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O vampiro no cinema: como ele se transformou e sobreviveu

Perto de seu centenário no cinema, o vampiro permanece vivo, incorporando diversas questões e sentimentos humanos

CINÉFILOS
17 jul 2021 | Por Thiago Campolina (thiagocampolina@usp.br)

Há 99 anos, em 1922, F. W. Murnau lançava o primeiro filme de vampiro da história: Nosferatu (Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens). Neste ano de 2021, no dia 21 de outubro, ocorrerá o lançamento nos EUA de Hotel Transilvânia 4. O que permitiu, durante todo esse tempo, que os vampiros jamais largassem o osso? Ou deveria dizer pescoço? 

Bem, sugiro que você faça como Rita Lee e cante “venha me beijar, meu doce vampiro”. Deixe-se dominar por essa intrigante criatura da noite e venha conhecer o poder que ela exerce sobre o cinema. 

Primeiramente, vale destacar a origem do vampiro. Eles apareceram em diversas épocas e lugares, em civilizações tão distintas como a babilônica e a chinesa, ou a assíria e a mexicana. Porém lendas da Europa Central foram as que mais influenciaram a imagem atual que temos desse mito. 

Foram nelas que o escritor irlandês Bram Stoker se baseou para fazer sua obra Drácula (1897), que formou o arquétipo do vampiro que até hoje está presente no nosso imaginário. Mas essa não foi a primeira obra literária em que o vampiro deu as caras. O inglês John Polidori e o próprio Goethe, um dos maiores nomes da literatura alemã, em um poema, já haviam escrito textos em que ele aparecia. 

Assim como as lendas de um povo refletem a sua sociedade, com os filmes acontece a mesma coisa. Nesse sentido, pode-se compreender o filme como um retrato do seu tempo, uma espécie de documento. A fim de acompanhar as transformações que as pessoas viviam, o vampiro também se transformou, e trouxe consigo muitas das nossas visões e preconceitos.

 

Os primeiros vampiros: seres malignos e monstruosos 

O vampiro de Nosferatu é um ser feio, sujo e que não se parece quase nada com um homem. Seus dentes se assemelham aos dos ratos, suas orelhas são pontudas e suas unhas são como garras afiadas. Dessa forma, o público não se enxerga nessa figura. Ao contrário, ele a repudia, pois ela é uma coisa repulsiva e diabólica.

Em quadro em preto e branco do filme, o vampiro Nosferatu aparece com uma expressão surpresa enquanto coloca suas mãos na cabeça de uma pessoa deitada. Suas orelhas são pontiagudas, dentes são longos e finos e seus dedos e unhas compridos.

Em Nosferatu, vemos um vampiro horrendo, de andar estranho e que pisca apenas uma vez durante todo o filme. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Conversei com Yuri Garcia, professor da Estácio de Sá e doutor pela UERJ. Segundo ele, “todos os monstros e vilões estão configurando metáforas para questões nossas”. Esse primeiro vampiro surge em um momento difícil da humanidade, logo após a Primeira Guerra. Assim, ele representa a maldade inata do homem, aquilo que é obscuro e que sempre buscamos reprimir. 

No filme Drácula (1931), em que o ator Bela Lugosi interpreta aquele que viria a ser o principal estereótipo do conde, já há uma mudança perceptível. Aqui, o vampiro possui uma feição muito mais humana, porém seu lado que prevalece é o monstruoso. Seu sotaque carregado ou a ausência de reflexo no espelho, por exemplo, servem para demarcar o fato de que o vampiro não é, de maneira alguma, um ser humano. 

Conforme o tempo passa, a faceta mais animal do vampiro vai cedendo espaço à humana de maneira gradual, especialmente no que se refere à sua aparência. No Drácula de 1979 (sim, existem muitos filmes com esse nome), Frank Langella dá vida a uma criatura sensual, que se vale do seu sex appeal para morder suas vítimas. No entanto, o principal até aqui é a maldade do vampiro. Em poucas palavras, ele é um mal que deve ser extirpado a qualquer custo.

