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25 de Março: A rua que virou sinônimo de compras
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04 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Porque essa região é importante para a cidade de São Paulo

Por Tiago Medeiros (tiagosmedeiros@usp.br)

“Vamos passear na 25?” Essa é uma situação recorrente e tentadora que ocorre na vida de vários paulistanos que, influenciados por um ímpeto consumista, são guiados a transitar pela região. Passeios esses que, por muitas vezes, terminam com sacolas nas mãos dos visitantes e a vontade desses de explorar ainda mais as oportunidades que só a Rua 25 de Março proporciona.

Quando se pensa em um polo comercial de suma importância presente na cidade de São Paulo, o primeiro lugar que vem no imaginário das pessoas é a Rua 25 de Março. Esse trecho da cidade, que com o passar dos anos, acabou por expandir-se e caracterizar toda uma região é conhecida como o melhor lugar para encontrar uma infinidade de coisas que um indivíduo possa desejar.

Por conta dessa diversidade de produtos, baixo preço das mercadorias, além da possibilidade de encontrar produtos extralegais e outros muitos atrativos, a Rua 25 de Março popularizou-se e logo tornou-se uma região muito conhecida e querida pelas pessoas. Formaram-se as galerias e grandes lojas que atraem milhões de compradores, principalmente em datas festivas. 

Origens

Os escritos de Lineu Francisco de Oliveira, no livro “Mascates e Sacoleiros – Empreendedores que Construíram uma Região”, comprovam a existência do núcleo mercantil localizado no Centro de São Paulo desde 1865. Porém, antes de mesmo de ser batizada com o nome de 25 de Março, a rua já recebia visitantes que buscavam adquirir mercadorias comercializadas no local. Anteriormente, o nome dado ao trecho era Rua de Baixo, no entanto, no ano de 1865, houve a mudança de alcunha. A rua passou a ser nomeada como uma homenagem ao dia em que a primeira Constituição Brasileira foi escrita, no ano de 1824.

A via localizava-se em uma região portuária na época, dado o fato de que os rios Tamanduateí e Anhangabaú proporcionavam uma opção de transporte ativa e importante aos comércios da cidade. Essa condição também esclarece o nome da Ladeira Porto Geral, uma das mais importantes travessas da 25 de Março. Mediante a essa forte ação portuária que envolvia a região, outro caráter geográfico também influenciava muito a situação experienciada pelos comerciantes. Em dias de chuva forte, a rua era tomada por alagamentos e enchentes que dificultavam o trabalho e o trânsito das pessoas, além de alagar as casas que ficam às margens dos rios.

Ladeira Porto Geral em uma manhã de sábado (Foto: Tiago Medeiros/ Audiovisual Jornalismo Júnior)

Em meados do século XIX, os comerciantes presentes na 25 de Março eram, majoritariamente, imigrantes árabes, os quais ainda hoje, por conta do caráter hereditário das lojas, mostram-se presentes. Um aspecto curioso, que trouxe influências até os dias atuais, é que por conta dos alagamentos, as mercadorias eram por muitas vezes danificadas. Com isso, os donos de comércio eram obrigados a vender seus produtos por um preço mais baixo. Devido a essas ocorrências, os vendedores procuravam também comercializar objetos mais baratos, com o intuito de minimizar o prejuízo, caso as mercadorias estragassem. Essa característica perdura até hoje, e é um dos fatores que mais atrai os visitantes à região.

Autenticidades da região

São inúmeros aspectos que trazem à Rua 25 de Março uma áurea que a diferencia de outros polos comerciais presentes na metrópole paulistana. Mediante a essa característica, podem ser elencados alguns fatores que contribuem para essa visão. Primeiramente, cita-se a mais antiga característica, que se faz presente na região desde o início das atividades comerciais: a diversidade de produtos.

De artigos capilares a fantasias infantis, passando por bijuterias, perucas e tasers, pode-se dizer com propriedade que, o visitante encontrará qualquer mercadoria que venha a despertar seu interesse. Essa característica não possui suas origens muito bem explicadas. Contudo, há indícios da diversidade ocorrer por conta da incidência de imigrantes de várias nacionalidades e de outras regiões do Brasil. Cada comerciante, influenciado por sua própria cultura, vende os produtos familiares aos seus interesses.

Além disso, essa parte da região central da cidade de São Paulo, tem como um de seus principais chamarizes aos consumidores o fato de oferecer produtos ilegítimos. Existe um forte ímpeto de possuir objetos de desejo e de grande valor. Por não terem poder aquisitivo para comprar itens de luxo, algumas pessoas recorrem a essas imitações não-oficiais que encontram-se em larga escala na região. Apesar de proporcionar conflitos ⎼ leis que determinam pirataria e violação de direitos autorais ⎼, essa particularidade da 25 de Março faz com que a vistoria acerca dessas regulamentações seja menos frequente. Somada à tradição da prática ao longo do tempo, os comerciantes possuem artifícios para driblar as fiscalizações policiais.

