Por Débora van Pütten (deboravp@usp.br)
Reinaldo José Lopes é jornalista, formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo(ECA-USP). Sua atuação tem ênfase na área de jornalismo científico: foi editor de Ciência e Saúde na Folha de S.Paulo e, hoje, escreve como colunista e blogueiro para o mesmo veículo. Também é autor de dez livros, todos sobre questões científicas.
Laboratório: O que te fez começar a trabalhar com jornalismo científico e, mais do que isso, o que te faz continuar nessa área?
Reinaldo José Lopes: O começo foi uma mistura de sorte com interesse. Quando comecei a pensar em um curso universitário, estava muito em dúvida e pensei tanto em jornalismo quanto em biologia. Eu prestei os dois, prestei medicina também. Medicina eu não passei, mas passei em biologia e em jornalismo. Acabei indo fazer jornalismo, em parte por achar que, do ponto de vista profissional e financeiro, ia ser um pouco mais tranquilo que, parando pra pensar hoje, foi bem ingênuo, mas é aquelas coisas que adolescente faz.
Só que eu mantive, durante o curso de jornalismo, o interesse na área de ciência, continuei lendo sobre o tema, livros de divulgação como os do Carl Sagan, Richard Dawkins e outros. Ao mesmo tempo, sem me encontrar muito no jornalismo… Cheguei aos últimos anos de faculdade sem saber direito o que eu ia fazer, não via nenhuma área de jornalismo em que eu pudesse me encaixar.
Na primeira semana já falei: “Nossa, é isso.
Como é que eu não percebi o quão legal seria fazer jornalismo científico?”
Reinaldo José Lopes, jornalista Científico
Quando tentei, por exemplo, o treinamento da Folha, cheguei até a última fase, mas não fui aprovado. Só que quem chegava nessa última etapa, eles começavam a chamar para cobrir férias na Folha. Então, apareceu uma vaga justamente na editoria de Ciência. Eu fiz a seleção e fui aprovado para ficar um mês cobrindo férias.
Na primeira semana já falei: “Nossa, é isso. Como é que eu não percebi o quão legal seria fazer jornalismo científico?” Então, foi meio paixão à primeira vista e acho que se manteve assim. A sensação de encantamento que eu tive naquela primeira semana nunca foi embora. Por isso, eu continuei na área.
Laboratório: Quais foram as suas referências no jornalismo científico enquanto você aprendia a profissão?
Reinaldo: A minha sorte, vai parecer ‘puxação de saco’ para Folha, mas é verdade, foi estar em um lugar que tinha (e ainda tem ) uma escola muito forte disso [jornalismo científico]. Havia duas pessoas muito gabaritadas: o Marcelo Leite, que ainda está no jornal e que, na época, era um cara que cobria muito biologia molecular (era o auge do Projeto Genoma), e o Claudio Ângelo, que trabalhava em diversas áreas que acabaram virando as minhas também, como arqueologia, evolução e paleontologia.
O Marcelo passou para nós a necessidade do rigor da informação, não só ao entrevistar as pessoas, mas de você conhecer a fundo o que está cobrindo sempre, e de não se deixar levar pelo lado mais chamativo. Tudo bem fazer coisas que parecem legais, mas é fundamental não buscar apenas esse lado do espetáculo, que muitas vezes acaba sendo privilegiado na área. Ambos valorizam a qualidade do texto também: pensar bem no lead; pensar em como conduzir o leitor para que ele compreendesse o tema, sem subestimá-lo, mas, ao mesmo tempo, sem pressupor que ele saiba sobre o assunto.
Uma pessoa que tinha começado um pouco antes de mim e que virou um colega e um grande amigo, é o Salvador Nogueira, que dava muita ênfase na diversão [do texto] também, para fazer algo que fosse capaz de, não apenas de explicar o tema, mas também de prender a atenção do público o tempo todo. Eu era leitor da Superinteressante durante o Ensino Fundamental e Médio, cuja linguagem teve bastante influência sobre mim. Apesar disso, com o tempo, desenvolvemos algumas críticas em relação à espetacularização que a revista adotou.
