Jornalismo Júnior

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Recontar para resistir: o papel da literatura na construção de um imaginário latino-americano mais plural e insurgente

Do boom latino-americano às vozes contemporâneas que ampliam perspectivas e territórios, a literatura da região segue reinventando seu imaginário e desafiando silêncios
Autores do boom latino-americano. Ao fundo, está a imagem da América Latina Invertida.
Por Beatriz Sandoval (beatrizsandoval@usp.br)

Entre apagamentos, cicatrizes e memórias insubmissas, a literatura latino-americana emerge como território de resistência. Em um continente marcado por colonizações europeias, ditaduras, deslocamentos forçados e desigualdades históricas, contar histórias nunca foi apenas um exercício estético — é, antes de tudo, um ato político. Esquecer, muitas vezes, foi condição para seguir em frente, para sobreviver às violências impostas por fora e por dentro. Mas lembrar, na mesma medida, tornou-se ferramenta de resistência, de reconstrução da identidade e de enfrentamento às tentativas de silenciamento.

Da oralidade ancestral às narrativas contemporâneas, passando pelo realismo mágico, literatura de testemunho e insurgência das vozes marginalizadas, os livros não apenas documentam, mas reimaginam o que é ser latino-americano, a exemplo da literatura de Gabriel García Márquez e Jorge Amado. As obras ocupam um espaço onde o passado não se apaga, mas se ressignifica, e onde o futuro se desenha a partir de memórias que recusam o esquecimento.

O que se escreve na América Latina não é só literatura — é contra-arquivo, é testemunho poético e é gesto político. Se a literatura foi, por séculos, ferramenta do poder colonial — por meio da imposição de línguas, valores, estruturas —, ela também se transformou ao longo da história em arma de subversão. Escritores e escritoras vêm desmontando a linguagem hegemônica para construir outra forma de narrar: mais plural, híbrida e próxima da experiência real dos corpos e territórios que compõem o continente. 

“Nós, latino-americanos, somos sonhadores por natureza e temos problemas para diferenciar o mundo real da ficção. É por isso que temos músicos, poetas, pintores e escritores tão bons, e também governantes tão horríveis e medíocres.”

Mario Vargas Llosa, pouco antes de receber o Prêmio Nobel de Literatura em 2010

O que foi o boom-latinoamericano?

Na segunda metade do século 20, a literatura latino-americana explodiu no cenário internacional. Um grupo de escritores — majoritariamente homens, brancos e urbanos — passou a ganhar projeção global com obras que uniam experimentação formal, crítica social e um imaginário marcado pelas contradições da região. Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Jorge Amado foram alguns dos nomes que transformaram a narrativa latino-americana em referência mundial. Autoras femininas também inovaram o mundo da escrita, mas, graças ao patriarcado que permeia a sociedade até hoje, ficaram em segundo plano, como María Luisa Bombal e Rosario Castellanos.

Esse fenômeno ficou conhecido como boom latino-americano. Mais do que uma explosão de vendas ou de fama repentina, o boom representou um momento de visibilidade e valorização cultural. O sucesso, porém, não foi imediato nem isento de tensões — muitos autores enfrentaram dificuldades financeiras e nem sempre eram levados a sério nos centros culturais de maior renome.

A Revolução Cubana de 1959 teve um papel fundamental nesse processo. O clima de efervescência política levou muitos autores a enxergarem a literatura como instrumento de transformação social. Inspirados pelo existencialismo, com as ideias de Jean-Paul Sartre em sua obra Que é a Literatura? (Editora Vozes, 2015), vários escritores passaram a se alinhar com os ideais revolucionários, sem, no entanto, adotar uma estética dogmática. 

Autores do chamado Boom latino-americano.
Os autores da imagem acima (da esquerda para a direita) — Jorge Amado, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, María Luisa Bombal e Julio Cortázar — são figuras centrais do boom latino-americano  [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

A relação entre os escritores do boom e a Revolução Cubana foi uma “via de mão dupla”. Cuba se beneficiava do prestígio dos autores para legitimar seu projeto político, ao mesmo tempo em que oferecia visibilidade para uma literatura marginalizada. Nesse contexto, a ilha funcionava como uma ponte cultural que não obedecia às regras do capitalismo editorial — e isso, por um tempo, funcionou.

No início do boom, aproximadamente nos anos 1960, predominava um tom existencialista: personagens desiludidas, narrativas diretas e um realismo seco. Com o tempo, os textos ganharam mais liberdade formal, a linguagem se aproximou da fala cotidiana e a estrutura das obras ficou mais fragmentada, o que exigia um leitor mais atento e ativo. Ao final do período, os próprios autores passaram a refletir sobre a escrita e produziram obras metalinguísticas, com questionamentos sobre os limites entre ficção e realidade.

