Herman Jacob Mankiewicz é um nome complicado e exaustivo, do qual, sem ajuda, um leitor provavelmente desistiria de decodificar sua pronúncia sem pensar duas vezes. Daí o apelido, Mank, que dá título a cinebiografia recém lançada pela plataforma Netflix e dirigida pelo célebre David Fincher.
Herman foi um grande roteirista durante os anos 1920 e 1930, de sucesso proporcional a seu alcoolismo e tensões com nomes colossais do sistema de estúdios e comunicações da época. A partir de seu laço próximo a tal universo, escreveu o roteiro de um dos filmes mais reverenciados da história do cinema: Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), do qual inicialmente era apenas escritor fantasma para o diretor Orson Welles.
O longa de Fincher o acompanha durante o processo de escrita após um acidente de carro, no qual também rememora pontos importantes de sua carreira e vida pessoal. É uma adição à extensa lista de odes às glamourosas e perturbadoras entranhas de Hollywood, composta por protagonistas deslumbrantes à frente de homens perniciosos nos bastidores.
Mank (2020) é o tipo de filme que o espectador sabe que deve adorar. Tudo sobre sua divulgação e técnicas empregadas grita elogios de obra-prima, numerosas indicações ao Oscar e repetido compartilhamento de frames em páginas sobre cinema nas redes sociais. É natural para uma conjunção de nomes envolvidos de tal calibre e temáticas tão apelativas ao mais cinéfilo, e Mank cumpre tais expectativas em certo grau.

É esse o maior trunfo do longa, que reconstrói a artificialidade fantástica do cinema a qual espectadores são compelidos a acreditarem, com o diferencial de um texto extremamente observador quanto às condições sociopolíticas do tempo — mas é essa também sua limitação autoimposta. Mank está tão preocupado em criar suas proporções épicas e múltiplos ramos, referências e reproduções como filme de época, que nunca constrói conflito que de fato cative a audiência.
Em justificativa da proposta errática que planejava para o roteiro de Cidadão Kane, Mank diz que “não é possível capturar a vida de um homem em 2 horas, pode-se apenas esperar que seja deixada alguma impressão”. É um sentimento válido e genuíno, claramente uma tese que o longa de Fincher procura comprovar, mas a impressão que deixa sobre seu protagonista carece de peso, ritmo e vulnerabilidade, homogeneizada pelas demonstrações de sagacidade, gênio forte e raciocínio rápido.

Dito isso, Gary Oldman tropeça bêbado e monologa sempre em domínio do roteiro denso de Fincher e da decadência prepotente que seu personagem sempre carrega. Seu contraste com a Marion Davies de Amanda Seyfried é digno de brilho, e a atriz navega bem pela psique da estrela dos anos 1930, com olhos magnéticos e postura relaxada, truques teatrais para a autoestima e roupas estonteantes pelos poucos minutos que ocupa a tela.
Amanda não é explosiva como Oldman, nem arrebatadora, mas sutilmente sagaz. Sua colaboração oferece bons momentos para que o filme — e a audiência — respire, em uma performance certamente engrandecida por ser a maior fonte de luz em meio a momentos tão suspensos de compaixão.
Mank é uma peculiar obra anacrônica, que ao colocar tão fielmente o passado no presente, esquece de trazer vitalidade ao cenário antiquado. É como a pronúncia do nome de seu protagonista: intrigante, desafiador e grandioso, mas sem apelo convincente à dedicação de quem o tenta decifrar, e pouca recompensa para quem perdura durante as duas — visualmente belas — horas.
O longa já está disponível para assinantes da Netflix. Confira o trailer:
*Capa: [Imagem: Reprodução/Netflix]