Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

9º Festival Piauí de Jornalismo |‘Um novo crime contra a humanidade’: jornalista israelense comenta atitudes recentes de Netanyahu

Amos Schocken, publisher do jornal israelense Haaretz, questiona a violência em Gaza e conta como o veículo vem atuando na guerra

Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)

Na última sexta-feira (5) o governo de Israel bombardeou o segundo prédio mais alto da Cidade de Gaza. O novo plano de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, incentivado pelo governo dos Estados Unidos, é retirar todos os palestinos do território, sempre sob a alegação de estar combatendo o grupo terrorista Hamas. “A decisão de conquistar Gaza é algo que ninguém em Israel entendeu, e a ideia de que isso iria aniquilar o Hamas parece ridícula para a maioria, mas foi assim que foi apresentado ao público”, afirmou  Amos Schocken, publisher do Haaretz, em entrevista concedida neste domingo, no 9° Festival Piauí de Jornalismo, promovido pela Revista piauí nos dias 6 e 7 de setembro, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. 

A conversa, que abriu o segundo dia de festival, às 9h30 do domingo (7), foi conduzida por André Petry, editor da piauí, e por Ana Clara Costa, repórter, também da piauí. Ana Clara substituiu Dorrit Harazim, jornalista do O Globo, que não pôde comparecer. Schocken participou virtualmente, já que não conseguiu vir para o Brasil, que teve como tema A contra-história – repórteres que bagunçam os mitos nacionais. Em pouco mais de uma hora de bate-papo, o publisher passou por assuntos como a invasão da Palestina por Israel, os ataques sofridos pelo povo palestino e a atuação da imprensa local, diante disso.

Schocken, não costumava publicar muitos artigos autorais no veículo. Seus trabalhos costumavam aparecer no máximo quatro vezes em um ano inteiro. Depois da guerra entre Israel e Palestina estourar, no entanto, se envolveu mais na escrita, denunciando os ataques do governo israelense.

O Nakba: de 1948 à atualidade

Mais de 60 mil palestinos morreram na faixa de Gaza desde que a guerra entre Israel e Palestina estourou, no dia 7 de outubro de 2023, quando homens armados liderados pelo Hamas invadiram o sul de Israel. Na entrevista, Schocken afirmou ser muito difícil definir o que está acontecendo na guerra como “razoável”: “Não podemos dizer que o Hamas não deveria sofrer as consequências do ataque, mas é difícil entender o motivo das mortes de tantos palestinos inocentes”.

No que diz respeito à resolução do conflito, o publisher acredita que Israel poderia ter saído da guerra de uma maneira compreensível caso tivesse dado dois passos específicos. “O primeiro seria ter recuperado os reféns na época do 7 de outubro [de 2023]. Em seguida, Netanyahu deveria ter acatado a sugestão de Joe Biden (ex-presidente dos Estados Unidos) e trabalhado para estabelecer uma solução de dois Estados”, explicou.

No entanto, o que se desenha no momento é a expulsão dos palestinos da península, medida que tem o apoio do presidente estadunidense, Donald Trump, aliado de Netanyahu. “Na primeira reunião de Netanyahu e Trump, o americano falou sobre movimentar todos os palestinos e moradores de Gaza. Ele deseja transformar a Faixa de Gaza em outra coisa, num lugar ‘maravilhoso’”, pontuou. Isso faria com que prevalecesse apenas o Estado de Israel, que existe desde 1948, quando foi criado pela  ONU (Organização das Nações Unidas), depois da Segunda Guerra Mundial — evento no qual o povo judeu foi vítima de um dos maiores eventos de genocídio da história: o holocausto. Esse movimento, da união judaica em uma nação singular, é o que se chama de Sionismo. Diante desse cenário, Schocken teme pelo futuro dos palestinos na região. Para ele, essa expulsão configuraria um “novo crime contra a humanidade”

À época da fundação de Israel, a região palestina, no extremo leste do Mar Mediterrâneo, foi dividida entre Israel e território árabe, mas o segundo não foi legitimado como um Estado. Desde então, a região convive com conflitos e invasões, e a divisão atual não mais corresponde àquela acordada pela ONU, de modo que o povo árabe foi perdendo sua área de controle ao longo dos anos, num processo conhecido como Nakba. O termo se refere a uma “limpeza étnica” do povo palestino, promovida por Israel, que tem destruído sua cultura e sociedade por meio da violência e da opressão. O jornalista contou que, com a intensificação dos conflitos, passou a se envolver mais na produção de artigos opinativos, denunciando os ataques do governo israelense. No primeiro deles afirmou que Netanyahu era o pior líder da história de Israel, e que a única forma de recuperar seu legado seria na instituição de um Estado palestino.

O jornalismo na Faixa de Gaza

O Haaretz foi fundado em 1918, fazendo dele o jornal em circulação impressa mais velho de Israel [Imagem: Matheus Andriani/Jornalismo Júnior]

Nesse contexto, o Haaretz se tornou uma ferramenta de resistência. Sob comando da família de Schocken desde 1935, o jornal prega um mantra de comprometimento com a independência editorial. Na conversa transmitida no Auditório da Cinemateca Brasileira, o publisher  comentou que muitos outros veículos jornalística deixa de reportar a guerra por medo de reações negativas por parte dos telespectadores e do governo. 

Em 2024, as autoridades israelenses ordenaram um boicote ao portal, apelidado por eles de “Diário do Hamas”, no que Schocken considera uma tentativa falha de prejudicar seu trabalho: “Talvez tenha nos custado alguns milhões de assinaturas, mas não é uma situação importante, conseguimos continuar”. Para ele, o veículo tem a responsabilidade de descrever a realidade da melhor forma possível, mesmo que isso irrite alguns líderes e assinantes. A pouco tempo de completar dois anos em curso, a Guerra em Gaza já é o conflito que mais matou jornalistas em toda a história. As estimativas mais baixas apontam para um número entre 150 e 200 profissionais mortos — mais do que a soma dos assassinados na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Ucrânia. Schocken disse não poder afirmar se os números são acidentes ou métodos de silenciamento — fazendo referência aos seis periodistas assassinados no bombardeio de um hospital.  Quando questionado sobre a segurança dos trabalhadores do Haaretz, ele afirmou não ter tido nenhuma perda. “Não acho que ninguém aqui [em Israel] pense na possibilidade de matar jornalistas israelenses. Essa ainda não é a Rússia de Putin”.

Apesar disso, Schocken segue denunciando e questionando as atitudes de Netanyahu: “Acho que ele está ficando com inveja da forma como Trump rege os Estados Unidos. Ele deseja a lealdade do governo ao primeiro-ministro, em vez de ao público, assim como também é feito agora em outros países autocráticos, como a Hungria”. . Para o jornalista, o povo israelense é peça-chave no combate ao autoritarismo de Netanyahu. “Antes da guerra, houve um ataque à nossa Suprema Corte. Queriam mudá-la, mas houve oposição do povo. Por um ano protestaram, e a iniciativa foi postergada e cancelada. A luta pela democracia israelense continua de pé”.

[Imagem de capa: Matheus Andriani/Jornalismo Júnior]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima