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A boa e velha fórmula de Lemony Snicket
Na Estante
16 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de destaque: Ingrid Luisa Souza/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Quem está familiarizado com os treze dissabores dos protagonistas de Desventuras em Série (Companhia das Letras) – o que eu muito recomendo que esteja, a despeito dos diversos avisos de Lemony para largarmos os livros – vai perceber em Quem poderia ser a uma hora dessas? (Seguinte, 2012), primeiro título da série Só perguntas erradas,a retomada de alguns elementos de uma receita que deu certo: mistérios inacabáveis, uma boa dose de humor britânico e situações improváveis. Nada comparável a um bebê escalando um elevador com os dentes, certo, mas ainda assim o absurdo continua a ser um universo muito explorado pelo autor. E está tudo bem que assim seja. O pecado, pode parecer em poucas passagens, é a tentativa forçosa de remontar aspectos do sucesso que foram os irmãos Baudelaire mesmo onde não cabem, o que não impede a formação de uma identidade nova. Embora, provavelmente, a intenção tenha sido manter as narrativas interligadas de algum modo.

Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler, antes narrador e personagem indireto de Desventuras em Série, conta agora em primeira pessoa a história de sua experiência de treinamento em uma organização secreta (quem se lembra de C.S.C?) onde realiza tarefas talvez um tanto inapropriadas para um jovem de doze anos. Em companhia de sua tutora S. Theodora Markson – a última de uma lista decrescente de bons tutores -, ele deve auxiliar na restituição de uma peça em formato de fera, aparentemente sem muito valor, para a família Sallis em um vilarejo de nome Manchado-pelo-mar, um lugar perto do qual havia um oceano que foi drenado e cuja atividade econômica principal um dia fora a extração de tinta de polvos. O enigma vai se formando quando Lemony percebe que a pequena escultura pode de fato pertencer à família com quem está, os Mallahan, e os Sallis podem na verdade não ser os Sallis e que por trás disso tudo pode haver uma figura obscura, o Tiro Furado.

Snicket vai insistindo nas perguntas erradas para tentar investigar o que realmente está acontecendo naquele lugar estranho, enquanto solta linhas que serão costuradas – espero! – nas continuações. Ele tem interesses alheios ao que está rolando no vilarejo, assim como Theodora, certamente assim como Tiro Furado e outras personagens interessantes e este livro dá uma boa introdução aos desdobramentos que ainda estão por vir. Mas antes precisa resolver as pendências do roubo da Fera Ressonante com a ajuda de duas crianças que dirigem um táxi; uma menina repórter muito sedenta por informação; um bibliotecário muito amigável chamado Qwerty; um recepcionista de hospedagem um pouco, ao meu ver, suspeito; com as interferências de um casal de policiais briguentos e com sua própria tutora ansiosa por subir na posição,

Não é fácil construir uma bom enredo nonsense. Quem gosta desse estilo, deve, sem dúvidas, incluir Lemony Snicket em suas leituras. Suas descrições de acontecimentos sem pé nem cabeça são apresentadas com tamanha confiança que dão ao leitor a sensação de que as coisas não poderiam ocorrer de outra forma. Não nos passa pela cabeça questionar a verossimilhança de taxistas mirins que dirigem a troco de dicas de livro. Ou de um antagonista capaz de imitar a voz de qualquer pessoa. Ou um menino de quase treze anos salvando pessoas de afogamento nem de jornais feitos com tinta de moluscos. São essas invenções que dão o toque de humor sagaz.

Quem poderia ser a uma hora dessas? vale por si e pelas lembranças das outras obras de Lemony e ainda com o gentil tato de permanecer com as ótimas ilustrações, dando um esquema visual muito forte e facilitando a aceitação de todo esse dadaísmo. Como o autor ainda não tem o pessimismo que o caracteriza em outros escritos, pouco vai fazer para impedi-lo dessa leitura. Então, é uma boa ideia engatar nessa nova aventura, enquanto esperamos a adaptação Netflix das desventuras dos Baudelaire.

Por Wagner Nascimento
wagneriano7@gmail.com

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