Jornalismo Júnior

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Coberturas jornalísticas dos ataques escolares no Brasil: a linha tênue entre cobrir e não cobrir

Seminário debateu as falhas da cobertura jornalística em episódios de violência e o efeito que elas podem ter sobre outros ataques
Por Bernardo Medeiros (bernardo10medeiros@usp.br) e Luana Sales Riva (luanaria06@usp.br)

Na última quarta-feira, 26, ocorreu no auditório Freitas Nobre, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Universidade de São Paulo (CJE-USP), um seminário que abordou o histórico da cobertura de ataques escolares no Brasil, suas características e consequências. Mediado pelo professor do departamento, Vitor Blotta, o evento contou com a presença da professora Marcela Nunes, pós-doutora pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, e do estudante de jornalismo Guilherme Bento. 

Também participou do debate Laura Mattos, repórter especial da Folha de S.Paulo e integrante do NEV. Para discutir o tema, foram apresentados dados da pesquisa de Iniciação Científica (IC) de Guilherme, complementado por comentários de Marcela, sua orientadora, e de Laura. Ao final, os três responderam perguntas do público.

Columbine e a origem dos massacres

O massacre de Columbine, ocorrido em 20 de abril de 1999, originou a cobertura moderna dos ataques escolares. O tiroteio, que marcou a história dos Estados Unidos, foi amplamente noticiado e televisionado, com imagens aéreas em tempo real e suítes – termo jornalístico para matérias consecutivas sobre o mesmo assunto – a cada hora. Marcella analisou que o tratamento dado pela imprensa no caso definiu um padrão que se estabeleceu para as próximas décadas, perpetuando vícios e falhas na cobertura, inclusive nas brasileiras.

A professora citou o livro de David Cullen, Columbine (Twelve, 2009), jornalista que esteve presente durante a apuração do massacre estadunidense. Na obra, Cullen revisita a sua própria cobertura, relatando erros da imprensa, e Marcela analisou que, no episódio de Columbine tratado pelo livro, os jornalistas acabaram por cair no laxismo, reproduzindo narrativas que não tinham evidências concretas apenas para entregarem uma cobertura aos veículos.

Ela também comentou sobre teorias da conspiração que se criou na mídia, como a “máfia do sobretudo” e as acusações de satanismo, então muito em voga na imprensa nacional: “Vamos pensar que, nesse momento, a própria cultura estadunidense está passando muito pela ideia do pânico satânico, do pânico moral.”

Marcella Nunes reiterou que o Efeito Columbine inaugurou uma “forma transnacional de fazer a cobertura midiática” [Imagem: Luana Sales Riva/Acervo Pessoal]

Outra narrativa que se cria é ao redor do bullying como motivo do ataque. No entanto, a professora refutou essa explicação: “aqueles dois jovens não estavam em estado de depressão, não eram isolados, eles trabalhavam, eles tinham namoradas.” Ela complementou, atingindo o cerne da sua pesquisa no NEV: “O que faz eles realizarem o ataque é uma outra natureza, que tem a ver com os discursos de ódio.” Ainda assim, a narrativa se tornou amplamente difundida, sendo repetida até hoje por grandes veículos de comunicação e virando motim para novas ofensivas contra escolas.

“Ataques que estão ocorrendo aqui, entre os jovens brasileiros, partem dessas narrativas, que foram consolidadas a partir de Columbine”, explica a professora. O ponto central da pesquisa é justamente a repetição de narrativas falsas pela mídia: “Nós estamos compreendendo a produção jornalística como uma fonte que propaga conteúdo de extrema violência, produzindo o chamado efeito contágio ou o próprio copycat crime.” Ainda segundo Marcella, a cobertura da imprensa repete padrões que não apenas limitam o entendimento do fenômeno como fomentam outras ofensivas.

Os ataques brasileiros

Procurando as consequências na cobertura brasileira e nos ataques dentro do país, Marcela se uniu ao estudante Guilherme Bento, que está no último ano da faculdade. Juntos, com o apoio do NEV e do professor Vitor Blotta, fizeram um levantamento de artigos noticiosos de ataques escolares entre 2001, quando ocorreu o primeiro registro online de uma ofensiva do tipo no Brasil, e 2023. 

Ao todo, foram encontrados 1.182 textos, por meio dos mecanismos de busca Google e Yahoo, referentes aos 42 ataques que ocorreram no período. Guilherme apresentou cinco casos de ataques que tiveram uma cobertura midiática notável na mídia: Macaúbas (2001), Realengo (2011), Saudades (2021), Manaus (2023) e Vila Sônia (2023).

