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Resenha | ‘A Redoma de Vidro’: o apodrecer dos figos na vida de uma jovem com depressão

Romance de Sylvia Plath narra o declínio mental de uma vítima da depressão
Por Livia Bortoletto (liviafb@usp.br)
*Essa resenha contém spoilers e conteúdo que pode ser sensível para alguns leitores, como menções a suicídio.

Lançado em 1963, A Redoma de Vidro (Biblioteca Azul, 2019) é o único romance da escritora e poeta estadunidense Sylvia Plath, a qual, hoje, 27 de outubro, completaria 93 anos. O livro narra a história de Esther Greenwood, uma brilhante jovem de 19 anos que sai dos subúrbios de Boston depois de uma rica escritora, Philomena Guinea, lhe conceder uma bolsa de estudos para uma renomada universidade em Nova York. Ela também ingressa em um estágio de verão na Ladies’Day, revista prestigiosa de moda.  

Por meio da escrita poética de Sylvia, é narrada de forma extremamente sutil a derrocada de Esther à depressão – a personagem silenciosa do livro. É um retrato real de como uma pessoa pode adoecer mentalmente sem nenhum motivo em particular.

A junção da narração em primeira pessoa com o formato de fluxo de consciência permite que o leitor mergulhe na mente de Esther e, talvez, até se identifique com ela em alguns momentos. Isso é intensificado pelo fato de que a jovem é uma personagem cativante, pois é sarcástica e tem sacadas engraçadas em diversas passagens. Esse é um dos motivos pelos quais o livro vai do descontraído ao sufocante de forma sutil, sem que o leitor perceba de imediato o que está acontecendo com a protagonista. É uma narrativa envolvente e fluida, na qual a atmosfera sombria e triste da depressão se consolida aos poucos.

O declínio de Esther começa enquanto ela estava em Nova York, estagiando na revista. Ela morava em um hotel feminino junto com as demais garotas que trabalhavam na Ladies’Day. A vida de Esther na cidade grande era repleta de glamour, roupas elegantes, drinks e festas promovidas pela empresa. Apesar desse cenário positivo desenhado na vida da jovem, ela não conseguia usufruir porque a dúvida, o medo e o vazio progressivamente tomavam a sua mente.

Esther sentia medo de não ser boa em nenhuma área e receava a tomada de decisões em relação à sua vida. Nada mais lhe interessava como antes: nem as amizades, nem a faculdade e nem o namorado. Para ela, todas essas relações eram sufocantes. Ela se sentia deslocada no mundo social e perdida no âmbito acadêmico. A jovem se questionava constantemente qual caminho tomaria em seu futuro: deveria seguir o seu sonho de ser escritora, ou dar prioridade a um bom casamento e à formação de uma família? 

Sylvia, com sua capacidade de tecer em palavras os sentimentos — por meio de metáforas e analogias poéticas —, descreveu as incertezas que circundavam a mente de Esther: 

“Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. […] Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria.”

Sylvia Plath

Era crescente na jovem o sentimento de vazio, e ela não enxergava mais sentido em sua vida. Essa sensação de “não se encaixar” na sociedade é um reflexo do capitalismo que se consolidava nos anos 1950. O sistema incutia – e incute até hoje – nas pessoas a ideia de que todos devem ter um propósito para suas vidas, o qual deve ser seguido ao longo de sua trajetória a fim de se atingir o sucesso.

Outra questão que afligia Esther era a pressão social exercida sobre as mulheres nos anos 1950. A jovem se rebela contra a ideia onipresente de que o papel da mulher na sociedade é ser uma mãe e esposa submissa. O desejo dela era conquistar independência e sucesso na carreira de escritora, e temia ser controlada por um homem. 

Também se revolta contra a ideia de que a mulher deve preservar-se virgem até o casamento. E isso fica evidente quando a jovem descobre que seu namorado, Buddy, já havia tido relações sexuais antes do casamento com uma garçonete que, segundo ele, havia o seduzido. Esther, com sua visão crítica acerca do mundo, o julga hipócrita, pois era membro de uma família religiosa e frequentava a igreja semanalmente. Assim teve início uma repulsa em relação a Buddy, que a conduz a, futuramente, encerrar o seu relacionamento com ele. 

Através dessas reflexões de Esther, Sylvia representa questionamentos comuns do movimento feminista que começava a ganhar força na época em que o livro foi escrito. É um retrato concreto das reivindicações que circundavam a geração pré-revolução sexual. E a autora, por meio de Esther, se mostra favorável à progressão desse movimento. 

Mulheres protestam pela igualdade de gênero [Foto: Library of Congress/Unsplash]

A derrocada à depressão

O estopim que levou a saúde mental de Esther ao declínio definitivo foi o fim de seu estágio,  quando voltou para a casa de sua mãe. Ela descobre que não havia sido aprovada no curso de escrita em que havia se inscrito, o que faz todos os sentimentos negativos que Esther havia sentido em Nova York tomarem conta da sua mente de vez. A perspectiva da solidão e do vazio de um verão nos subúrbios de Boston era demais para a saúde mental já abalada da jovem, que não consegue mais dormir, comer, ler ou escrever. Esse último aspecto – não conseguir escrever – a deprime mais ainda, visto que essa era a sua paixão. A doença a domina de tal forma que a jovem não conseguia mais sair de sua cama, e deixou de praticar hábitos de higiene pessoal. 

Aos poucos, a vida de Esther se esvai. Progressivamente, a protagonista coloca seus sonhos de lado e só consegue pensar em como cessar seu sofrimento. Sylvia elabora um manual perfeito para entender a mente daqueles que sofrem de depressão. É um relato realista de uma mente em colapso. A autora utiliza uma analogia bela e profunda para descrever a doença: é como se a vítima estivesse dentro de uma redoma de vidro, ou seja, enclausurada em si mesma e em seus pensamentos angustiantes. As expectativas que a sociedade colocava sobre Esther formaram uma redoma ao redor da moça, a qual a sufoca:

“[…] estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado. […]

Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.”

Sylvia Plath

Sylvia, com sua escrita sagaz, consegue transmitir essa sensação ao leitor por meio de uma leitura que também é sufocante. O sentimento predominante em quem lê a obra é a angústia, o pesar de não poder fazer nada para ajudar Esther.

O sofrimento gerado pela redoma passou a ser tão grande que a jovem passava mais tempo pensando em formas de se suicidar do que em qualquer outra coisa. Os momentos em que ela tenta colocar essas ideias em prática são, sem dúvidas, as passagens mais sombrias do livro, principalmente porque são narradas de maneira calma e normalizada. É como se Esther estivesse narrando mais um dia normal de seu verão.

Nenhuma das tentativas, contudo, funciona. A jovem vivia uma guerra entre o corpo e a mente. Uma das cenas que mais simboliza esse fato se dá quando ela tenta cometer suicídio afogada no mar, mas o seu corpo insiste em boiar. Sylvia narra a luta da mente de Esther contra a natureza e os próprios instintos de sobrevivência: 

“Respirei fundo e ouvi a batida presunçosa do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.”

Sylvia Plath

Após uma dessas tentativas de suicídio, Esther é internada em uma clínica psiquiatrica, onde passa por um tratamento inadequado e ineficaz. À época, a depressão, assim como outras doenças mentais, era estigmatizada e vista como falta de força de vontade do paciente. 

Curiosamente, – ou por intenção de Sylvia – a jovem começa o livro comentando o eletrocutamento do casal Julius e Ethel Rosenberg, condenados por espionagem para a União Soviética. Esther se mostra agoniada com a execução e afirma que a ideia de ser eletrocutada a deixa doente. E foi justamente o eletrochoque a técnica utilizada em seu tratamento nesse hospital. Esther não via as sessões como um meio de melhora para a sua condição, mas sim como um castigo.

“[…] e a cada clarão algo me agitava e moía, e eu achava que meus ossos se quebrariam e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio. Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de tão terrível.”

Sylvia Plath

A situação da moça só começa a melhorar quando Philomena Guinea — a escritora que havia lhe concedido a bolsa para estudar em Nova York — financia a sua transferência para uma clínica particular, na qual recebe um tratamento mais humanizado. Nesse novo local, Esther recebe a visita de Buddy, que tenta culpá-la por sua doença. O rapaz pergunta: “E agora, quem irá se casar com você?” Aqui, Sylvia deixa a sutileza de lado para mostrar a latência dos estigmas que cercam aqueles que sofrem de problemas psicológicos, presentes até hoje em nossa sociedade.

Uma obra autobiográfica

A Redoma de Vidro é uma obra repleta de referências autobiográficas. Isso porque, no verão de 1952, Sylvia passou por uma situação muito similar à de Esther: sofreu de depressão e realizou várias tentativas de suicídio, até ser internada em uma clínica psiquiátrica – onde também passou pelos eletrochoques. Após um período de tratamento, a escritora se recuperou e reconstruiu a sua vida. Em 1956, casou-se com o poeta inglês Ted Hughes, com quem teve dois filhos, Frieda e Nicholas. Sylvia publicou vários livros e se tornou um dos maiores nomes da poesia confessional. 

Sylvia Plath é considerada uma das maiores poetas do século XX [Foto: Giovanni Giovanetti e Grazia Neri/Wikimedia Commons]

Poucas semanas após o lançamento de A Redoma de Vidro, em 1962, aos 30 anos, ela se suicidou com gás em seu apartamento. O romance quase póstumo, publicado na Inglaterra sob o pseudônimo Victoria Lucas, é visto como a maneira que Sylvia encontrou para expressar a angústia e o sufocamento gerados pela sua redoma de vidro: a depressão. E é isso que sensibiliza mais ainda o leitor. Saber que a autora lutava uma batalha contra a própria mente e se sufocava com o seu próprio ar viciado gera uma angústia indescritível. Ter consciência de que a escritora também passou por tratamento de choque é outro ponto que faz os olhos marejarem e provoca o questionamento: como a tristeza e as incertezas geradas por uma doença se transformam em correntes elétricas de 100 volts no seu cérebro? Não é possível julgar Esther – ou Sylvia – por acreditar que esse tratamento era um castigo.

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