Por Nina M Bozic (ninamilibo@usp.br)
“Desde que era criança, sempre quis atirar pessoas em vulcões”, conta Romain Gravas em entrevista à Screen Rant. Seu novo filme, Sacrifício (Sacrifice, 2025), que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (15), propõe-se a atender seu desejo.
No longa, uma seita ambientalista liderada por Joan (Anya Taylor-Joy) invade um evento de luxo para cumprir uma profecia que impediria o fim do mundo. Em meio a empresários e figuras públicas presentes, três reféns são capturados para atenderem às demandas do grupo. A trama se desenrola conforme a erupção do vulcão que levaria ao colapso climático e o sacrifício que o pararia se aproximam.
Entre os reféns, está Mike Tyler (Chris Evans), um ator com a carreira e a psique em crise, que busca se reerguer após um surto público. O personagem protagoniza o longa ao lado de Joan, e acompanha o espectador nas dúvidas sobre a validade da profecia e seu papel no meio disso, com uma decisão crucial a tomar.
Com direção de Romain Gravas e roteiro de Will Albery, o filme reúne um elenco de peso. Além de Chris Evans e Anya Taylor-Joy, a trama conta com nomes como Vincent Cassel e Ambika Mod como coadjuvantes. Os artistas Charli XCX e Yung Lean, que fazem parte da trilha sonora, também têm participações especiais.
Um aspecto positivo do filme é a mudança gradual em seu tom, que acompanha o desenrolar dos acontecimentos. No começo, a obra usa o humor ácido e exageros para criar uma atmosfera irônica. Os personagens, o discurso e a estética do evento, todos caricatos e essencialmente desconectados da causa ambiental que dizem defender, satirizam a elite e seus ideais de forma clara, ainda que por vezes até demasiado óbvia.
Nesta parte da obra, Will Albery, co-roteirista do longa, traz a alta sociedade caricata típica de Succession (2018-2023), série que também roteirizou. O esnobismo e as provocações entre as figuras públicas servem para ridicularizar, ao passo que divertem e envergonham o público.
A partir do sequestro dos reféns e do aprofundamento dos questionamentos de Mike, o longa torna-se um suspense existencialista. Diante da iminência da morte e da possibilidade dúbia de salvar a humanidade, a audiência é levada a se interrogar sobre o que faria e no que acreditar. Com sequências alucinógenas e revelações sobre as dinâmicas da seita, a trama mergulha nas contradições e desejos profundos dos protagonistas, que refletem o borbulhar ameaçador da lava vulcânica.
Apesar das alterações no tom, uma consistência temática clara é mantida por toda a duração da obra, com foco sempre em dilemas sobre as ações e crenças humanas. Desde o começo, Mike é assombrado pela dualidade entre a própria autenticidade e a persona que assume diante do público. Após ser capturado, o ator, que já tinha dúvidas sobre como se posicionar e contar uma história capaz de mudar o mundo, encontra-se sem saber no que acreditar e no que é o certo a fazer — um sentimento de incerteza do personagem bem retratado por Evans.
A dúvida de Mike é contrastada pela certeza de Joan, que não hesita em agir e defender suas convicções. A personagem e seu grupo representam um viés religioso e ritualístico em contradição com a ciência na pauta climática. A validade de suas crenças permanece ambígua ao espectador, mas adquire nuances conforme os acontecimentos a desafiam ou corroboram.
A caracterização da comunidade de Joan, entretanto, é uma fraqueza da obra. Ao optar por ter apenas a líder, uma personagem energética e convicta que oferece poucas explicações para os demais, como voz do grupo, não há espaço para uma boa exposição das dinâmicas e intenções dele. Assim, o longa precisa apelar para recursos expositivos como trechos de reportagens mal encaixados, com informações de origem não explicada, para apresentá-los.
Os demais personagens membros da seita acabam apagados, como soldados quaisquer sem rostos, motivações ou histórias claras. Ao apresentar parte da origem do grupo, Sacrifício propõe um mundo de relações complexas, mas não o torna crível o bastante ao espectador.
Esta questão também se estende para além dos personagens da seita. Entre os coadjuvantes, o bilionário Ben Bracken é um dos poucos destaques que trazem a própria perspectiva e personalidade para a trama. Oliver (Sam Richardson) e Kaite (Ambika Mod), apresentam baixo desenvolvimento narrativo e têm suas reações aos eventos pouco exploradas, mesmo que estejam profundamente envolvidos com eles.
Ambos são parte dos poucos personagens não brancos do longa. A diversidade étnica – ou a falta dela – não é um ponto claramente reconhecido pela trama ou discutido por ela. A maioria branca no evento de luxo pode ser vista de forma crítica, uma vez que o roteiro chega a ironizar os estereótipos raciais da elite através de Kaite, que admite ter fingido ser nativa americana para participar da cerimônia, mesmo sendo britânica de origem paquistanesa. A branquitude da seita, por outro lado, reitera a semelhança entre os que fazem parte dela, com Taylor-Joy representando sua unidade.
Os cenários altamente impactantes, que constroem a atmosfera e envolvem a trama quase como personagens, pautam o que é visualmente pela fotografia. A mina grega em que ocorre o evento de luxo, por exemplo, é formada por pedras brancas e geométricas, de forma a refletir a sofisticação fria da cerimônia. Já o vulcão, presente com frequência através das imagens ou menções dos personagens, paira sobre todo o filme, assombrando a psique dos retratados e trazendo à luz seus questionamentos.
Há, contudo, uma falta de saturação de cores típica do cinema recente, com um aspecto digital que diminui a dramaticidade das imagens, especialmente do fogo. Apesar de negativo para a porção mais impactante e reflexiva do longa, este aspecto é positivo nas sequências da mina, por reforçarem a frieza do evento de luxo.
Já o figurino brilha, especialmente nas cenas da mina. O uniforme claro do grupo de Joan se camufla no cenário, permitindo aos membros se infiltrarem e assistirem às celebridades sem serem percebidos, o que reforça seu caráter ameaçador. Os trajes de gala das figuras públicas também representam suas personalidades, com Glória em um vestido espalhafatoso e Ben em um terno relaxado, por exemplo. Já o terno branco com detalhes pretos de Mike o aproxima da seita, por também ter cores majoritariamente claras, e representa seus dilemas a partir do contraste com os tons escuros.
Sacrifício tem sucesso na construção de uma atmosfera envolvente, que mantém o espectador inserido nos temas e ambientes. Elementos como figuras e histórias da mitologia grega são mencionados pontualmente, o que contribui para o imaginário místico construído pela seita. As músicas também são muito bem utilizadas, acompanhando, em melodia e letras, os sentidos do longa.
É uma exploração interessante das crenças e valores humanos. Rompe com estereótipos comuns de obras eat the rich e de perspectivas usuais sobre o eco-ativismo radical ao inserir uma seita com fé e contradições próprias, além da causa. A sátira é bem sucedida em criticar e divertir o espectador, e o suspense subsequente mantém a audiência cativa até o final.
Sacrifício já está disponível nos cinemas brasileiros e será disponibilizado na Netflix nesta sexta-feira (16). Confira o trailer:
Imagem da capa: [Reprodução/IMDb]





