o filme Street Fighter (2026). O longa chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (15) e promete trazer justiça à cinematografia da famosa franquia de jogos, de mesmo nome. 

Podemos dizer que a Capcom – desenvolvedora dos jogos – realmente “viveu lutando” para que essa adaptação caísse nas graças do público. Longe da infidelidade da versão de 1994 e seguindo a cartilha nostálgica das adaptações atuais, Street Fighter diverte, contagia e tenta emocionar, mas encontra dificuldades em medir sua própria autenticidade.

A Legendary Entertainment adquiriu em 2023 os direitos de adaptação de Street Fighter aos cinemas, depois de outras duas produções pouco querida pelos fãs. Dirigido por Kitao Sakurai, o novo filme tem um elenco estelar, com Noah Centineo (Ken) e Andrew Koji (Ryu) no protagonismo, além de nomes como Jason Momoa, 50 Cent e David Dastmalchian. Diferente dos filmes anteriores, em 2026 a franquia não se leva à sério, e tem nesse aspecto a sua melhor qualidade.

A trama acompanha Ken e Ryu, dois lutadores e amigos de infância, ambos discípulos do mestre em artes marciais Gouken (Don Lee). Após a vitória de Ryu no primeiro Torneio Mundial de Luta em 1987, o ditador megalomaníaco M.Bison (David Dastmalchian) busca reunir os maiores lutadores do planeta para uma nova versão do torneio, 6 anos depois. 

Mas, a competição não é o que parece e a dupla de velhos amigos terá que se reunir à Chun-Li (Callina Lyang) para desvendar uma grande conspiração. Além de lutar, os protagonistas terão que enfrentar fantasmas do passado e de uma relação desgastada marcada por inveja, superação e luto.

Street Fighter foi lançado originalmente para fliperamas em 1987, mas foi sua sequência que revolucionou a indústria de jogos de luta. Hoje, a franquia conta com 6 jogos principais e outros derivados
[Imagem: Eduardo José / Acervo Pessoal]

A Capcom tentou emplacar o universo de Street Fighter outras vezes nos cinemas. Em Street Fighter: A Batalha Final (Street Fighter, 1994) a aposta foi na estrela de Jean-Claude Van Damme como Guile, personagem norte americano que, em 2026, é interpretado comicamente por Cody Rhodes. A ideia não foi bem recebida pelos fãs, que clamavam pelo protagonismo de Ryu e Ken, personagens icônicos da série de jogos. Street Fighter: A Lenda de Chun-Li (Street Fighter: The Legend of Chun-Li, 2009) não aprendeu com os erros do último título e é considerado por muitos como a pior adaptação cinematográfica de videogame. O acerto, no entanto, esteve nas animações.

Os produtores dessa nova versão entenderam que as animações de Street Fighter sempre tiveram boas recepções, apesar do público nichado. Eles não só compreenderam isso como trouxeram os animes para dividir o tempo de tela, concentrando na animação, flashbacks que explicam eventos anteriores. À princípio a junção pode estranhar, mas após alguns minutos, é possível que o espectador torça para que a cena animada não tenha fim. Lutas muito bem desenhadas e empolgantes, ao ponto em que a qualidade das brigas em live-action pode ser subestimada.

Mas aqui vem outro ponto muito positivo: As lutas, tanto animadas quanto as encenadas por atores reais, são excelentes – em especial a última sequência em live action. Não deixam nada a desejar no quesito de efeitos especiais,  principal calcanhar de Aquiles de outras produções de ação lançadas recentemente. A coreografia, ritmo, edição e trilha sonora dessas cenas empolgam, ao mesmo tempo que sabem dosar, na maioria das vezes, a comédia.

Os carros destrutíveis são um elemento clássico dos jogos e que aparecem no filme de forma cômica, mesmo quando não há tantas justificativas para um automóvel no cenário
[Imagem: Reprodução / TMDB]

O filme tem um tom cômico e satírico aos filmes de luta, jogos da série e principalmente aos anos 90. A comédia é muito bem concentrada em personagens como Ken e seu empresário Dan,  enquanto o drama está mais ao lado de Ryu e Chun Li. O tom, no entanto, não sabe se medir adequadamente, e a impressão que dá é que tentaram fazer o espectador rir por diferentes frentes de comédia, às vezes de forma irônica, outras por comédia “pastelão”. Alguns espectadores podem rir das sacadas satíricas ao mesmo tempo que podem se incomodar com o humor mais “físico”. 

