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A geração que “queria ser uma Kardashian”
Controle Remoto
21 maio 2016 | Por Jornalismo Júnior

Keeping Up With The Kardashians é um longo reality que chega a sua décima segunda temporada no domingo, 1º de maio. Transmitido pelo canal televisivo E!, desde a sexta temporada conta com episódios de uma hora que contemplam a família Kardashian-Jenner, considerada selvagem e divertida pelos fãs, mas superficial e deteriorada pelo resto do mundo.

O sobrenome Kardashian ganhou tamanha projeção dado o “vazamento” de uma sex tape de Kim com o cantor de R&B, Ray J. Na biografia não autorizada e recém lançada, Kardashian dynasty, de Ian Halperin, essa é considerada uma artimanha da própria socialite e sua mãe, Kris Jenner, com o intuito de alcançar fama e visibilidade: no livro, há a acusação de terem assinado um contrato com a Vivid Entertainment, em 2007, para soltar o vídeo na rede e de terem ganho, ainda, milhões com o mesmo.

A despeito de como conquistou os holofotes, a família não teve problema em mantê-los. Kris Kardashian/Jenner é produtora-executiva do reality e responsável pelo que se tornou a marca Kardashians. Expor sua vida pessoal e de suas filhas nunca lhe pareceu um problema, o que permitiu que aproveitassem a atenção da mídia para lançarem roupas, perfumes, cosméticos e linhas de joias, além de atuarem e posarem em diversas propagandas. O percurso e postura da família levou à alcunha: famosas por serem famosas.

As irmãs não parecem se abalar com a definição. Kim chegou a afirmar, diante de Barbara Walters no 10 Most Fascinating People, que por não dançarem, cantarem ou terem qualquer talento em especial, sendo “basicamente elas mesmas” é ainda mais difícil manter o interesse do público. Bom, o programa pode ser todo forjado e de reality não ter nada, mas é recorrente o tipo de opinião “tão ruim que acho bom”.

As onze temporadas veiculadas até agora nos apresentam uma grande família conturbada e com diversos conflitos: Kris sendo mãe e produtora, a disputa por atenção das filhas, o relacionamento conturbado de Kourtney e seu marido Scott Disick marcado pela violência, o casamento que durou 72 dias de Kim e seu posterior relacionamento com Kanye West, o esforço de Khloe para reencontrar sua autoestima durante e após o divórcio com Lamar, a construção da carreira de modelo de Kendall, a personalidade arrebatadora e forte da caçula Kylie e a transformação de Bruce Jenner, o padrasto e pai do clã, em Caitlyn Jenner, são só alguns dos temas que, se não tivessem um enquadramento tão tosco, embasariam um enredo relevante e ainda mais envolvente.

Imagem: Divulgação

Contudo, como é característico do gênero, somos atraídos pelo fútil, pela curiosidade ávida de sensacionalismo e pela excitação banal, o que garante tamanha audiência apesar da pouca profundidade da trama. KUWTK não se restringe à forma e imagem, mas o que se vê é a pulverização dos relacionamentos em atitudes impulsivas, intrigas e falas desarticuladas, marcando manifestações emocionais caricatas e previsíveis.

Para além do reality, o império Kardashian se fundamenta na venda de um estilo de vida: elas tem um corpo que a mídia coloca como desejável, tudo o que o dinheiro pode comprar, frequentam eventos da alta sociedade, vestem-se conforme lhes convém e estão entre as celebridades mais influentes nas redes sociais.

O legado de Kim Kardashian, hoje casada com Kanye e mãe de North e Saint West, foi passado às irmãs Jenner. Kendall e Kylie, que já cresceram nessa dinâmica expositiva dentro de um status privilegiado, são, hoje, figuras de alto potencial viciante: o público se identifica com sua rebeldia e personalidade, desejando o conforto e os privilégios que a fortuna lhes garante.

Almejar o padrão de vida das Kardashian-Jenners não passa de um reflexo capitalista na experiência humana pós-moderna: não queremos sentir, pensar ou agir, abdicamos da angústia existencial para que outros, nem atores e nem personagens, vivam por nós. E que melhor experiência poderíamos ter nesse universo hipotético do que tal padrão de beleza e estilo de vida capaz de despertar a cobiça de tantas mulheres? Por outro lado, os críticos as acusam de corroborar para a ênfase dada pela mídia ao estereótipo da mulher sensual, que contribui se não para a remasculinização da sociedade, ao menos para a valorização massiva de um ideal feminino que se destina ao olhar masculino.

Brooke Shunatona, editora de beleza da Cosmopolitan, se propôs a viver o novo espécime de sonho norte-americano, uma semana como Kylie Jenner, e seu depoimento serve tanto para desconstruir parte do sonho como do preconceito:

“Ao final dessa semana, decidir viver como Kylie não foi realmente o que eu esperava. Eu não me tornei mais popular nas mídias sociais e a vida não ficou mais fácil só porque estava vivendo o dia-a-dia de uma pessoa famosa. Ser uma celebridade feminina em 2015 — pelo menos do jeito que eu vivi — é difícil. Eu tinha que sempre me parecer com a Kylie, o que me fez respeitá-la ao testemunhar quanta energia é gasta em lidar com uma vida tão pública e quão vulnerável uma única selfie pode te deixar frente ao mundo.

Eu estava feliz em tirar as perucas e a maquiagem, e ter total contato com meus dedos sem as enormes unhas postiças, mas eu também fiquei triste em ver tudo isso ir. Me vestir como Kylie por uma semana me fez perceber que nunca arriscava quanto ao meu estilo por medo do que os outros iriam dizer. Quando aceitei esse desafio, parte de mim ficou animada por finalmente inovar no quesito roupas e cabelo, tendo o trabalho como desculpa se alguém me confrontasse quanto a minhas novas escolhas.

Eu tenho que entregar os pontos —  Kylie é totamente comprometida com seu estilo, tanto que ela consegue vender esses vestidos apertadíssimos e fazer com que as pessoas, incluindo eu, tentem copiar todo seu look. Apesar de não pretender necessariamente adotar todas as suas escolhas, me sinto inspirada pela confiança que ela exala ao tentar novas coisas, enquanto recebe um feedback positivo ou negativo de todos. Ademais, a vida é muito curta pra usar o mesmo corte de cabelo desde o ensino fundamental.”

Quanto a mim? Eu queria, sim, ser uma Kardashian. Pelos mesmos motivos capitalistas e universais, mas talvez já tenha passado da hora de desmitificar, de reconhecer que é mais do que usar uma peruca verde e dirigir uma Ferrari, é da forma que for, personificar esses itens e agregar valor a eles, porque vendê-los é o seu trabalho. Pode ser o trabalho dos sonhos, mas ele, em certa instância, exige discernir o que é você do que é atuação para o público, porque sua vida é um reality. Ademais, não é só ter um corpo tido como sensual, mas lidar com a decisão de pro que vendê-lo: o olhar masculino, o empoderamento feminino, a disseminação dos distúrbios alimentares ou a queda da apologia à magreza. É vender, vender, vender, porque Kardashians é antes de tudo uma marca. Comprando ou não sua ideia, milhões de dólares circulam a mera menção desse sobrenome. Para o bem ou para o mal, por quem quer que seja.

Por Aline Melo
alinemartimmelo@gmail.com

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