Os autores desse movimento se viam como uma geração órfã. Admiravam escritores europeus como Joyce, Proust e Sartre, mas sentiam a necessidade de construir uma voz própria, hispano-americana. Rejeitaram as narrativas rurais, típicas de correntes anteriores como o indianismo ou o criollismo literário, e buscaram temáticas urbanas, modernas, sem abrir mão da especificidade cultural do continente.

O realismo mágico e o sucesso de ‘Cem Anos de Solidão’

Apesar da politização com viés socialista e influenciada por pensadores russos, sua estética e estrutura textual não foi importada junto com a ideologia, uma vez que os participantes rejeitaram o realismo socialista soviético e abraçaram o que ficou conhecido como realismo mágico — uma fusão entre o cotidiano e o fantástico que se tornaria marca da literatura do período.

Essa corrente, também chamada de realismo fantástico, introduz fatos, seres ou fenômenos mágicos ou sobrenaturais na narrativa de forma natural e integrada à realidade. Ao mesmo tempo, o cenário e os personagens são apresentados de forma realista, com detalhes cotidianos, que não apresentam quaisquer estranhamentos com os elementos oníricos. 

Essa corrente literária foi, para muitos, a linguagem ideal para traduzir a alma contraditória da América Latina — uma localidade onde o absurdo e o extraordinário convivem com o mais duro dos cotidianos, criando uma narrativa híbrida que espelhava a complexidade histórica, política e cultural da região. Mais do que uma escolha estilística, foi uma forma de afirmar que o impossível é parte da realidade, ainda mais em tempos de repressão cultural como as ondas de ditaduras da época.

Ao inserir o fantástico no tecido do dia a dia, essa literatura devolveu ao povo latino-americano uma forma de ver o mundo que não dependia da lógica europeia ou dos modelos importados. Nascia, assim, uma escrita que pulsava com as crenças populares, os mitos ancestrais, os fantasmas da história e os traumas das ditaduras, da colonização e das desigualdades que atravessam o continente como cicatrizes abertas.

Capas de obras de Gabriel García Márquez.
A obra de García Marquéz foi traduzida para mais de 35 idiomas e vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo.  [Imagem: Reprodução/Achados & Lidos]

Cem Anos de Solidão (Editora Sabiá, 1968) foi o best-seller do realismo mágico, escrito pelo colombiano Gabriel García Marquéz e publicado em 1967. Na fictícia Macondo  — palco da narrativa  — o autor traça quase como um perfil da América Latina, ao contar a história que passa por cem anos da família Buendía. As guerras se repetiam como estações, os mortos cochichavam aos vivos, e o esquecimento era uma doença tão concreta quanto uma praga de formigas. Com sua prosa hipnótica, o também chamado Gabo ergueu um universo em que o real e o mágico não se opõem, mas coexistem — como coexistem o riso e a dor, o amor e a perda, a festa e o luto na história da América Latina.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”

 Gabriel García Marquéz em Cem Anos de Solidão

Vários pontos da obra são fáceis de se reconhecer como latino-americano — não apenas pelos cenários tropicais, pelas crenças populares ou pela atmosfera de povoado interiorano, mas pela própria lógica da narrativa, onde o tempo é circular, a história é feita de repetições, e o esquecimento paira como ameaça constante. Em Cem Anos de Solidão, a solidão não é apenas da família Buendía: é de um continente que parece condenado a reviver seus próprios erros, a oscilar entre promessas revolucionárias e frustrações históricas.

As ditaduras militares, os conflitos armados, os messianismos políticos, a violência cotidiana, o machismo estrutural e a religiosidade popular aparecem em Macondo, que se configura como um espelho alegórico da América Latina. Ao longo da narrativa, estão presentes amores proibidos, crianças com cauda de porco, ascensões aos céus em lençóis brancos e chuvas que duram anos — e nada disso causa espanto aos personagens, pois o extraordinário é parte do cotidiano.

Apesar de Cem Anos de Solidão oferecer um retrato simbólico da América Latina, talvez o que mais permaneça nos leitores não seja apenas a crítica social ou a densidade histórica da obra, mas sua capacidade de gerar afeto, memória e pertencimento. O impacto do livro ultrapassa a análise política ou literária e alcança um território íntimo e sensível, no qual a experiência de leitura se entrelaça com a biografia de cada leitor. Ao mergulhar em Macondo, quem lê sente a história coletiva do continente e as narrativas  individuais — dos próprios esquecimentos, repetições, fantasmas e afetos.

“Podemos ler mais de uma história dentro do mesmo livro e o sentimento de apropriação faz com que tenhamos essa autorização” é o que reforça Tainá Toscani, arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e leitora apaixonada por Cem Anos de Solidão. O livro marcou tanto sua trajetória pessoal que acabou se tornando tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC): “Do amanhecer até alta noite: as mulheres em ‘Cem Anos de Solidão”.