Um vampiro branco de cabelos castanhos com uma longa capa escura azulada e camisa branca se debruça sobre uma mulher branca com roupa branca. Ambos estão sobre um monte de folhas de outono.

No Drácula de 1979, o conde é sedutor e atraente, com uma fala e um olhar hipnotizante. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Quando o vampiro se humaniza

Yuri afirma que “antigamente a noção de mal era mais fácil. O cara é mau porque é mau. Não era preciso ficar justificando”. Hoje, porém, o vilão é retratado como alguém traumatizado, que não é mau por natureza. Foram as dificuldades da vida que o tornaram assim. E esse movimento do cinema também se estende para o vampiro. 

Repito que a humanização ocorreu gradualmente, porém há duas obras que marcam muito bem esse período: Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker’s Dracula, 1992) e Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire, 1994). Em ambos os casos, os vampiros são seres atormentados, que um dia já foram seres humanos comuns, mas que acabaram sendo maus devido às circunstâncias. 

Agora, o lado humano é o mais relevante. Por isso, os poderes sobrenaturais, ainda que não desapareçam, perdem importância. Pois o que está em evidência são os sentimentos que esses vampiros vivenciam. Sensações genuinamente humanas, como amor, raiva, culpa ou inveja. Louis (Brad Pitt), em Entrevista, chega até mesmo a se questionar sobre o significado da sua condição, algo que antes seria impensável para um vampiro. 

Nesse período, aquela demarcação muito clara que existia entre um vampiro e um ser humano torna-se mais borrada, a ponto de já não ser mais possível diferenciá-los com facilidade. Assim, essas criaturas têm sentimentos, questionamentos metafísicos e uma “aparência angelical”, conforme expressão da pesquisadora Maytê Regina Vieira. No entanto, a principal modificação reside no seguinte ponto: os vampiros já não são mais seres maléficos que a todo custo devem ser exterminados. Eles são criaturas quase humanas condenadas ao eterno sofrimento.

 

Nem monstro, nem humano: o vampiro agora é herói

De acordo com Yuri, “atualmente, o momento é de humanizar os monstros. Por outro lado, existe uma tendência por super-heróis. Eles tiveram um boom nos últimos vinte anos e o vampiro entra junto nisso”. É nesse âmbito que a saga Crepúsculo (Twilight) torna-se um fenômeno de bilheteria, sendo a 13ª franquia de maior arrecadação da história do cinema, com US$ 3,34 bilhões, segundo a Forbes. 

Hoje, o vampiro não é um inimigo dos homens, como também não é mais um anti-herói. Ele é superior ao ser humano comum, nos aspectos físico e moral. É belo e bom. Nesse sentido, pode-se dizer que o vampiro é quase o total oposto do que ele já foi um dia. Antes, ele era um ser transgressor, que encarnava desejos universais ocultos, como a imortalidade e uma sexualidade mais livre. Agora, no entanto, ele constitui uma metáfora para a normalidade, ao adotar a figura clássica do mocinho boa-pinta. 

Nos filmes de Crepúsculo, Edward (Robert Pattinson) e seu grupo vivem um pouco deslocados na escola em que estudam. Porém moram em uma mansão moderna e brilham quando entram em contato com a luz do sol. Não explodem ou derretem, mas brilham! Claro que esse fato não é banal, mas essa diferença não é assustadora ou asquerosa. Longe disso, já que ela é maravilhosa e nos encanta.

O personagem Edward, um homem branco com cabelos castanhos, aparece sem camisa com um forte brilho emanando de si por estar em contato com o sol.

Em Crepúsculo, Edward é um vampiro veggie, que domina seus instintos e não se alimenta de sangue humano. [Imagem: Divulgação/AdoroCinema]

No entanto há uma outra perspectiva sobre essa mudança. Pois o mundo de hoje é bem diferente daquele do início do século passado, em que a tolerância para com o diferente quase não existia. Ainda que ela não seja total, houve um avanço nessa direção. Na esteira disso, o vampiro também passa a ser mais compreendido do que julgado. Como as individualidades consideradas fora do padrão são mais aceitas, o mesmo ocorre com as peculiaridades atípicas dessas criaturas.

