Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br)
De 7 de agosto a 12 de outubro de 2026, o Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP), em São Paulo, recebe a exposição internacional Miró: Mestre das Formas. Realizada pelo Instituto Totex, ela possui obras selecionadas pelo chefe do departamento educativo da Fundação Joan Miró, Jordi J. Clavero. A exibição celebra os 65 anos do museu e reúne mais de cem obras originais de Joan Miró, entre pinturas, gravuras, esculturas, tapeçarias e fotografias. Ao agrupar obras raras e acervos que nunca haviam saído do território espanhol, a exposição propõe ao visitante um mergulho em uma maneira única de enxergar a realidade.
Um passeio pelo universo provocativo da mostra
A exposição possui obras produzidas com diferentes materiais, desenhos com giz de cera e nanquim, telas, tapeçarias e até mesmo esculturas feitas de bronze. Elas estão divididas em 6 núcleos: “Um vocabulário de Signos”, “O signo em liberdade”, “ O objeto”, “Figuras Pretas”, “Mulheres, cães, insetos” e “Grandes Sínteses”. A mostra busca apresentar diferentes facetas do artista Joan Miró, para além daquela lúdica e colorida frequentemente associada a ele.
As criações de Miró espelham seu interior, pois ao atravessar períodos dolorosos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, além da Guerra Civil Espanhola, o artista transformou seu repertório visual, como cores primárias e formas orgânicas em uma ferramenta de crítica social, questionando a realidade e os dilemas políticos da época. Por isso a visitação, muitas vezes, se transforma em um exercício de reflexão acerca dos padrões, não só de beleza, mas também sociais criados e historicamente impostos pela população eurocêntrica ocidental.
Segundo afirma a mediadora e orientadora de público da mostra, Larissa Miwa em entrevista à Jornalismo Júnior, parte dos visitantes demonstra frustração por não identificar de imediato os elementos representados pelo artista, como ocorre na tela Mulher, pássaro, estrela. No entanto, a proposta de Miró era justamente provocar essa reflexão, questionando os conceitos tradicionais do que se entende por figuras como uma mulher ou um pássaro. Em vez de reproduzir a realidade, o artista buscava acessar novas perspectivas e formas de enxergar o mundo.
Há ainda dois momentos com criações que não foram executadas diretamente por Miró. O primeiro deles é uma sala de tapeçarias, montada em um espaço delimitado por uma cor de parede diferente do restante da exposição para sinalizar a mudança de contexto. O ambiente exibe peças em grande escala executadas pelo aprendiz Josep Royo. Após a morte de seu mestre, ele recebeu uma encomenda da família, uma espécie de homenagem póstuma, na qual oito litografias do álbum Le Lézard aux Plumes d’Or foram reproduzidas com lã e tecidos.
O segundo momento é o conjunto de 30 fotografias registradas por Joaquín Gomis. As imagens documentam o ateliê-laboratório de Miró e revelam seu método de trabalho cotidiano, focado na pesquisa e no estudo de materiais ordinários. As imagens de igrejas, vegetais, cactos e pedras podem parecer uma escolha aleatória e sem sentido, contudo para Miwa, remetem-se, muitas vezes, às formas retratadas nas criações do mestre catalão.
De acordo com Miwa, a exposição fica frequentemente cheia, contudo ressalta que ela exige uma postura diferente daquela que o público recente se habituou a encontrar em grandes eventos culturais. A forte onda de mostras imersivas e interativas teria gerado certa confusão em parte dos visitantes, que chegam esperando instalações tocáveis, por exemplo. A proposta da exposição “Miró: Mestre das formas” vai na direção oposta, pois trata-se de uma exibição contemplativa e de valor histórico, composta por mais de uma centena de obras originais.
