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Palestra discute sobre comunicação e direito à informação na era da inteligência artificial 

A Escola de Comunicações e Artes da USP recebeu a pesquisadora e jornalista Carme Colomina para debater sobre o assunto
Por Júlia Sardinha (jusardinha.eca@usp.br)

O jornalismo é uma apaixonante batalha para conquistar corações e mentes, segundo o jornalista brasileiro Clovis Rossi. Trabalho que, hoje, enfrenta incertezas em meio aos rápidos avanços da tecnologia. Para debater o assunto, o Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da USP, em parceria com a Jornalismo Júnior e com a União Europeia, realizou a palestra “Inteligência Artificial e Comunicação: o direito à informação na era da desinformação”. O encontro ocorreu no mês de de abril, no auditório Freitas Nobre do departamento.

O evento foi ministrado por Carme Colomina, jornalista e pesquisadora sênior do Barcelona Center for International Affairs (Centro de Relações Internacionais de Barcelona), especializada nas áreas da desinformação e da política global. Por pouco mais de uma hora, ela falou sobre a importância do jornalismo no cenário global vigente, discutiu sobre a garantia do direito à informação e analisou o futuro da área frente a presença da inteligência artificial. A mediação foi feita pelos professores Vitor Blotta, Luciano Guimarães e Rodrigo Ratier.

Uma sociedade democrática é uma sociedade informada

Em entrevista com Carme Colomina, a jornalista aponta as exigências de um governo democrático apresentar não somente uma pluralidade de cidadãos, mas também de opiniões. Os limites dessa expressividade também foram discutidos por ela durante o evento. Segundo a pesquisadora, a influência política sobre os meios de comunicação públicos originou uma “cultura degradada da liberdade de expressão”, onde há uma tentativa de controlar conteúdos considerados desalinhados com os governos em voga. 

“Aquele que crê ser um grande defensor da liberdade de expressão, acaba por ferir a liberdade individual de outro.”

Carme Colomina

Segundo a jornalista, as incertezas e as desconfianças dão espaço para a proliferação da desinformação. “O desacordo entre os posicionamentos pessoais e coletivos reforça a necessidade de saber em quem confiar e de quem recebemos a informação”, afirma. 

Em entrevista, Colomina diz que existem “infinitas táticas para a disseminação da desinformação já que ela [a desinformação] está fundamentada em comportamentos”. As inverdades são criadas a partir de interesses de uma pessoa ou de um grupo para moldar o pensamento ou os hábitos de terceiros. Assim, uma mensagem falsa pode levar a um embate entre oposição e consentimento, tendo a chance de mudar o futuro de um país, explica.

Nessa proliferação de informações duvidosas, a prática democrática perde credibilidade e a incipiência política cresce por meio das “muitas maneiras de distorcer a informação”, conclui a pesquisadora.

Carme Colomina discute sobre a necessidade das grandes plataformas precisarem ser mais transparentes com os seus usuários. Foto: Júlia Sardinha

Um vislumbre de imediatez

Quanto à presença da inteligência artificial no cotidiano, Carme Colomina declara ser “o fim do ‘ver para crer’”. A nova ditadora da imediatez, a IA, instaura uma ilusão do conhecimento, uma vez que o processo na formação de opiniões torna-se vulnerável.

Há um retrocesso do pensamento crítico de uma sociedade que, nas palavras de Colomina, “possui a sensação de que sabe muito, porque recebe muito”. Nessa intensa exposição à internet apontada pela pesquisadora, países como China, Índia e Brasil buscam meios de regulamentação dessa tecnologia. Algumas regiões, como a própria UE, já deram início a projetos legislativos. 

Em março deste ano, uma lei referente à transparência de algoritmos nas plataformas midiáticas foi aprovada pelo bloco europeu. O inédito regulamento também passa a valer em território brasileiro, sendo importante no estabelecimento de limitações contra a propagação de notícias falsas, por exemplo. A jornalista e pesquisadora ainda relatou que a comissão europeia debate sobre a insuficiente transparência dos algoritmos e das redes midiáticas mesmo após a promulgação do projeto de lei.

Carme ressalta os possíveis benefícios da IA para a atividade jornalística. “A inteligência artificial é uma ferramenta para o jornalista e não um substituto”, o que promove, segundo ela, um maior empoderamento do profissional. Para Colomina, a IA não é capaz de mimetizar a humanidade que os jornalistas exprimem ao produzirem a notícia com outros seres humanos e, essa sensibilidade informativa, os coloca à frente e ainda mais necessários do que as ferramentas tecnológicas.

“Há uma discussão ética sobre o que será notícia. Eles [os jornalistas] pensam na sociedade, no que é importante de ser explicado. Então tem um ponto de vista ético relacionado a um interesse social. E se você traz todas essas discussões para um algoritmo, isso muda completamente a forma da atividade jornalística.”

Carme Colomina

A pesquisadora também alerta sobre os malefícios que a IA pode gerar ao exercício comunicacional, em destaque quanto à instância de interesses sobre as notícias. “Os jornalistas seriam limitados a informar apenas o que o público gostaria de ler, fomentando mais leitores incapazes de diferenciar o que é ou não a verdade”, completa 

A responsabilidade de informar

A restauração da qualidade jornalística foi defendida por Carme Colomina. Foto: Júlia Sardinha

No fim da palestra, Carme falou sobre o jornalismo e a função social por ele carregada. De acordo com ela, a profissão antes detinha um certo monopólio sobre o fato e o real. Essa influência, também já denominada como o Quarto Poder, permitia as pessoas se autogovernarem, até a chegada dos adventos tecnológicos na comunicação.

A missão atual do ramo é lidar com a tenuidade entre a opinião e a informação. Com o acesso aos meios de midiatização, os jornalistas podem trabalhar com pessoas diversas e contarem uma verdade de várias formas e, por isso, é preciso ter consciência sobre qual é o fato noticioso e como ele está sendo levado ao seu público.

“Uma vez jornalista, sempre jornalista. Para mim, o jornalismo tem uma função que nenhum algoritmo é capaz de suprir.”

Carme Colomina

Apesar da profissão já estar “acostumada” à grandes mudanças, a introdução da IA trará novos desafios. E para lidar com a automatização, Carme alerta para que os jornalistas não se esqueçam do seu papel de informante da sociedade, primordialmente por serem os detentores da defesa dos direitos à informação e do exercício democrático.

*Imagem de capa: Júlia Sardinha

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