 

O que faz com que eles sejam onipresentes no cinema?

Como se viu, os vampiros passaram por diversas transformações ao longo do tempo. Já foram tão distintos como o Conde Orlok (Max Schreck) de Nosferatu, Blacula (William Marshall) ou Selene (Kate Beckinsale), protagonista da série Anjos da Noite (Underworld). Isso demonstra a adaptabilidade que eles possuem. Para Yuri, “uma das coisas que faz o vampiro ter essa atração muito grande é o aspecto camaleônico dele”.

O vampiro Blácula, um homem negro de cabelos e bigode castanhos escuros, veste uma capa preta e vermelha com uma camisa branca. Ele entra em um caixão preto com interior branco e com alças douradas.

Blácula é um filme muito interessante, em que o vampiro é inserido no gênero norte-americano do blaxploitation, numa típica história romântica. [Imagem: Divulgação/IMDb]

Prova disso são os filmes cômicos de vampiro, em que suas características se mantêm exatamente iguais, alterando-se apenas a narrativa. Em A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killers, 1967), o diretor Roman Polanski, conhecido por seus longas de terror, escapa um pouco desse gênero. Ele nos apresenta um vampiro meio atrapalhado e uma história que provoca mais risadas que sustos.

Um Drink no Inferno (From Dusk till Dawn, 1996) é um filme gore de vampiro, em que abundam rios de sangue. Aqui também ele se afasta um pouco da sua representação tradicional. O exagero das suas figuras é tamanho, que elas se tornam caricatas. Porém isso só atesta a sua maleabilidade, visto que, do horror, o vampiro conseguiu adaptar-se à comédia. 

Tal aspecto camaleônico foi um dos fatores responsáveis pela perpetuação da figura vampiresca no cinema, na medida em que ela se ajustou conforme as modificações do próprio público. Além disso, deve-se notar que ela possui “uma proximidade muito grande com o ser humano, com características extremamente atraentes”, conforme nota Yuri. E elas não se restringem somente à sexualidade e à imortalidade. 

O vampiro exala poder, nobreza, respeito e rebeldia. Tudo isso se funde em um conjunto que nos inspira medo e, ao mesmo tempo, fascínio. Isso porque muitas dessas coisas foram, e ainda são, inacessíveis para a maioria da população, que foi impedida até mesmo de tentar alcançá-las. Desse modo, o vampiro representa esses atributos que muitos de nós desejamos, mas não podemos possuir.  

Outro ponto importante é a presença do vampiro nas cidades. Ainda que ele possua uma relação com a sua terra natal, que originariamente se localiza em locais ermos e rurais, ela acabou sendo muitas vezes deixada de lado pelo cinema. Outros seres, como sereias e elfos, por exemplo, são associados a ambientes que estão mais longe do nosso alcance.  Já o vampiro não. Ele está perto de nós, na cidade, o que contribui para essa sensação de proximidade.

Por fim, não se pode ignorar o romantismo presente no vampiro, ainda que ele sugue um tantinho de sangue de suas pretendentes. Em quase todos os filmes vampíricos, o amor está presente de alguma forma, mesmo que de maneira mais velada. Afinal de contas, até os vampiros têm o direito de amar. E esse sentimento também nos aproxima deles, pois o amor é intrinsecamente ligado a nós. 

É por todos esses motivos que o vampiro permanece vivo nas representações cinematográficas, com uma força que poucos personagens possuem. Para se ter uma ideia, já foram feitos incríveis 1.440 filmes em que o enredo continha vampiros, de acordo com uma pesquisa feita no site do IMDb. Isso sem contar curtas-metragens ou séries. A diversidade de atores que interpretaram vampiros também é enorme, com nomes de diferentes épocas, países e estilos.  

O lançamento de Hotel Transilvânia 4 está aí para provar: por mais que um vampiro possa ser morto com uma estaca no coração, a verdade é que, no cinema e no nosso imaginário, ele é verdadeiramente imortal.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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