A diversidade de perfis que ocupa o salão é notória, indo desde crianças até idosos e, ao mesmo tempo, revela diferentes percepções sobre o acervo. A visitante Flora Silva, que levou a filha para conhecer o local, aprovou a experiência, embora tenha sentido falta de telas mais icônicas e populares do artista. Já a coordenadora e jornalista da TV UNAERP e professora titular da Universidade de Ribeirão Preto, Flávia Martelli, que visitava o museu ao lado da amiga Ieda, diz ter adorado a mostra e celebrou a oportunidade de reencontrar de perto trabalhos que não via há muito tempo.
Evolução e os bastidores das criações de Joan Miró
Joan Miró i Ferrà nasceu em Barcelona em 20 de abril de 1893. Pressionado pela família para seguir uma carreira comercial tradicional, o jovem artista chegou a cursar economia e a trabalhar como balconista em uma farmácia. Aos 18 anos, teve uma crise nervosa grave e um quadro de febre tifóide. Seu período de recuperação foi na propriedade rural da família em Mont-Roig del Camp. A reconexão com a paisagem do interior restaurou sua saúde e convenceu seus pais a autorizarem seus estudos artísticos em 1912, na Academia de Artes dirigida por Francisco Galí.
Em 1919, mudou-se para Paris e integrou o cenário das vanguardas europeias, estabelecendo interlocução com Pablo Picasso e com o idealizador do Surrealismo, André Breton. Embora tenha assinado o manifesto do movimento em 1924 e participado da primeira exposição surrealista em 1926, Miró recusou o enquadramento rígido do grupo. Interessava-lhe produzir a partir do inconsciente e do fluxo espontâneo de ideias, mas não o abandono do rigor metodológico.
Impedido de retornar à Espanha devido à eclosão da Guerra Civil Espanhola e à ascensão do regime ditatorial de Francisco Franco, Miró transformou sua produção em instrumento de resistência política. Em 1937, idealizou o painel O Ceifeiro para o pavilhão da República Espanhola na Exposição Internacional de Paris. Anos depois, com o avanço das tropas nazistas sobre a França, no início da Segunda Guerra Mundial, Miró buscou no cosmos uma resposta ao horror da época. Ele deu início à série de 23 pequenas obras intituladas Constelações. Tratava-se de uma tentativa poética de contrapor o terror do conflito a um universo próprio, regido pela harmonia e equilíbrio.
Nas décadas de 1940 e 1950, seu reconhecimento internacional consolidou-se com grandes retrospectivas no MoMA de Nova York, o prêmio de gravura na Bienal de Veneza e comissões de murais para a Universidade de Harvard e a sede da UNESCO em Paris. Em 1956, estabeleceu seu ateliê definitivo em Palma de Mallorca e antes de sua morte, em 25 de dezembro de 1983, acompanhou a criação da Fundação Joan Miró em Barcelona.
Para além da exposição: a beleza arquitetônica do MAB FAAP
Para quem visita a exposição,um espetáculo à parte é apresentado com a arquitetura e decoração do edifício do MAB FAAP. Localizado na Rua Alagoas, no bairro do Pacaembu, ele foi projetado pelo arquiteto francês Auguste Perret, sendo a sua única obra realizada no Brasil e em toda a América Latina.
Para a sua inauguração, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) cedeu réplicas em gesso de obras do Barroco brasileiro, incluindo esculturas de Aleijadinho e elementos das arquiteturas mineira e baiana, muitas das quais permanecem integradas ao saguão principal. A estética do saguão também foi marcada por reformas conduzidas em 1997 pelo cenógrafo Jean Philippe Therené, que buscou simular as texturas e cores originais dos templos barrocos.
Outro marco visual é o conjunto de painéis de vitrais do saguão. Instalados entre 1958 e 1960 sob a coordenação de Pietro Maria Bardi e da artista suíça Claudia Andujar, os vitrais foram executados pela tradicional Casa Conrado. Trata-se de uma oficina fundada em 1888 pela família Sorgenicht, responsável também pelos vitrais da Catedral da Sé e do Mercado Municipal de São Paulo.