Um exemplo disso é uma cena em que Ken enfrenta Ryu em uma luta fraca, marcada pelo humor corporal de Noah Centineo e trejeitos do marrento Ryu. A passagem apela para o humor pastelão digno de Chaves (1971 – 1992) escorregando em uma casca de banana. O tom cômico – quando bem aplicado –, mais “diverte” do que faz rir, e o entretenimento fica concentrado nas boas cenas de luta e na sintonia do elenco em cenas conjuntas.

Há uma vertente dramática no roteiro, explorada desde o início do longa e com uma catarse no fim. O desequilíbrio de tom, contudo, somado a uma solução clichê do final, faz duvidar se o drama é irônico ou deveria ser realmente levado a sério, já que não faz rir e também não emociona. 

O drama é, na verdade, uma boa ferramenta para empolgar a batalha final e de solução do roteiro. Nisso sim, existe mérito: A edição dita um ritmo rápido, cheio de ação, e com soluções cinematográficas interessantes para representar os poderes.

A cafonice também está presente. Marcado por referências, inserção de músicas dos anos 1990 – que geram boas piadas, com personagens muitas vezes conscientes da trilha sonora -, o filme é quase uma Jukebox “noventista”, com Rock, Pop e Hip-Hop. Também não faltam visuais extravagantes e figurinos bregas. O filme é intencionalmente ridículo e, principalmente, autoconsciente da sua “breguice”. Algumas cenas chegam a zombar dos jogos ou mesmo das versões anteriores de filmes, repetindo linhas de diálogo, dessa vez, ironicamente.

David Dastmalchian teve o difícil papel de reinterpretar M.Bison, um dos poucos elementos elogiáveis do filme de 1994, em que o personagem é interpretado por Raúl Juliá
[Imagem :Reprodução / TMDB]

É o caso da piada da versão de 1994, em que M.Bison diz que “para (tal personagem), o dia mais importante de sua vida é essa terça-feira, enquanto pra mim… É terça-feira”. David Dastmalchian repete a anedota, bem como implementa outras boas piadas disfarçadas no caráter sisudo do personagem. David rouba a cena como vilão, o que já não é novidade para o ator, acostumado em interpretar personagens excêntricos e, quase sempre, malucos.

Os atores protagonistas também se entregam bem, mas o diferencial no lado dos mocinhos está na entrega surpreendente de Callina Lyang como Chun-li. A atriz era conhecida com papéis em séries adolescentes, mas soube mostrar uma personagem madura, segura de si e foi hipnotizante no papel. 

A personagem carrega um estigma característico da comunidade nos videogames: sua beleza física. Em uma comunidade majoritariamente consumida pelo público masculino, Chun-li é alvo de “elogios” e falas pouco respeitosas, para dizer o mínimo. O longa brinca com isso, ridicularizando alguns desses fãs, personificados na figura do personagem interpretado por Kyle Mooney — intermediário entre a Interpol e a agente — com piadas pontuais e bem dosadas. 

Jason Momoa, uma das principais celebridades do elenco e também produtor do longa, vive Blanka – personagem brasileiro da franquia – um brutamontes com poderes elétricos cedidos por enguias do Rio Amazonas. Mamoa está pouco reconhecível no papel, devido ao CGI aos moldes de Hulk. 

Suas interações são pontuais e um tanto quanto “bobas”. Deu pra notar que não houve tanto trabalho por parte do ator em esconder o sotaque carregado ao dizer “Obrigado”, em português.

A falsa representatividade brasileira também é característica dos jogos,  em que Blanka segue uma série de estereótipos brasileiros, em contraste ao seu nome tipicamente americano, “Jimmy”
[Imagem: Reprodução / IMDb]

Outros personagens são interessantes mas não têm tanta relevância para além da referências ao jogos e cenas de luta. A impressão, muitas vezes, é que esses personagens, como Balrog (50 Cent) e Juli (Rayna Vallandigham) são sub aproveitados e só estão no filme para cumprir a tabela da nostalgia. A notícia boa é que o filme deixa um gancho claro para uma sequência em que essas personas podem retornar e, quem sabe, ter mais impacto na trama.

Lutas, músicas, efeitos especiais bem feitos e uma edição que traz ritmo satisfatório à ação, Street Fighter deve satisfazer aquela família que escolher assistir um filme despretensiosamente durante um passeio no shopping. Para adaptações de videogames, mais importante do que surpreender com um roteiro mirabolante e complexo, o filme deve divertir, e nesse caso, cumpre bem o papel. O tom cômico é desequilibrado e o ritmo eletrizante pode parecer uma sucessão de clipes de música pop americana só que com luta. Mas são ótimos clipes.

Street Fighter já está disponível nos cinemas brasileiros! Confira o trailer: 

*Imagem de Capa: [Reprodução / IMDb]

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