Essa constatação, porém, não infere que não ocorra inspeção e confisco de mercadorias nas ruas centrais da capital paulista. Ações policiais são feitas continuamente para que não haja excesso de tráfico de produtos ilícitos na região. Esse fato deixa em constante alerta ambulantes que enchem as calçadas da 25 de Março e que têm como sua fonte de renda esse tipo de comercialização.

Outra característica altamente apreciada pelos frequentadores da Rua 25 de Março é a disponibilidade de artigos por um preço abaixo da média do mercado. Por conta da grande competição entre os vendedores de inúmeros ramos, além do caráter varejista presente em muitas lojas, os produtos têm um valor mais aprazível, algo que cresce aos olhos dos consumidores. As importações feitas por métodos próprios a partir dos imigrantes que permeiam a região também facilitam a promoção de preços inferiores aos de shopping centers, por exemplo.

Cenário comercial atual

A partir da ótica de Luiz Carlos, proprietário da loja Strass e Cia. localizada na Rua 25 de Março, grandes aspectos que caracterizavam o comércio da região foram sendo modificados ao longo tempo. O aparecimento de pessoas de novas  nacionalidades como vendedores, a crescente incidência de ambulantes e de barracas comercializando mercadorias em plena calçada são fatores que, para o comerciante, bagunçaram a logística mercantil presente nas ruas do centro de São Paulo. “Acredito que a Rua encontra-se em decadência pela ação dos ambulantes que trazem o imaginário de que a 25 de Março baseia-se no comércio de produtos falsificados. Os consumidores vêm para a região só com essa ideia, infelizmente.”

Além desse aspecto, Luiz Carlos salienta que o perfil dos comerciantes foi alterado com o passar dos anos. Antigamente, a área possuía uma predominância de comerciantes libaneses, porém, progressivamente, vendedores asiáticos foram chegando e adquirindo estabelecimentos. Hoje, são o grupo étnico mais populoso da região. Os pracistas descendentes de árabes ainda marcam sua presença na 25 de Março, muito por conta da hereditariedade já mencionada. Essa mudança de perfil afetou, também, o caráter das lojas.

A 25 em uma manhã de sábado (Foto: Tiago Medeiros/ Audiovisual Jornalismo Júnior)

Para o proprietário da Strass e Cia., os comerciantes descendentes de chineses possuem um menor comprometimento com a manutenção da região e estão modificando características que estavam permeadas sobre a Rua. “Os orientais possuem uma forma de comércio diferenciada em relação a outros grupos. Eles exploram todo o potencial da região e depois mudam-se com intuito de comercializar com um novo público. Não há formação de vínculos com a 25.”

Ainda pela ótica do proprietário da loja de pedras para bijuterias, os rumos que estão sendo tomados pela região agravam a desestabilização do local. Para ele, caso não haja intervenção no trabalho feito pelos ambulantes, a 25 de Março perdera suas essências e caminhará rumo a um caos total. As lojas ficariam em detrimento do comércio livre que ocorre nas calçadas, que seria a principal forma de adquirir produtos. Isso dificultaria a fiscalização das mercadorias e incentivaria as transações informais, que não passam por processos legais de comercialização.  

A visão de quem vive em função da 25 de Março

Um grande fator que mostra-se presente na Rua 25 de Março é sua visibilidade em relação ao público. Ou seja, a introdução de novos produtos no mercado tem um grande espaço na região, caracterizada como um dos melhores pontos de São Paulo para se arriscar a comercializar novidades. Esse aspecto pode ser creditado ao fato de haver uma gigante pluralidade de mercadorias disponibilizadas na região. Inúmeros ramos são abrangidos e perde-se o cunho excludente presente em outras áreas mercantis.

Esse perfil é aprazível à loja de turbantes Perfecta, em que Ana Paula trabalha. A 25 de Março funciona como uma grande vitrine para que os produtos de cultura afro sejam apresentados ao público e comecem a circular em grande escala  na região – e, em um plano futuro, em inúmeros pontos da cidade. Para ela, a área proporciona uma visibilidade ideal para os comerciantes que buscam inserir no mercado produtos novos. Em seu caso, mais do que isso, há a busca de introduzir na sociedade novas ideias com relação a cultura afro a partir da comercialização dos turbantes.

