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Copa do Mundo de 1954: 70 anos do primeiro título mundial da Alemanha

A competição teve a maior média de gols da história das Copas, além de contar com a magia da Hungria de Puskás e ‘zebra’ na final

Por Breno Marino (brenomarino2005@usp.br) e Isadora Batista (isadorabatista@usp.br)

Em 1954, foi realizada a quinta edição da Copa do Mundo da FIFA. 16 seleções nacionais participaram da competição, formada por quatro grupos de quatro equipes. Foram 140 gols em 26 partidas, ou seja, 5.4 gols por partida: a maior média em Copas.

Escolha da sede

Com sede em Zurique, a Fifa escolheu a Suíça para sediar a Copa do Mundo que marcaria seu 50º aniversário. Aquela seria a primeira vez que a competição voltava a ser disputada em solo europeu depois da Segunda Guerra Mundial.

Nove anos depois do maior conflito mortal da história, a Suíça se apresentava como a melhor opção, geopoliticamente, para receber o torneio. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho (PVC), em entrevista ao Arquibancada, pontuou a importância da neutralidade e posição do país suíço na guerra: “A Suíça era a sede da FIFA, mas a questão de ser um país neutro, nove anos depois da Guerra, pesou muito. Ela está no centro da Europa e não está de um lado nem do outro. A questão geopolítica é mais importante que o aniversário da instituição”.

Apesar da França ser o país fundador da entidade, os franceses tiveram grande posicionamento durante o conflito armado, sendo o segundo país que mais sofreu perdas. Então a sede em Zurique surgiu como justificativa para a escolha da FIFA. A neutralidade apresentada pela Suíça e a sua posição entre os poucos países que saíram ilesos da Segunda Guerra fez com que a decisão fosse fácil e estratégica. 

A melhor Hungria de todos os tempos

Campeã olímpica em 1952, a Hungria era a seleção favorita à conquista da Copa do Mundo em 1954, somando uma invencibilidade de aproximadamente quatro anos. Com grandes jogadores, em especial o craque do Real Madrid, Ferenc Puskás, a seleção húngara era conhecida pelo “futebol arte” — bastante ofensivo e arrasador logo nos primeiros minutos das partidas. Na Copa, a equipe fez, ao menos, dois gols até os 20 minutos de jogo em quase todas as partidas, não repetindo o feito apenas contra o Uruguai. 

A Hungria contava com alguns aspectos que a diferenciavam das outras seleções e gerava surpresa nos adversários. “A seleção húngara jogava com um falso nove no ataque, função realizada por Hidegkuti, o que não era uma novidade no futebol (já havia sido usado pela Áustria em 1934), mas destacava-se como algo taticamente relevante. Além disso, o fato de aquecerem antes das partidas, algo inédito, foi relevante para os jogadores entrarem bem fisicamente, enquanto seus adversários não estavam preparados”, afirma PVC.

Puskás, para muitos, é um dos dez maiores jogadores de futebol de todos os tempos, e dá o nome à premiação da FIFA de gol mais bonito da temporada, o prêmio Puskás [Reprodução/WikimediaCommons]

No grupo dois da competição, a equipe liderada por Puskás venceu a Coreia do Sul por 9 a 0, e a Alemanha por 8 a 3. Nesse último jogo, o adversário, que encontraria novamente na final, contava com diversos jogadores poupados, e abusou de faltas em cima de Puskás, o que prejudicou seu desempenho no restante da Copa e o deixou de fora dos confrontos seguintes antes da final. Kocsis, atacante húngaro, marcou ao menos três gols em ambas as partidas, sendo um marco recorde na história da competição, igualado por outros três jogadores posteriormente (Just Fontaine, Gerd Müller e Gabriel Batistuta).

Nas quartas de final, a equipe treinada por Gusztav Sebes enfrentou a seleção brasileira. Em embate marcado por briga generalizada após o término da partida, a Hungria venceu o Brasil por 4 a 2 e avançou às semifinais. Na fase seguinte, a seleção húngara venceu o Uruguai, atual campeão do mundo na época, por 4 a 2 também.

“Seleção Canarinho”

A seleção brasileira chegava para a Copa de 54 após a final doída em 1950, quando o Brasil foi derrotado na reta final da partida para a seleção uruguaia, que virou o placar e conquistou o título mundial no Maracanã, estádio gigantesco criado especialmente para o torneio. O “Maracanazo” ficou marcado como uma das partidas mais dramáticas de todos os tempos. 

A seleção brasileira embarcou para a Suíça com o desejo de esquecer a tragédia anterior (Reprodução/Picryl)

Para apagar as lembranças do último mundial e restaurar o respeito diante do mundo, foi realizada uma série de mudanças. Do time vice-campeão de 1950, apenas seis jogadores continuaram na seleção: o goleiro Castilho, o zagueiro Nilton Santos, os meias Ely e Bauer, e os atacantes Baltazar e Rodrigues. O técnico também mudou: o campeão pan-americano Zezé Moreira assumiu no lugar de Flávio Costa.

A primeira partida do Brasil nas Eliminatórias marcou a histórica mudança: o uniforme branco foi substituído pela Amarelinha. Depois do trauma do “Maracanazo”, os brasileiros questionavam a cor da camisa e a apontavam como motivo de azar da seleção. Então, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) decidiu aposentar a camisa branca e abrir um concurso para a criação de novos trajes que tivessem as quatro cores da bandeira. Aldyr Garcia Schlee, que optou por um short azul e uma camisa amarela e verde, foi o vencedor.

No dia 28 de fevereiro de 1954, o novo traje estreou com vitória de 2 a 0 contra o Chile. O locutor Geraldo José de Almeida chamou o Brasil de “Seleção Canarinho” na estreia da Copa, apelido que “pegou” e personificou o atual mascote da seleção brasileira. 

