Por Amanda Yoshizaki (amanda.yoshizaki@usp.br)
Em um mundo cada vez mais acelerado, no qual o fast food domina o cotidiano, a comida caseira segue firme entre os consumidores que buscam uma refeição que ofereça não apenas benefícios à saúde, mas também conforto emocional. A venda desses pratos tem se consolidado como uma alternativa de sustento para muitos empreendedores, que encontram no preparo de marmitas e receitas caseiras uma forma de renda.
Sabor além do paladar
A expressão “Comida caseira” se refere a refeições preparadas em casa, geralmente com ingredientes frescos e naturais, sem o uso de conservantes ou aditivos industrializados. Esse tipo de alimentação valoriza técnicas culinárias tradicionais, muitas vezes transmitidas de geração em geração, e prioriza a simplicidade e o cuidado no preparo.

A culinária caseira possui sabores que despertam lembranças da infância, de almoços em família ou de conversas à mesa ao fim da tarde. Por este motivo, comidas chamadas de “receitas de vó” têm ganhado força nas redes sociais, com vídeos curtos que mostram o preparo de refeições simples e afetivas.

[Imagem: Reprodução/Instagram/@receitassdevo]
Um exemplo de página dedicada a comidas caseiras é a Receitass de Vó, comandada por Eliete Aguiar. Presente tanto no Instagram — no qual reúne mais de 2 milhões de seguidores — quanto no TikTok e YouTube. A criadora ensina com uma linguagem acessível o passo a passo de pratos como bolos, caldos, pães e sobremesas típicas.
Expansão das receitas do cotidiano
Nos centros urbanos, a culinária caseira tem se materializado em negócios que oferecem marmitas, muitas vezes feitas por cozinheiros em suas próprias casas, que encontram nesse trabalho uma forma de sustento. Um exemplo é Leonardo Santerini, o empreendedor por trás do “Dona Marmita”, um trailer localizado no bairro Butantã, em São Paulo, que vende refeições por preços acessíveis desde 2021.
O empreendedor conta em entrevista à Jornalismo Jr. que a ideia de comercializar comidas caseiras surgiu quando viu um homem que vendia marmitas no porta-malas de seu carro. “Pensei em uma alternativa de baixo custo e que eu me sentisse à vontade. Sempre gostei de cozinhar, apesar de minha profissão de origem ser outra”, menciona Leonardo, que cursou arquitetura e trabalhava em obras.

[Imagem: Reprodução/Instagram/@donamarmita.sp]
Leonardo relata os desafios de manter um empreendimento de marmitas em meio a instabilidade econômica do país: “Nós estamos sempre à mercê do que está acontecendo no mundo, temos que ter jogo de cintura para nos situarmos. Não podemos ter medo de enfrentar as incertezas”.
Apesar dos obstáculos, o cozinheiro busca agradar todos os seus clientes, com um cardápio variado, que também conta com opções veganas. “Temos uma clientela fiel e comidas gostosas feitas com amor”, menciona Leonardo, que complementa ao dizer que escolheu algo que cabe no bolso e que traz momentos de felicidades para ele.
Os benefícios da comida caseira
Mesmo com a praticidade oferecida pelas refeições prontas, a comida feita em casa continua a ocupar lugar na vida de muitas pessoas. Para a nutricionista Michele Yoshizaki, essa escolha costuma estar associada às lembranças de vivências do indivíduo. “Esse vínculo emocional pode contribuir diretamente para o bem-estar e saúde mental”, relata.
“Comer vai muito além de suprir necessidades fisiológicas”
Michele Yoshizaki, nutricionista
Segundo a especialista, alimentação de preparo caseiro oferece a possibilidade de escolhas mais saudáveis, mas isso depende dos componentes utilizados e dos métodos de preparo. “Quando elaborada com harmonia e ingredientes naturais, a comida pode ter efeitos anti-inflamatórios e protetores para o organismo. Já os alimentos ultraprocessados, ricos em aditivos químicos e substâncias pró-inflamatórias, podem contribuir negativamente tanto para a saúde física quanto mental”, comenta.
Michele enfatiza a importância de priorizar temperos naturais, como cúrcuma e gengibre, ter equilíbrio entre os grupos alimentares, cuidar da higiene dos alimentos e evitar o excesso de sal, açúcar e gorduras ruins. “Isso contribui para a prevenção de doenças crônicas, o fortalecimento do sistema imunológico e a promoção da saúde como um todo”, complementa.

Mesmo com o avanço dos aplicativos de entrega e da culinária industrializada, muitas pessoas preferem a comida caseira por um motivo que vai além da nutrição: o conforto emocional. Segundo reportagem da Uninter, a chamada comfort food (“comida afetiva”, em tradução livre) proporciona uma sensação de segurança e acolhimento, muitas vezes por estar relacionada a memórias da infância ou a momentos familiares.
Esses alimentos ativam no cérebro respostas que reduzem a ansiedade e o estresse, o que funciona como uma espécie de “abraço emocional” no prato. O cheiro de um arroz recém-cozido, um bolo no forno ou o gosto do feijão temperado como um familiar fazia são gatilhos de memória que trazem conforto psicológico.
O tempero de afeto
Avanides Coelho, aposentada, vê o ato de cozinhar como uma forma de carinho. “Se você faz a comida com amor, ela fica mais gostosa”, afirma. Para ela, o prazer de receber visitas está ligado no ato de oferecer uma refeição preparada com atenção e carinho. Já sua filha, Claudineia Coelho, reforça: “Amo comer a comida da minha mãe, parece melhor do que a minha”.

De acordo com Leonardo Santerini, a comida caseira é valorizada porque oferece algo que agrada a todos: simplicidade, sabor e aconchego. Ele acredita que uma refeição temperada na medida certa conquista o paladar do brasileiro. Segundo o cozinheiro “menos é mais”, e isso satisfaz o público.
“Tempero de casa é sempre mais gostoso”
Avanides Coelho
Em uma refeição caseira pode existir mais do que ingredientes: também surgem memórias que resistem ao tempo. Avanides conta de uma receita de bacalhau cozido com arroz que sua tia fazia, a qual marcou sua infância na Bahia. Enquanto isso, Claudineia, comenta sobre o arroz-doce feito por sua mãe, que ela tanto gosta.
Cada receita tem uma história e um modo de fazer, o que a torna um elo entre gerações e territórios, como mencionado no artigo “Comida: uma contadora de histórias”, de Regiane Caldeira e Bruna Mendes Fava.