A pesquisa de Iniciação Científica de Guilherme tratou da cobertura dos ataques pelo jornalismo brasileiro, tendo o massacre de Realengo como principal objeto de estudo [Imagem: Luana Sales Riva/Acervo Pessoal]

O estudante destacou o massacre de Realengo, que ocorreu em 2011, por ter se tornado a referência brasileira no assunto e ter tido a cobertura mais extensa: “Apesar da nossa série histórica ter começado em 2001, ele é o que é lembrado ao longo dos anos e referenciado na cobertura dos ataques.” 

Guilherme notou algumas características no tratamento que a imprensa deu ao massacre, como a criação de páginas especiais na web com notícias exclusivas sobre o caso e suítes atualizadas a cada minuto: “Foi uma suíte massiva de cobertura. Era algo que estava evoluindo hora a hora, e cada vez abordado de uma perspectiva diferente. Isso tudo no primeiro dia do ataque.”

Outras características permaneceram na cobertura realizada pela imprensa em outras ofensivas, como o uso de testemunhas e estudantes como fontes credibilizadas e o uso de imagens explícitas captadas por câmera de segurança e, mais recentemente, celulares. 

Ainda há a divulgação do nome e de imagens dos perpetradores dos massacres, geralmente menores de idades, que, como observa Guilherme, é ilegal: “Você não pode divulgar nada em relação ao menor de idade: foto, nome, ou iniciais. Porque vai contra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).”

Guilherme finalizou discutindo um dos ataques mais recentes, ocorrido em 2023, na Vila Sônia: “Foi um ataque crucial para discutir o que era a cobertura de ataques em escolas no Brasil”. O estudante destacou como ainda houve a criação de muitos suítes ao redor do assunto, mas que, por outro lado, ocorreu uma padronização maior das coberturas e da discussão ao redor dela: “é um momento em que eles [a imprensa] começam a discutir como deve ser essa cobertura.” 

Ele ainda comentou sobre uma pesquisa que analisa dois casos finlandeses, Jokela (2007) e Kauhajoki (2008), pontuando como a cobertura local evoluiu dentro de um ano, seguindo princípios de Tobias Peucer – jornalista e pesquisador, considerado um dos fundadores da teoria do jornalismo – para a ética no jornalismo: publicidade, independência, imparcialidade e neutralidade.

Sob os valores jornalísticos de Peucer, Guilherme se debruçou sobre o questionamento: as coberturas dos ataques seriam informação essencial ou fofoca prejudicial [Imagem: Luana Sales Riva/Acervo Pessoal]

Afinal, como cobrir os ataques em escolas?

Após a apresentação dos resultados das pesquisas de ambos, a jornalista Laura Mattos, responsável por textos de cobertura do ataque à Escola Estadual Thomazia Montoro, em 2023 na Vila Sônia, para a Folha de S.Paulo, debateu os dados apresentados por Marcela e Guilherme. Laura trouxe como reflexão inicial o impacto das redes sociais na discussão, e a necessidade de colocá-las como centrais no debate, visto que “estão envolvidas na disseminação de violência”, afirmou a repórter.

Partilhando da mesma visão que Marcela, referente à compreensão dos ataques como um problema social, a jornalista analisou que a busca por soluções, no que se refere ao modo de cobertura jornalística desses episódios, também deve envolver a sociedade. Laura também acrescenta que esse tipo de violência admite uma dimensão simbólica, pois “a escola é um ambiente sagrado; no imaginário popular, ela é um ambiente de segurança, que deveria ser saudável”.

Justamente por essa característica, a repórter explicou que, nessas apurações, o cuidado vai além da possibilidade ou do risco de causar novos ataques – fenômeno conhecido como efeito contágio –, mas também com algo que tem um peso no pânico da população.

“Além de pensar na cobertura como responsabilidade para evitar o efeito contágio, temos que pensar nessa cobertura em respeito ao peso simbólico que esse tipo de violência tem na sociedade.”

Laura Mattos

Laura apresentou como possível solução refletir sobre a cobertura dos ataques fora do calor do momento do acontecimento. “Quando não estamos em um episódio de ataque, conseguimos pensar e trazer a discussão de uma forma mais equilibrada e racional, de um jeito mais seguro”, reitera a jornalista. 

Outro ponto retomado por ela foi relacionado ao efeito copycat dentro da imprensa, cujas consequências são notícias iguais em diferentes veículos, que também contribuem para o efeito contágio.

Laura Mattos realizou um apontamento de questões à se refletir sobre a temática, sob a ótica jornalística, para o grupo de pesquisa e para o estudante [Imagem: Luana Sales Riva/Acervo Pessoal]

A jornalista finalizou resgatando as principais dúvidas que surgem no profissional no momento da cobertura: como fazer o jornalismo ético e como superar o dilema entre cobrir e não cobrir. “Embora debatemos a temática, ao final a dúvida que sempre ficará no jornalista é como fazer a cobertura dos ataques em escola, porque isso é uma resposta incerta”, conclui Laura.

[Imagem da capa: Luana Sales Riva/Acervo Pessoal]

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