A escolha de Tainá em abordar Cem Anos de Solidão sob uma perspectiva sensível e arquitetônica demonstra como a obra transcende as fronteiras da literatura. Ela vira ponte com outras linguagens, disciplinas e formas de sentir. “No fim, para mim, Cem Anos de Solidão é sobre a Úrsula (personagem central da narrativa e que conecta a família Buendía). É ela que vive até passar dos cem anos. Ela está em todos os lugares, do amanhecer até a alta noite”, afirma. Ao falar de seu processo criativo, conclui: “Como se eu pudesse construir, com imagens, um pedaço de Macondo dentro de mim.”

Obras do TCC de Tainá. É possível ver uma imagem de santa vermelha em uma caixa bordada.
 O TCC produzido por Tainá “é uma tradução intersemiótica, da palavra para a imagem, baseada no livro”, em uma releitura que representa em caixas cênicas as mulheres que percorrem a narrativa de Gabo [Imagem: Arquivo Pessoal/Tainá Toscani]

A história também ganhou uma adaptação pela Netflix em 2024, dirigida pelos colombianos Laura Mora Ortega e Carlos Moreno. A escolha não surpreende: as temáticas de Cem Anos de Solidão continuam atuais, porque, assim como em Macondo, a história — marcada por ciclos de poder, violência e esquecimento — insiste em se repetir.

Como manter viva a valorização da literatura latino-americana?

A literatura, e, consequentemente, os livros, tornaram-se um espaço de poder assim como qualquer outro produto do mercado capitalista. Com um mercado editorial cada vez mais pressionado por lógicas comerciais e pelo domínio de grupos estrangeiros, editoras independentes têm desempenhado um papel essencial na valorização e pluralização da literatura latino-americana. São elas que apostam em vozes novas e insurgentes, muitas vezes invisibilizadas pelo mainstream, ou seja, dominante, — e que resistem ao apagamento não só pela palavra escrita, mas também pela construção de catálogos comprometidos com o presente, a diversidade e a memória coletiva.

Esse é o caso da Editora Nós, fundada por Simone Paulino, jornalista, escritora, editora e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, que enxerga o livro como uma ferramenta de intervenção cultural e política. “Quando você cria uma editora, você quer, de alguma maneira, fazer uma intervenção, […] e uma das formas de fortalecer a democracia é fortalecer a linguagem e a cultura do país”, afirma. 

Já no slogan da editora, Simone faz uma brincadeira: “Editora Nós, uma editora plural”. Além de se referir ao pronome, também representa sua missão, uma editora com a ideia de ser uma construção coletiva, desde a escolha de quais livros serão publicados até o processo de lançamento. “Quando você se torna consumidor, você quer consumir aquilo que fala também da sua identidade. Quer se reconhecer no que está sendo consumido”, e é essa dimensão afetiva, de espelhamento simbólico, que fortalece a literatura como um instrumento de construção identitária.

A Editora Nós completa 10 anos em 2025 e já lançou diversos autores prestigiados como Aline Bei e Mariana Salomão Carrara  [Imagem: Reprodução/Instagram:@simonepaulino]

A América Latina é uma região que sempre teve sua história contada pelos outros, com as nações submissas economicamente e até culturalmente ao exterior, de forma que reconhecer-se no que se lê é mais do que conforto — é reparação. A literatura, quando feita por mãos que partilham da mesma história, do mesmo idioma fraturado, das mesmas dores e resistências, torna-se um espelho potente e fortalece a soberania de uma nação. 

A demanda atual por histórias que representam nossa sociedade cresceu nos últimos anos, principalmente no Brasil com o sucesso de autores negros e de narrativas ancoradas em realidades socialmente complexas, como O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020) de Jeferson Tenório, Torto Arado (Editora Todavia, 2019) de Itamar Vieira Júnior e Olhos D´Água (Pallas Editora, 2014) de Conceição Evaristo — best-sellers mundialmente reconhecidos. 

Simone destaca que essa demanda por representatividade literária não nasceu do acaso ou da boa vontade do mercado, mas de um processo histórico e de demanda: “Hoje as editoras publicam muito mais livros como estes [de autorias negras, indígenas, LGBTQIA+, femininas]”. Para ela, mais investimentos em educação, na leitura e no consumo de livros produzem mais escritores: “E mais que escrever, eles também formam um mercado consumidor”. 

Esse novo público leitor quer se ver nas páginas, nos enredos e nas personagens. Não deseja apenas ler histórias, mas se inscrever nelas — com seus traços, vozes, ritmos e contradições. Assim a literatura ganha fôlego, como um gesto insurgente: ao recusar a homogeneização cultural, acolher o diverso e romper com o que a editora chama de “colonização editorial”.

“Publicar literatura brasileira e latino-americana, é um gesto político hoje”

Simone Paulino

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