Procura-se tornar essa cultura mais conhecida pelas pessoas, inserindo-a em seus imaginários para que seja reconhecida e completamente estabelecida na esfera social. “Eu já fazia oficinas de turbantes antes de trabalhar aqui na loja, e também era ligada a confecção de produtos da cultura afro. Esse aspecto só foi aumentado quando eu vim para a 25, a visibilidade do nosso trabalho com esse ramo ficou bem maior.”

Ana Paula também vê a possibilidade de inúmeros tipos de comércio  aparecerem, manterem-se ativos e produtivos na região, além da chegada de novas mercadorias. Por conta da grande incidência de pessoas, ela observa que há espaço para a introdução de novidades e manutenção da presença de ambulantes pelo fato da grande demanda que paira sobre a Rua. “Cada comerciante traz uma novidade, até mesmo os marreteiros [ambulantes] inovam no oferecimento de produtos e têm a possibilidade de conseguir clientes através da promoção de mercadorias inéditas aos olhos das pessoas.”

As diferentes facetas da Rua

Ao abordar a questão da frequência do público presente na 25 de Março, logo imagina-se uma multidão, ruas tomadas pelas pessoas, o comércio adentrando as vias e o gigante fluxo de mercadorias. Contudo, essa visão da região só abrange uma porção das 24 horas presentes em um dia e leva em consideração as épocas próximas a datas festivas, como o Dia das Crianças e o Natal. Apesar desse caráter claustrofóbico ser realmente presenciado nesses momentos, e até ser exaltado e ter crescido ao longo dos anos, essa não é uma realidade durante o período da noite e durante toda a semana.

Ladeira Porto Geral ao anoitecer (Foto: Tiago Medeiros/ Auciovisual Jornalismo Júnior)

A dualidade presente nessas ocasiões é gritante. Os aspectos de movimentação, barulho e fervor permeados durante os dias de muito movimento na região são substituídos por uma aura de calmaria, silêncio e vazio presentes durante o período noturno. O movimento de pessoas ao longo da semana é usado pelos comerciantes para otimizar a disposição de funcionários. A partir dessa premissa, Alessandro, gerente da loja Anne especializada em acessórios, alerta as mudanças que devem ser realizadas para que o cliente seja recebido da melhor maneira possível em sua loja: “A gente sabe que em dias de semana o movimento diminui muito, mas de qualquer forma temos que estar sempre preparados para chegada dos clientes, sejam quantos forem.”

O movimento durante esses períodos de pico também varia muito durante o dia. Percebe-se ao observar as lojas que, em questão de momentos, o estabelecimento pode estar completamente vazio ou possuir todos os seus funcionários trabalhando no atendimento aos fregueses. Mediante a essa situação, Alessandro fala sobre como assegurar que o atendimento será realizado da melhor forma quando for requisitado. “O segredo está no treinamento dos atendentes. A partir de uma boa recepção e um atendimento respeitoso aos clientes, a loja consegue manter um bom fluxo de pessoas e angariar novos compradores.”  

Deve-se salientar também as características que afloram na região durante o período da noite, e que modificam por completo a experiência de visita à 25 de Março. Nesses momentos, há a possibilidade de apreciar as estruturas e prédios que retomam o caráter histórico presente na região. Ofuscadas pela poluição visual presente durante o dia nas ruas centrais da capital paulista, ainda permanecem conservadas as construções da época em que o comércio convivia com lares às margens dos rios Tamanduateí e Anhangabaú. A correria que caracteriza a movimentação presente durante o expediente dos comerciante é substituída pelas mesas e cadeiras de alguns bares e restaurantes, que evidenciam ainda mais a preservação de momentos relaxantes para os frequentadores acostumados a pressa que envolvem as ações mercantis.

Ao caminhar durante a noite pelas ruas que formam a região denominada como a 25 de Março, aspectos totalmente diferentes e estranhos ao clima permeado sobre a área durante o dia são apurados. O silêncio e uma aura até mesmo tenebroso pairam sobre os ares da via. As pessoas que invadem a rua durante o período de grande movimentação são substituídas por alguns carros, e as barracas de vendedores ambulantes dão lugar a um dezena de pedintes que encontram abrigo sob as tendas das lojas. Enfim, o sentimento que a rua passa aos visitantes quando a lua se faz presente e a pouca iluminação é colocada a mostra é de receio e até mesmo um choque de realidade, mostrando que a região não é feita apenas de compras e ânimo.

Em suma, um passeio ao anoitecer na Rua 25 de Março trata de relembrar a variedade de atividades que podem ser usufruídas na região. Da mesma forma, recorda-se toda a história que esse local possui e demonstra-se de forma simples como um local pode desempenhar tantos papéis sem mudar a sua essência. Diante desses fatores, pode-se perceber o porquê da 25 de Março possuir tanta fama e esbanjar tanta importância no cenário do entretenimento paulistano.

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