Contudo, o Brasil fez uma competição discreta. Estreou contra o México, assim como em 1950, e o derrotou com facilidade por 5 a 0, e no segundo jogo da primeira fase, contra a Iugoslávia, empatou em 1 a 1.

Classificado para as quartas de final, o Brasil pegou a temida seleção húngara, favorita da competição. O resultado da disputa foi a derrota para a Hungria, que marcou seu primeiro gol já aos quatro primeiros minutos de jogo, após o zagueiro Pinheiro escorregar e deixar o campo livre para o húngaro Hidegkuti abrir o placar. Não demorou para que a nossa seleção tomasse o segundo gol, três minutos depois, quando Kocsis cabeceou e encobriu o goleiro Castilho para ampliar o placar. Aos 18’, Djalma Santos cobrou um pênalti, resultado de um lance entre Índio e Lorant, e conseguiu diminuir para 2 a 1.

O segundo tempo iniciou equilibrado e as duas seleções atacavam, mas não ofereciam risco real ao adversário. Foi quando, aos 60’, o árbitro do jogo marcou pênalti para a Hungria, em um lance entre Pinheiro e Lantos, que mudou o placar para 3 a 1. Em seguida, os brasileiros reagiram e Julinho marcou, 3 a 2. No meio do segundo tempo, enquanto o jogo ficava mais acirrado, Nilton Santos e Bozsik trocaram socos e foram expulsos. Os minutos seguintes foram cheios de criações e chances perdidas do Brasil e, como “quem não faz, toma”, nos últimos minutos do tempo normal, a Hungria fechou o placar em 4 a 2.

O Brasil foi eliminado e a partida, que mesmo depois do apito final gerou brigas, ficou marcada como um duelo violento, “a Batalha de Berna”. 

Alemanha: ainda em pedaços do pós-guerra

Um país dividido em dois e ainda com enormes danos da Segunda Guerra Mundial: essa era a Alemanha em 1954, em período de reconstrução, tanto social quanto identitária. Dessa forma, o futebol era uma forma de respiro e esperança ao país. Na Copa de 1954, apenas a parte Ocidental participou da competição. 

No grupo dois, a equipe comandada por Sepp Herberger, técnico reconhecido por impor seu estilo de jogo, segundo PVC,  venceu a Turquia por 4 a 1 na primeira rodada da Copa do Mundo. Logo depois, optando por poupar alguns jogadores, sofreu uma dura goleada de 8 a 3 para a favorita à conquista, Hungria. Em jogo extra contra a Turquia, para definir quem ficaria com a segunda colocação, já que ambas estavam com a mesma pontuação (uma vitória e uma derrota cada uma) e não havia outro critério de desempate na época, a seleção alemã se classificou às quartas de final, após vitória por 7 a 2.

Na fase seguinte, a Alemanha Ocidental enfrentou a Iugoslávia, e venceu por 2 a 0. Já nas semifinais, a seleção alemã goleou a Áustria por 6 a 1, partida na qual Fritz Walter foi o primeiro jogador na história das Copas a converter dois gols de pênalti em uma mesma partida.

Fritz Walter é considerado símbolo do futebol alemão (Reprodução/Picryl)

A final: o favoritismo não prevaleceu

Após se enfrentarem pela fase de grupos, Hungria e Alemanha Ocidental se encontraram novamente na disputa da final. A seleção húngara contava com o retorno de Puskás, que estava lesionado após embate contra os alemães na segunda rodada da fase inicial. Já a seleção alemã teve cinco alterações em relação ao último confronto entre as equipes, na qual poupou alguns titulares. 

Em oito minutos de partida, o placar já estava 2 a 0 para os húngaros, com gols de Puskás e Czibor. Mesmo com esse início arrasador, a forte chuva em Berna impediu o desempenho da seleção húngara e, ao final do primeiro tempo, a Alemanha já havia empatado a partida, com Morlock e Rahn fazendo os gols alemães. Na segunda etapa, o jogo físico alemão prevaleceu e, com gol de Rahn, seu segundo na partida, a equipe de Gusztav Sebes conquistou o título mundial. 

Este foi o primeiro título de Copa da seleção alemã, que agora é tetracampeã mundial (Reprodução/Picryl)

Mesmo com favoritismo, a Hungria não conseguiu repetir o desempenho das últimas partidas, seja por aspectos climáticos ou técnicos, mas principalmente pela falta de condição física do craque da equipe. Por outro lado, a conquista da primeira Copa do Mundo para a Alemanha representava muito mais do que só futebol. “O título representava toda uma sociedade em reconstrução que buscava uma melhora na sua autoestima. A conquista mostra que o país estava tentando retornar ao cenário mundial, nesse caso, no âmbito esportivo”, explica PVC.  

As polêmicas por trás da conquista

Em 2010, um estudo universitário, financiado pelo Comitê Olímpico Alemão (DBOS), concluiu que, desde 1949, diversos atletas de alto nível foram vítimas de doping na federação alemã. Assim, os jogadores da seleção alemã campeã do mundo em 1954 não fugiram dessa regra. Segundo o estudo, muitos jogadores da equipe foram dopados várias vezes com pertivina, que os atletas pensavam ser injecções de vitamina C.

O Pervitin foi criado e utilizado em massa pelo governo nazista alemão desde 1939, e é conhecido por elevar o estado de alerta, a auto-confiança, a concentração e o impulso para correr riscos, reduzindo a sensação de sede, fome, fadiga e sono. Os efeitos que o medicamento trazia aos atletas alemães permitiu o nivelamento com os aspectos físicos dos jogadores húngaros, já aquecidos previamente, além de aumentar o foco na partida.

Capa: [Reprodução/WikimediaCommons]

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