Home Política Observatório I Omissão dos dados de desmatamento brasileiro na COP 26
Observatório I Omissão dos dados de desmatamento brasileiro na COP 26

Participação brasileira na conferência internacional do clima é marcada por ocultação de dados que demonstram grande crescimento do desmatamento

JPRESS
30 nov 2021 | Por Maria Vitória Faria (mvitoriafaria@usp.br) e Rafael Canetti (rafaelcanetti@usp.br)

A 26ª edição da Conferência das Partes (COP), cúpula entre os líderes mundiais que ocorre anualmente desde 1994 para discutir sobre as mudanças climáticas, aconteceu em Glasgow, capital escocesa, entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro. 

Ao longo dos anos, reuniões externas e protocolos foram estabelecidos, como o Acordo de Paris, no qual, em 2015, foi-se estabelecido que os países promoveriam esforços para que a temperatura do planeta não aumentasse mais de 1,5ºC até 2030. Contudo, as regras imprescindíveis para o estabelecimento do acordo, como prazo e meios efetivos para limitar o aquecimento global, ainda não haviam sido postuladas, trazendo para a COP26 a responsabilidade de firmar o acordo entre as delegações. 

Embora a conferência tenha, após 6 anos, finalizado tal acordo, o papel do governo brasileiro continuou sendo de pária internacional segundo Bruno Araújo, MBA em gestão ambiental. Isso porque, além de ser de conhecimento mundial a postura negacionista quanto ao aquecimento global e as atitudes a favor do desmatamento, o governo de Bolsonaro omitiu, dos brasileiros e da cúpula, um importante documento produzido pelo INPE e pelo PRODES sobre a estimativa do desmatamento na Amazônia em 2021. Finalizado no dia 27 de outubro – 4 dias antes do início da conferência, o governo federal apenas o divulgou em sua página oficial após o fim da COP, no dia 18 de novembro. Ocultar dados da população se contrapõe à lei de acesso à informação.

 

desmatamento

Conteúdo compartilhado pelo geógrafo Bruno Araújo em sua página no Instagram, com o intuito de explicar à população a gravidade ambiental. [Imagem: Reprodução/Instagram/@_bruno_araujo]

 

 Além de ser a primeira vez em que tais estimativas não são apresentadas na cúpula, para Bruno, a medida foi uma conivência para evitar uma vergonha maior entre os líderes mundiais. ”Há um motivo bem claro para a omissão desses dados, que é não passar vergonha, não ter mais um elemento para a sociedade e para outros governos denunciarem o Brasil como destruidor do ambiente‘’, pontua ele. 

A postura contraditória do governo quanto aos dados que comprovam um aumento do desmatamento, também foi observada pelo vídeo enviado à conferência, em que, por um lado, Bolsonaro afirma que o governo conta com créditos e investimentos em torno de 50 bilhões de dólares para conservação e restauração da floresta, energia renovável, saneamento e agricultura de baixas emissões. Por outro lado, o Fundo Amazônia, que recebia investimentos internacionais para a conversação da floresta e combate ao desmatamento, está estagnado desde 2019 após ter sofrido sanções econômicas importantes, como o investimento da Alemanha e da Noruega no fundo, em virtude da destruição ambiental. 

Além disso, enquanto o relatório omitido pela federação aponta alta recorde de 22% do desmatamento da Amazônia entre 2020 e 2021 – o maior índice desde 2006 – o país assinou o acordo de fim do desmatamento até 2030, afirmando, inclusive, que conseguiria tal feito até 2028, dois anos antes dos outros países. 

 

desmatamento

Em documento oficial omitido pelo governo, observa-se que os níveis de desmatamento de 2021 são os maiores em 15 anos. [Imagem: Reprodução/Documento oficial/INPE/Prodes]

 

Do lado social, há uma deterioração da imagem do Brasil mundialmente. Se antes o país era referência e pioneiro em discussões ambientais, agora se transforma em uma instituição inimiga do ambiente, que não sabe nem administrar e proteger seus ecossistemas.

Para o geógrafo, a presença do Brasil na COP26 só não foi completamente desastrosa pela participação social, no qual ativistas, ambientalistas, indígenas, entre outros brasileiros, se reuniram em um stand próprio, trazendo a pauta ambiental novamente em foco, além de toda a pressão social e as diversas manifestações que ocorriam nas ruas de Glasgow, paralelas à cúpula. 

Inclusive, para evitar momentos embaraçosos como em outras cúpulas do clima, desta vez, o governo foi auxiliado por um assessoramento profissional. Bruno comenta: ‘’O Itamaraty assumiu um protagonismo maior que o Ministério do Meio Ambiente, nas negociações e nas discussões. E forçou um comportamento diferente: dias antes da conferência anunciaram um plano de crescimento verde’’.

Mesmo assim, países ainda pressionam o Brasil pela Amazônia, por motivos estratégicos e ambientais. Existe um temor nacional pela seguridade da soberania. Victor Del Vecchio, mestre em direito internacional, pontua como esse bioma carrega consigo uma biodiversidade altíssima que está sendo destruída. Logo, os países estão tentando, de alguma maneira, não só garantir a sobrevivência da Amazônia, mas eventualmente garantir a sua vantagem nessa exploração.

Embora, para Del Vecchio, as COP’s sejam importantes pela multilateralidade da discussão entre os países, fica claro que medidas efetivas são postergadas. Assim, mesmo com a preocupação ambiental se tornando cada vez mais relevante, ainda há outros países, que não querem ceder suas políticas econômicas. Nesta edição, dois deles quiseram se aproveitar de brechas linguísticas para continuar com a política industrial atual. ‘’O acordo era eliminar a utilização de carvão mineral para produção de energia, China e Índia reivindicavam que essa palavra fosse trocada, de ‘eliminação’ para ‘redução’, ou seja, enfraqueceu o acordo.’’ Diz Bruno.

 

desmatamento

Charge representando a importância do presidente Bolsonaro, após a omissão de importantes dados na COP26. [Imagem: Reprodução/Twitter/@mwcastoons]

 

Historicamente, as reuniões dos países para discutir protocolos ambientais não se concentram em pensar em alterações profundas da lógica de produção econômica mundial, mas sim em adaptar e reduzir os impactos dela. Assim, a lógica dos países continua sendo de emitir cada vez menos gases poluentes, o que pode resultar em um problema global a longo prazo. Para Araújo, isso se deve porque a COP e outras reuniões, seguem a agenda da lógica de mercado, a mesma que trouxe a situação de degradação ambiental atual.

Desde o início do governo Bolsonaro, a liberação de diversos agrotóxicos e o sucateamento das fiscalizações ambientais têm possibilitado o aumento exponencial do desmatamento. Apesar do meio ambiente ser um direito de todos, como afirma Del Vecchio, apenas entre o período de agosto de 2020 a julho de 2021, mais de 13 mil km² foram desmatados ilegalmente, dado importante que foi omitido da discussão mundial. 

Bruno afirma que, se o desmatamento seguir esses parâmetros, a floresta amazônica alcançará o ponto de não retorno, em que ela soltará mais CO2 do que consegue prender. A partir disso, o início do processo de transformação da floresta em uma savana poderá iniciar até 2030. 

Essa mudança representará uma perda inestimável de seres vivos que não conseguirão se adaptar ao novo ambiente. Ademais, a região sudeste se tornará um deserto, assim como áreas da mesma longitude, ocorrentes tanto no continente africano, como na Oceania. A Amazônia não só abriga uma grande quantidade de espécies, mas também garante chuvas, por meio da evapotranspiração, ao nordeste e ao sudeste brasileiro.

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*