Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)
Em março de 1967, em meio ao grêmio estudantil da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), foi lançado o Amanhã. Produzido por estudantes ativistas políticos, o semanário foi apenas um dentre os diversos jornais estudantis que nasceram no período da ditadura militar brasileira , assim como O Politécnico, periódico ainda em circulação na Escola Politécnica da USP, e o Grêmio Informa, também da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (hoje, FFLCH).
A existência de jornais estudantis não era novidade no período ditatorial, O Politécnico existia há mais de vinte anos, por exemplo. Entretanto, segundo o Instituto Claro, o desempenho desses em dar luz à assuntos censurados pela mídia tradicional se deu de forma intrínseca à luta contra a repressão. No livro Jornalistas e Revolucionários: A Imprensa Alternativa no Brasil, Bernardo Kucinski afirma que, ao contrário dos veículos hegemônicos existentes na época, “a única razão de existir desses periódicos era a resistência”.
O impacto desses jornais não se restringe apenas aos campus da USP. Para além do olhar acadêmico, segundo o Instituto Claro, os periódicos estudantis puderam servir como reflexo do cotidiano escolar das instituições e da realidade histórica na qual estavam presentes, o que destacava as condições sociais dos estudantes que os produziram.
O início de uma unidade
O movimento estudantil brasileiro nasceu na década de 1930, com o surgimento da União Nacional dos Estudantes (UNE). É o que afirma a própria UNE, que conta, em comunicado oficial, sobre a crescente vontade da juventude da época em se organizar em uma “entidade única, representativa, forte e legítima”, com participação relevante nos movimentos sociais daquele momento.
No livro Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa, o jornalista Bernardo Kucinski atribui esse desejo do crescimento da imprensa alternativa em tempos de repressão no país ao sentimento de desagregação da identidade desses grupos. Segundo Kucinski, havia uma “busca, por jornalistas e intelectuais, por espaços alternativos à grande imprensa e à universidade”. Surgem então, os jornais estudantis, não em períodos de bem estar, mas sim, em uma era de medo e de desconfiança.
O escritor ainda explica que a criação dos veículos universitários, especificamente jornais criados após a ascensão militar de 1964, funcionou “como pólo substitutivo de agregação no ambiente hostil e desagregador da ditadura”. Em entrevista à J.Press, o pesquisador Raphael Greenhalgh, biblioteconomista e doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Brasília (UnB), também menciona esse comportamento unificador e de busca pela autonomia universitária nas redações dos jornais estudantis.
“Os jornais estudantis deste período funcionavam como um dos pontos de resistência ao governo militar.”
Raphael Greenhalgh
A força da censura
Greenhalgh, que também é pesquisador das restrições impostas à imprensa alternativa durante o período da ditadura militar, afirma que a perseguição aos veículos jornalísticos ocorria, entre outras atos, com invasões à universidades que produziam jornais de oposição ao regime e com a prisão de vendedores ambulantes de títulos da imprensa alternativa.
“Além disso, aconteceram prisões de jornalistas, auditorias fiscais aos jornais no intuito de fechá-los e controle de publicidade governamental, tanto de empréstimos vindos dos bancos públicos e de outros financiamentos, liberados de acordo com a colaboração e submissão do jornal ou revista ao governo”, afirma ele.
Greenhalgh destaca o perfil comum entre os jornais estudantis da época. “No geral, a comunicação impressa entre os estudantes era clandestina, com produções de baixo custo, em que os jornais estudantis funcionavam como espaços para tratar de cultura e política como forma de resistência, trazendo denúncias e reivindicações sobre as perseguições que estavam sofrendo no ambiente universitário”, indica. Segundo ele, a precariedade dos jornais universitários os tornava alvos mais fáceis para censura em comparação a veículos da mídia tradicional.
Kucinski menciona o impacto da clandestinidade do jornal Amanhã como causa de seu eventual fim. De acordo com ele, a redação do periódico funcionava de forma precária no andar superior do então Teatro da USP. Com a descoberta do uso do local pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP), a direção do teatro pediu para que os estudantes retirassem seus pertences do andar, e assim teve fim o semanário. A ameaça de uma possível evacuação foi suficiente para desmantelar o trabalho dos universitários.
A identidade de quem escreve
Em artigo para a Revista Alterjor, da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), Greenhalgh reafirma a importância dos jornais estudantis em momentos de repressão e cita a historiadora Angélica Muller ao ressaltar o papel desses veículos na “estruturação de uma identidade coletiva nas universidades”. Segundo o pesquisador, essa identidade na medida em que a produção dos jornais, mesmo sob cerceamento, também funcionava como modo de “organização e construção de redes de interação social”. Nesta lógica, a manutenção do jornal ajudaria a manter também a unidade estudantil.
Victoria Lopes, atual diretora do jornal estudantil O Politécnico, relata que a formação de uma identidade entre os alunos da Escola Politécnica por meio das publicações do jornal vem de lugares não tão racionais. “Existem algumas coisas que todos nós, politécnicos, temos em comum”, afirma ela, ao comentar sobre a importância das colunas humorísticas do periódico. “Vamos dar risada do fato de todo mundo ter se dado mal na semana de prova, ou de alguma matéria em específico ser muito difícil.”
“No final, encontramos um pouco de humor nas dificuldades.”
Victoria Lopes
A estudante de Engenharia Naval e Oceânica aponta também para a relevância do veículo em tempos de movimentação política. Completando 82 anos de história em 2026, O Politécnico foi criado em meio a Era Vargas e sobreviveu a Ditadura Militar, mesmo sendo abertamente crítico ao regime. Lopes afirma que sua diretoria no jornal tem se posicionado bem frente aos movimentos de seu tempo, como exemplo da greve estudantil pela qual a instituição acabou de passar.
A diretora de O Politécnico explica que o jornal não se calou e nem deixou de se posicionar.“O Politécnico tem sido um jornal de bastante conscientização. Durante a greve, buscamos publicar textos com bastante transparência, sobre como funcionou o processo”. Ela ainda relata que, durante o período de greve na Universidade, os estudantes estavam consumindo muita desinformação, o que ela indica como exemplo para explicar a posição importante do Jornal para combater quaisquer dúvidas ou mentiras disseminadas sobre o assunto.
Nos dias atuais, o periódico organizado por estudantes da engenharia busca criar um ambiente livre para aqueles que desejam ter seus textos publicados. Segundo Lopes, o diferencial do veículo e o motivo de sua longevidade está na diversidade presente no conteúdo disponibilizado a um público heterogêneo, o que torna mais fácil a identificação pelos leitores.
“São pessoas que se interessam por coisas novas e eu acredito que, no jornal, trazemos uma gama bem diversificada de textos que gera identificação em cada parte da comunidade.”
Victoria Lopes
[Foto de capa: Kuba Bożanowski/Wikimedia Commons]