Fora do Brasil, além de livros de divulgação, alguns cientistas clássicos (que também foram escritores e divulgadores) também foram referência, como Carl Sagan, o Richard Dawkins, o Stephen Jay Gould. No jornalismo, uma referência que ainda escreve para o New York Times e para outros veículos, é o Carl Zimmer, que também fala muito sobre evolução, uma área que me interessava, até pelo lado da biologia.
Laboratório: Sua jornada acadêmica envolveu pesquisas relacionadas à área de tradução de textos, com foco maior em Tolkien. De que forma essa escolha de tema e área se relaciona com sua trajetória no jornalismo científico?
Reinaldo: Acho que, de certa maneira, eles se relacionam sim. Curiosamente, o Tolkien entrou na minha vida depois da ciência. Foi na adolescência que aprendi a ser cientista, com interesse principalmente em biologia, zoologia e biodiversidade. Já o Tolkien eu fui ler no segundo ano de faculdade. Acho que o Tolkien, a literatura de fantasia como um todo, ficção científica também, têm muito essa coisa de você imaginar cenários, de fazer experimentos mentais para tentar imaginar o que poderia ser um mundo alternativo ou outra maneira de enxergar o próprio mundo. Creio que isso tem muito a ver com o raciocínio científico, com o método científico, de certa maneira. Formular hipóteses está muito ligado à imaginação. Nesse sentido, as coisas caminham bastante juntas.
Laboratório: O senhor é autor de 10 livros. Qual deles foi o seu favorito para escrever e por qual razão?
Reinaldo: Vai ser aquela escolha completamente enviesada, mas acredito que o primeiro é o que fiz com maior facilidade — o momento da minha vida também estava mais tranquilo — e o que fez mais sucesso, foi o 1499: O Brasil Antes de Cabral, sobre a história do Brasil. Nossa, eu escrevi esse livro em seis meses e é o que vendeu mais até hoje: 50 mil exemplares. É uma área que realmente adoro.
Eu já cobria, em parte, fazia muito tempo, mas com um foco muito restrito… Fazia muita matéria sobre o primeiro povoamento da América. Todo o resto da pré-história brasileira eu não conseguia olhar com calma. Com esse livro, consegui fazer isso, escrever com certa facilidade, e deu tudo certo. Até hoje, as pessoas gostam do livro e falam dele. Não havia muita coisa para o público em geral, apenas algumas produções feitas por arqueólogos, mas eram coisas muito curtas ou muito acadêmicas, então, ele achou um nicho legal. Eu gostaria de fazer uma segunda edição, alguns spin-offs, algumas coisas de ficção baseadas no mesmo cenário, algum dia.
Laboratório: O senhor já participou de inúmeros congressos científicos, que abrangem temas desde genética até paleontologia de vertebrados. A escolha dos eventos nos quais você ia ou ainda vai tem relação com os temas que você mais gosta de escrever?
Reinaldo: Normalmente sim. Foi bom que você usou o verbo “ia”, porque faz tempo que eu não vou. Preciso voltar a ir com mais frequência, porque é realmente um ambiente mais rico. Acabamos focando na cobertura de publicações muito específicas (baixar o PDF do artigo, ler, entrevistar). É uma atividade um pouco estéril e um pouco repetitiva.
Ir nos eventos e conversar com as pessoas cara a cara, ver as apresentações,
as reações dos cientistas enquanto apresentam um trabalho,
tudo isso é essencial para entender como a ciência funciona.
Reinaldo José Lopes, jornalista científico
Em algumas ocasiões, você vai porque o chefe mandou, mas muitas vezes é porque se trata de um tema que você vai se especializando. Creio que a área em que mais participei foi a dos congressos de genética, que são sempre muito legais. Eu costumava ir até Águas de Lindóia, um lugar bonito e os hotéis oferecem uma comida muito boa, então, todo conjunto favorece. Acabo não indo somente em eventos sobre temas que mais me interessam, também tem as vezes em que sou convidado pra dar alguma palestra ou integrar mesa redonda.
