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Resenha | ‘Rouge’ é um conto de fadas com toque de horror psicológico

Livro de Mona Awad sobre a busca incessante pela beleza causa frio na barriga
Por Fernando Silvestre (fernando.silvestre@usp.br

Mona Awad é autora dos livros Rouge (Globo Livros, 2024) e Bunny (Globo Livros, 2024), e realizou sua dissertação de mestrado na Universidade de Edimburgo sobre o medo nos contos de fada. Atualmente, é professora assistente no programa de Escrita Criativa da Universidade de Syracuse. Esse repertório acadêmico possibilitou que Mona entendesse como provocar o terror e a agonia em Rouge, além de envolver o leitor nas várias camadas da obra.

Rouge é um romance que conta a história de Belle após a morte da mãe. A protagonista é obrigada a voltar para a cidade em que a matriarca morava, na Califórnia, para arrumar o velório e as pendências deixadas por ela, como uma dívida elevada. Assustada com a dívida da mãe, Belle busca arrumar o apartamento para vendê-lo e aliviar as despesas herdadas. Porém, durante a organização, a personagem encontra uma caixa, aparentemente de memórias, que tinha um par de saltos vermelhos como rosas. Sem saber como eles foram calçados, ela percorre um caminho e se depara em uma mansão com roseiras na frente: La Maison de Méduse (em tradução livre para o português, “A mansão de Medusa”).

A grande casa é como uma clínica de beleza, comandada pela Rouge (uma espécie de empresa). Ela atrai Belle, que é ficcionada em skincare — principalmente por assistir vídeos sobre, e seguir uma rotina detalhada de produtos —, assim como atraiu Noelle, sua mãe. Envolta em um culto à beleza e na busca incessante pela pele com  “Brilho”, a protagonista passa por uma jornada em busca do seu “Eu Mais Magnífico”.

Racismo e Compulsão pela Beleza

No enredo, Belle mostra-se imersa no mundo do skin care de tal forma que os passos da sua rotina de cuidados com a pele e os produtos usados por ela são relembrados pela narradora-personagem. Tônicos, séruns e cremes são alguns dos tipos de cosméticos usados por ela, com a intenção de manter uma pele viçosa e radiante. Quando criança e adolescente, a mãe sempre reafirmou a pele da filha como extremamente bonita, principalmente por ter ascendência egípcia. Esse contínuo comportamento de Noelle sobre o traço fenotípico de Belle beira uma exotização da pele parda e preta, como se fosse algo extraordinário.

Falas como essa internalizaram na protagonista a preocupação com a pele e a busca por um “brilho”, que durante os tratamentos na Maison de Méduse, será materializado no embranquecimento do tom de pele da mulher. A mudança nas suas características físicas deixa claro que o conto de horror não fica somente no campo da fantasia, mas também mostra a presença do racismo. A personagem se torna mais semelhante à mãe, de descendência francesa, com o passar do tempo. 

“‘Por que você faz o sol com cara de cruel, querida?’, perguntou a sra. Said, olhando por cima do meu ombro para o desenho na minha mesa. A sra. Said é egípcia, como eu. Mas completamente, não misturada. ‘O que é adorável’, disse minha mãe. ‘Porque o sol nos deixa escuras’, falei para a sra. Said.”

Mona Awad

A personificação da beleza como um processo doloroso e que faz necessário abandonos da sua cultura é traduzido durante as três sessões gratuitas oferecidas a Belle. Em uma sala separada e escura, ocorrem os procedimentos chamados de “extrações”, que promovem na pele um brilho esbranquiçado. O afloramento de memórias afeta o comportamento de Belle, que passa a esquecer coisas básicas sobre si e sobre sua vida. 

Completadas as três sessões, a protagonista se encontra com pessoas que fizeram os mesmos procedimentos e todos parecem confusos. Um ponto em comum é que todos estão com o Brilho, ou seja, seus tons de pele ficaram tão claros que as veias estavam extremamente visíveis, como se estivessem mortos. Quando olham para seus reflexos, ficam encantados devido ao Brilho, mesmo com a aparência mórbida. Mona Awad produz um questionamento crítico no leitor sobre o embranquecimento e a formação de padrões pelos procedimentos estéticos, tudo em prol da beleza.

Maternidade e Rivalidade Feminina

A obra apresenta três gerações da família de Belle, ela, a mãe e a Grand-Maman (avó). A relação entre as três é demonstrada como algo difícil de se lidar e permeado por conflitos. A anciã da família é uma católica fervorosa e acredita na chegada iminente do Apocalipse. Porém, Noelle é cética, o que a leva a não querer batizar a Belle na Igreja Católica, além de que Noelle afirmava que batizá-la seria um desrespeito ao pai da menina, que era mulçumano. Esse ato é considerado rebeldia e causa ainda mais estranhamentos entre Noelle e sua mãe.

Já a relação entre Belle e sua avó é mais tranquila e protetora. Ao longo da narrativa, Belle aproxima-se mais da Grand-Maman, que supre a necessidade materna da garota quando a protagonista vai morar com ela, longe de Noelle. Nesse período, ela é batizada e começa a frequentar uma escola francesa em Montreal, para se reconectar com essa ascendência familiar, mesmo que ignore a parte egípcia da família.

“‘O francês […] é sua língua[…]. Sua mãe esqueceu a si mesma e de onde veio quando se mudou para esta cidade. Mas eu não esqueço. Está na hora de você falar francês e está na hora de ser batizada.’”

Mona Awad

Um ponto crucial para a história é o conflito entre Belle e Noelle quando a protagonista era pré-adolescente. Iludida por um homem quase idêntico ao Tom Cruise, a não ser pelos olhos vermelhos, Belle fere a mãe através do comando desse personagem. Apresentado como Seth, ele afirma que Noelle tinha roubado a beleza de Belle e por isso ela era considerada feia. Isso provoca um ódio em Belle que acentua a disputa e a rivalidade entre elas. Falas de Seth sobre uma ser mais bonita do que a outra geram desconforto para a  protagonista, que passa a ver a mãe como inimiga.

Alucinação e leitor

Os procedimentos realizados na Rouge afetam os comportamentos de Belle, que tem sua memória completamente prejudicada. Esquecer quem são as pessoas, onde fica sua casa e que a mãe tinha morrido provoca agonia genuína no leitor. Mona Awad escreve do ponto de vista dos pensamentos de Belle, que a cada parte do livro se torna mais confusa e desconexa.

“O lençol de seda vermelha carrega o fantasma de violetas e fumaça, um odor de pele e suor. Dolorosamente familiar. De repente, eu lembro. O quarto da minha mãe. Devo ter dormido nele. […] Como eu saí daquela casa? Como saí daquele salão?”

Mona Awad

Falar frases sem sentido e interagir de forma esquisita com o restante dos personagens são aspectos da narrativa que constroem o terror. Como leitor, surge um questionamento de por quê Belle age desse jeito, mas é importante relembrar que ela enfrenta o luto pela morte da mãe. Esse questionamento constante torna a leitura ainda mais envolvente. Lembrar dos personagens junto com a Belle é como se o  narrador e o leitor se unissem. Tal fusão torna viciante e tenebrosa a leitura.

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