Por Rafael Dourador (rafa.dourador@usp.br)
O longa-metragem Sobre um Herói (About a Hero, 2024), dirigido por Piotr Winiewicz, é uma produção de Rikke Tambo Andersen e Mads Damsbo que teve seu lançamento internacional na 37ª edição do International Documentary Film Festival Amsterdam, em 2024. No Brasil, o longa estreou após a coletiva de imprensa do Festival Internacional de Documentários – É Tudo Verdade, que divulgou a programação oficial do evento.
Sobre um Herói tem o roteiro coescrito por Kaspar, uma inteligência artificial treinada para estudar a obra de Werner Herzog — cineasta alemão que produziu, escreveu e dirigiu mais de 60 longas-metragens e documentários, como Nosferatu (1978) e Fitzcarraldo (1982) —, e adaptado pelos produtores. O filme começa apresentando a fatídica frase de Herzog: “Um computador não fará um filme tão bom quanto o meu em 4500 anos”. Muito mais do que ironizar, a produção de Winiewicz brinca com a noção da soberania humana, sugerindo ingenuidade no pensamento do homem.
A trama se desenvolve a partir da misteriosa morte de Dorem Clery, um trabalhador da fictícia cidade de Getunkirchenburg. A causa do falecimento passa, então, a ser investigada pelo personagem de Herzog. Sequenciado em capítulos que não seguem uma ordem cronológica, o filme é repleto de suspense sobre quem ou o que de fato assassinou Dorem Clery. Cenas com narração de Herzog mostram entrevistas com artistas, filósofos e moradores da cidade, na tentativa de amarrar as pontas do roteiro e refletir sobre o potencial das tecnologias no mundo.
O aspecto filosófico de Sobre um Herói se sobressai na brevidade dos diálogos e na constante reflexão sobre originalidade, autenticidade e a superioridade humana sobre as máquinas, causando dúvida se o que está sendo transmitido é uma narrativa do modelo de linguagem ou de Winiewicz. Para o diretor, a obra não é só sobre Inteligência Artificial ou Werner Herzog. “É um filme que olha para a nossa relação com a tecnologia”, explica em uma entrevista à Filmmaker. O cineasta ainda destaca a dualidade entre o lado ficcional da obra e o caráter documentário, que atribui um efeito de realidade.

Se, ao utilizar uma IA no roteiro, a ideia era desafiar a frase do próprio Herzog no que remete à sua percepção da superioridade humana sobre as máquinas, Winiewicz acaba por reforçar o pensamento do cineasta alemão na indústria cinematográfica, pois o filme dispensa uma sequência lógica na maior parte do tempo. Contudo, a singularidade de Sobre um Herói sugere que é possível incorporar essa tecnologia no mundo dos filmes e abre caminho para futuras produções experimentarem a ferramenta.
O filme, então, se desenvolve a partir do que parece ser o cerne da questão para Winiewicz: como a humanidade pode lidar com a Inteligência Artificial e as inovações tecnológicas no geral? Tal questionamento, que constantemente leva à máxima de uma revolução robótica, como nos filmes Eu, Robô (I, Robot, 2004), A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells VS. The Machines, 2021) e até O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), é, afinal, uma tentativa — por mais cômica que seja — de mostrar que a tecnologia tem suas limitações, mas que há potencial na trajetória do cinema e do mundo.
Como forma de provocação para instigar a reflexão e o debate crítico sobre o uso da IA tanto no cinema quanto em outros setores, o longa cumpre a sua função ao criar um cenário caótico ao final. Embora, de maneira pouco cativante e muito confusa para o interlocutor, a iniciativa tomada e traduzida por Winiewicz em Sobre um Herói marca um momento importante da indústria cinematográfica, que já demonstra sinais de incorporação das mais novas tecnologias.

Esse filme fez parte do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’. Para mais resenhas do festival, clique na tag no início do texto.
*Imagem de capa: Divulgação/ CPH:DOX