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Ombudsman: Ping é para poucos
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15 set 2021 | Por Guilherme Caetano*

Assim que Jair Bolsonaro foi eleito e começou a definir seu ministério, uma das ausências nas nomeações que mais chamaram a atenção foi a do então senador Magno Malta. De tanto trabalhar como cabo eleitoral do candidato do PSL, Malta menosprezou a sua própria campanha e acabou derrotado na sua tentativa de reeleição para o Senado. Tudo levava a crer que Malta teria cadeira cativa na Esplanada, mas nem a abnegação do aliado comoveu o presidente eleito. Sem cargo, Malta isolou-se no interior do Espírito Santo, recusou contato com a imprensa e por lá permaneceu por um tempo. Em 5 de dezembro de 2018, a repórter Amanda Audi publicou no The Intercept Brasil uma entrevista com Malta, que havia encontrado num voo do Espírito Santo a Brasília e, por duas horas, teve o entrevistado ali sem escapatória. O título: “A mágoa de Magno Malta: ‘Eu achava que ia ser ministro e não fui’”.

O que motivaria uma repórter a perseguir o entrevistado pelo interior do estado e se enfiar num avião para encurralá-lo? Malta precisava ser ouvido. Além de ter sido uma das vozes mais influentes do conservadorismo no Congresso pré-eleição de Bolsonaro, de seu gabinete no Senado a então servidora Damares Alves foi alçada ao cargo de ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Então, ele se via abandonado pelo presidente. A entrevista não poderia ser em outro formato: foi publicada em pingue-pongue, ou “ping”, como chamamos nas redações.

A matéria “Polícia e favela: dois extremos?”, publicada na J.Press em 30 de julho, opta por esse formato para dar voz a quatro entrevistados anônimos, alternados de maneira aleatória — um deles, inclusive, salta para o meio do questionário (pelo que se depreende) por livre e espontânea vontade. O conjunto de decisões editoriais da entrevista traz confusão a quem lê. Se o objetivo do texto era contar sobre o temor das abordagens policiais nas favelas, por que a opção por quatro entrevistados não justificados? Por que foram especificamente esses quatro? Por que o ping? E por que o anonimato? Há na imprensa inúmeros casos de cidadãos periféricos denunciando publicamente o racismo e a arbitrariedade nas operações da polícia.

Talvez o repórter pudesse ter escolhido um desses procedimentos. A entrevista ping funciona bem para quem tem muito a dizer: geralmente especialistas, algum(a) denunciante, pessoas públicas ou celebridades, alguém que tenha uma história extraordinária a contar. Anônimos podem ser ouvidos, mas não é usual que ganhem espaço para ping na imprensa. Há jornais que convencionam até mesmo vetar aspas de anônimos. Nem todo personagem merece um ping, e quem sabe tenha sido esse o escorregão da matéria: as pessoas ouvidas deveriam ser personagens.

Há muito o que ser contado sobre a forma com que o Estado brasileira trata a população periférica, e o racismo exercido pela polícia aos moradores desses territórios é um dos maiores motivos por que talvez não tenhamos ainda alcançado o nível de uma democracia plena. Retratar essas pessoas é mais do que justo (é necessário!), e o repórter vai bem em levantar essa questão. A abordagem é que poderia ser outra.

O mais interessante do texto “O dia em que a ginástica atingiu a perfeição”, publicado no Arquibancada em 18 de julho, está muito no pé do texto: o episódio do “bug” que Nadia Comăneci causou no placar na Olimpíada de Montreal em 1976, então não configurado para compreender notas 10, é fenomenal. Essa informação é que deveria estar em cima. Na verdade, até está mencionada (“Na ocasião, o placar do ginásio mostrou um luminoso 1,00”), mas sem maiores explicações, o que deixa a passagem confusa.

É o mesmo caso de “Cartografia: o poder na rota dos mapas”, publicado no Laboratório em 14 de julho. O texto deveria começar pelo último intertítulo, onde a novidade está soterrada. Uma matéria se torna mais valiosa quando traz algo novo ou tem um bom gancho. Na falta deste último, a nova proposta de mapa-múndi citada pelo autor na matéria seria uma ótima isca para atrair o leitor ao texto fundamentado em contextualização.

“O vampiro no cinema: como ele se transformou e sobreviveu”, publicado em 17 de julho no Cinéfilos, mistura artigo de opinião, com referências em primeira pessoa, com entrevistas, o que é quase sempre um mau caminho. A matéria, no entanto, traz um bom panorama da trajetória do vampiro no cinema, cheio de exemplos que, junto das imagens, ajudam o leitor a captar as transformações desse personagem ao longo do século.

Por fim, “Mitologia nórdica e sua influência na cultura popular”, do Sala 33, de 19 de julho, é um texto bem escrito, mas oferece uma quantidade de detalhes que talvez faça leitores menos afeiçoados ao tema se sentirem desinteressados. O preenchimento do texto com tantas minúcias aponta para uma paixão do repórter que pode não ser compartilhada pelo público geral. Não é um problema grave, mas algo a ser levado em consideração pelo repórter quando se escreve sobre um tema com o qual simpatiza.

Achismo: imagem de rosto de Guilherme Caetano — autor desta coluna — em rua urbana*Guilherme Caetano é repórter de política do jornal O Globo e da revista Época. Também passou pela Folha de S.Paulo, onde foi trainee e redator. Presidiu a Jornalismo Júnior em 2015.

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