Laboratório: Como é trabalhar com jornalismo científico dentro de um jornal diário e mais tradicional? Como você acha que o público consumidor desse jornal recebe notícias científicas?
Reinaldo: Eu tive um pouco de experiência com diversos formatos, porque também trabalhei no G1, em revistas, como a Scientific American. Acho que, nos últimos dez anos, deixou de ser uma coisa específica do jornalismo diário para ser uma coisa muito próxima do jornalismo online. No fundo, estamos produzindo, em primeiro lugar, para a internet. E o jornalismo diário virou uma coisa para esse público mais nichado que ainda consome o jornal impresso.
Em relação ao público, que acho que você mais perguntou, a vantagem de ser para a Folha, por exemplo, é que se trata de um público, em geral, mais qualificado. Afinal, é composto majoritariamente por assinantes. O que é diferente de escrever, por exemplo, pro G1, que é para todo mundo. Nesse caso, o ruído do leitor que não entendeu nada, ou que acessa apenas para provocar, mesmo que não tenha nada a ver, é mais frequente. Pensando no perfil dos leitores, eu acho que você tem uma chance de um diálogo um pouco mais qualificado com as pessoas. É raro que os repórteres se dediquem a isso, porque, às vezes, é uma luta perdida. Mas, no meu caso, eu gosto de interagir, se as pessoas fazem perguntas ou têm dúvidas, costumo responder. É um diálogo que atinge as pessoas de uma maneira um pouco mais positiva do que se fosse num meio para um público muito amplo.
Laboratório: Aproveitando que o senhor mencionou sua experiência em revistas, queria saber se há diferenças na forma como esse tipo de veículo aborda o jornalismo científico em comparação com os jornais?
Reinaldo: No fundo, acredito que o meio online acabou esmaecendo um pouco as fronteiras entre os formatos, tornando-as mais imprecisas. Mas, pensando em jornal impresso e revista impressa é possível observar algumas diferenças. A revista — depende do público que ela tem — traz uma possibilidade de abordar com mais profundidade os temas. Então, é muito interessante o fato de permitirem não falar só de um estudo único que acabou de sair na Science ou na Nature, mas também tentar dar um panorama mais amplo de um tema que está está criando um debate mais amplo, mais qualificado. Depende também da linha editorial da revista. Na Superinteressante, por exemplo, você tende a pegar coisas que são um pouco mais pop. Enquanto isso, na Scientifc American, tem essa coisa mais sisuda e aí você faz quase um artigo de revisão voltado para um público não especializado. São diferentes possibilidades que a linha editorial da revista te permite explorar.
Laboratório: Quais são as diferenças e as semelhanças entre os trabalhos do divulgador científico e do jornalista científico?
Reinaldo: Isso é um eterno dilema. De maneira geral, eu concordo que são diferentes, mesmo que haja uma sobreposição grande. O jornalista tem o básico que é trabalhar com notícia. Ou seja, tratar a ciência como um todo, mas de algo que é novo, que é fronteira, que está sob debate naquele momento ou que está influenciando, por exemplo, políticas públicas naquele momento. O divulgador também pode exercer esse papel, mas não em todos os casos. Agora, o principal foco do jornalista é esse olhar crítico, ele deve ter uma visão distanciada, não apenas ser o cheerleader da ciência, mas também ser o watchdog, ser o cara que está ali para falar das mazelas, das sacanagens, das coisas que têm problemas e como lidar com isso. Essa visão crítica que o jornalismo tem sobre os vários aspectos da sociedade vale para uma cobertura de ciência também, na prática do divulgador ela nem sempre é necessária.
Laboratório: E qual a importância do jornalismo científico diante da desinformação e das fake news?
