Por Rachel M. Mendes (rachelmmendes@usp.br)
Nesta quinta-feira (9), estreia o mais novo filme do diretor mineiro Maurílio Martins: O Último Episódio (2025). A trama foi inspirada pelas próprias memórias pessoais de Martins. “O filme se passa em 1991 e eu tinha 13 anos naquele ano. Eles estudam na mesma escola em que estudei e moram nas mesmas ruas onde cresci. Tem muito de mim ali, espalhado nos personagens, nas fotos e nas histórias” disse, em entrevista à Rolling Stone Brasil. Desde a estética da fotografia ao estilo dos figurinos, desde as piadas apresentadas à inserção da música Doce Mel (1988), cada detalhe do longa pretende envolver o espectador em nostalgia do Brasil do início da década de 1990.
A história foi idealizada ainda em 2009 e as gravações se deram em 2021, em meio à pandemia. No dia 2 de outubro deste ano, o longa foi exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e já se sabe que no dia 16 deste mês marcará presença no Festival do Rio.

O filme gira em torno de Erik Martins (Matheus Sampaio), um rapaz de Contagem que se apaixona pela nova aluna de sua escola, Sheila (Lara Silva). Em seu sentimentalismo pré-adolescente, tem uma ideia para impressioná-la: Erik diz que tem, em sua casa, o último episódio de A Caverna do Dragão (1983-1985).
Uma vez que a série infantojuvenil não possui um final, a existência de um provável último episódio é uma lenda urbana no universo da cultura pop, o que abre espaço para o surgimento de várias teorias a respeito de seu conteúdo. Mas, para o personagem principal da obra de Martins, há um jeito melhor de sanar a curiosidade e ganhar o coração da menina: gravar tudo do zero, com a ajuda da querida filmadora de seu falecido pai e de seus dois melhores amigos, Cristiane e Cassinho.
O roteiro permite que o espectador crie um carinho especial pelo trio de amigos ao explorar com cuidado seus respectivos arcos. Assim, quando o filme acaba e as luzes do cinema voltam a se acender, resta a intimidade estabelecida entre o cinéfilo e os heróis da história. Esse tipo de sensibilidade, ao se inserir na abordagem sobre pré-adolescentes, torna ainda mais clara a sua classificação no gênero coming of age. A obra brinca com a inocência sonhadora remanescente da infância e a compreensão nostálgica de mudanças que prenuncia a chegada da vida adulta.
O arco de Erik é, sem dúvidas, o mais interessante. Muito mais do que um garoto apaixonado e disposto a gravar sua própria versão do último episódio de A Caverna do Dragão, suas dúvidas pessoais em relação ao passado de sua família mostram-se como um elemento crucial para o início de seu amadurecimento, sobretudo, quanto a sua relação com o pai, Vilmar Martins (Daniel Jaber).
Vilmar faleceu cedo, o que fez Erik esquecer muitas memórias a seu respeito. Todavia, a figura paterna livre, querida, artística e misteriosa nunca deixou de acompanhá-lo, desde comparações constantes — sempre acompanhadas de suspiros saudosos — até uma curiosidade latente. Esse ponto torna-se o cerne da história e é retratado com uma sensibilidade comovente e belíssima, permitindo que o espectador sinta as emoções junto do rapaz. E é nesse desejo de autoconhecimento que mora o coração do longa.
Por alguns momentos, o espectador pode esperar mais quanto à atuação, especialmente no tom de voz da narração, que permanece bastante constante em relação às emoções ao longo do filme, sem demonstrações e nuances muito marcantes. Na contrapartida, Matheus Sampaio se destaca como ator, com uma interpretação sincera de sua personagem. Mas, de uma maneira geral, a atuação coletiva parece inconstante quanto à naturalidade, variando entre pontos positivos e negativos nas performances.
O Último Episódio promete emocionar os membros da Geração X com nostalgia e fazer os mais jovens desejarem ter vivido nos tempos retratados. É um filme leve, divertido e de uma sensibilidade e intimidade que o definem como um coming of age tipicamente brasileiro.

O Último Episódio já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Divulgação/Filmes de Plástico