Reinaldo: Primeiro, a gente tem uma parcela cada vez maior de pessoas que não consomem informação a partir do jornalismo, isso já tira demais o peso que o jornalismo teve algum dia e acho que não tem muita volta. É difícil que a gente consiga estabilizar esse cenário, talvez, ou diminuir um pouco o recuo do jornalismo, mas voltar ao que era não acontecerá. O importante é trabalharmos com informação qualificada e com combate à desinformação. Porém, o que fazemos hoje, no fundo, é enxugar gelo. Porque, hoje, o que está por trás da desinformação não tem a ver com debate público, mas com interesses… São questões algorítmicas que têm relação, inclusive, com psicologia social e que estão interferindo nos mecanismos que mostram como essa psicologia não funciona plenamente. Enquanto não houver regulação focada nestes mecanismos, o jornalismo vai ajudar, mas não vai, nem de longe, resolver o problema.
É bom ter na cabeça que nosso papel não é nem de longe
tão preponderante quanto poderia ser ou quanto já foi.
Reinaldo José Lopes, jornalista Científico
Laboratório: Como foi ser jornalista de ciência durante a pandemia de Covid-19?
Reinaldo: Tive uma sensação de impotência. Lógico que não chega perto da experiência de quem era profissional de saúde e estava na linha de frente, eu não consigo imaginar como foi a vida dessas pessoas. Tive essa discussão até com a Atila [Iamarino], que é meu amigo pessoal: uma coisa é o negacionismo da mudança climática, porque envolve processos mais lentos e menos visíveis e, portanto, mais fáceis de negar, por serem menos diretos. Mas, quando é uma pandemia, com pessoas morrendo, não dá mais pra negar. Mas percebemos que absolutamente qualquer aspecto da realidade pode ser distorcido por esse tipo de processo. Nós, como sociedade, não aprendemos basicamente nada. É muito angustiante. O processo de controlar essa angústia não foi muito fácil e continua não sendo.
Laboratório: O jornalismo científico, diferentemente de outras editorias, parece permitir o uso de uma linguagem mais “fora da caixinha”. Isso é um recurso interessante para chamar a atenção do leitor?
Reinaldo: A minha eterna preocupação, e acho que dos colegas que querem fazer um trabalho de qualidade, é o tempo todo achar maneiras de sair das grades da “caixinha”. Aprende-se bem as regras [de como fazer um bom texto] para poder quebrá-las no momento certo O uso da linguagem é importante até para se diferenciar, falando de coisas apocalípticas de novo, toda essa onda da inteligência artificial. Quanto menos a gente escrever como robô, melhor. É lógico que, às vezes, a gente erra. Algumas pessoas vão achar que a gente fez alguma coisa muito legal, e outras vão achar que não faz sentido. Em muitas situações, quando vou olhar as avaliações do livro encontro: “muita piada de tiozão”, “muita gracinha desnecessária”, “subestimou a minha inteligência com essas piadas”. Então, não sei, mas acho que é o tipo de risco que precisa ser corrido.
Laboratório: Na sua opinião, qual deve ser a postura do jornalismo científico diante do avanço da IA?
Reinaldo: Do jornalismo científico como um todo, não sei se me arriscaria a dizer. A postura do Reinaldo é a seguinte, vai parecer muito radical: na graphic novel do Batman O Cavaleiro das Trevas, há uma cena em que o Batman pega um revólver que os caras estavam usando, quebra o revólver e fala “Essa é a arma do inimigo, nós não a usamos”. Sinceramente, não a IA como um todo, talvez, mas modelos de linguagem, como o chatGPT, pra mim isso são a arma do inimigo. A linguagem é um privilégio dos seres humanos e tem que continuar a ser. Além do impacto ambiental gigantesco e do tipo de empresa.
Laboratório: Alguma dica para quem começou a navegar pelo universo do jornalismo científico recentemente?
Reinaldo: Isso é muito complicado. A grande dica é apostar na profundidade. Não tenha medo da profundidade, de entender os assuntos que você quer cobrir a fundo, pelo menos conceitualmente, que um cientista de ponta naquela área teria, porque só assim você vai conseguir fazer algo de excelência. Acho que não tem outro caminho. Junto com isso, recomendo a leitura de ficção. Leia ficção de todos os tipos, em especial fantasia e ficção científica. A leitura de qualquer tipo de ficção é muito boa, porque só assim o ser humano aprende a contar histórias.
* Imagem de capa: Sturm/Wikimedia Commons
