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A Manifestação Barroca no Centro de SP

Lugares que são imperceptíveis na correria do dia a dia, mas apresentam uma riqueza cultural secular

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02 set 2019 | Por Kaynã de Oliveira (kaynadeoliveira@usp.br)

Para os frequentadores do centro, as construções diferentes destacadas por suas arquiteturas em estilos dos mais variados são uma característica da região e marcam qualquer passeio. As expressões arquitetônicas passam pelo gótico, pelo neoclássico, pelo contemporâneo e, claro, pelo barroco, tema desta reportagem.

Os olhos são preenchidos com tamanha beleza admirável no centro da cidade. O antigo se mantém entre um prédio contemporâneo ou outro. Uma manifestação artística influencia muitos aspectos da vida humana, desde percepções à forma como são desenhadas residências.

Kananda Chaves, estudante de design de interiores e frequentadora diária do centro da cidade, comenta o que mais chama sua atenção na região: “as obras de arte que a gente vê em forma de arquitetura, porque o centro é muito rico nisso”. E diz ainda: “depois que eu comecei a cursar design de interiores passei a ter um olhar mais afiado para a arte. No centro, os prédios são históricos e eles se destacam entre a arquitetura atual, que é mais simples, com vidro, ferro mais industrial”.

Amanda Hashizume também frequenta o centro diariamente, por conta de seu trabalho. E sobre o barroco, diz: “o que mais me atrai é o visual. Acho bem criativo, fico imaginando como as pessoas conseguiram criar coisas tão elaboradas naquela época e como elas transmitiam os sentimentos”. Comenta ainda que o barroco lembra algo mais escuro e acha interessante como conseguiram expressar essa característica na arquitetura.

Na Igreja Nossa Senhora do Carmo é perceptível o contraste entre o claro e o escuro [Imagem: Kaynã de Oliveira]

A arquitetura em estilo barroco é marcada por várias especificidades. Estão presentes o movimento, a extravagância, a manipulação da luz e formas circulares como arcos e espirais. No Brasil, o estilo é trazido pelos colonizadores portugueses e se espalha pelo território, manifestando-se na Bahia, Pernambuco, Minas Gerais com bastante intensidade e várias outras regiões. “Aqui em São Paulo, o que acontece é que essa interpretação do barroco chegou ou de Portugal, com as ordens religiosas, ou então dessas pessoas que faziam idas e vindas para Minas Gerais”, diz Ana Paula Megiani, mestre e doutora em história da cultura pela Universidade de São Paulo (USP).

Segundo José Eduardo Lefevre, especialista em história da arquitetura e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, “na arquitetura, certos recursos são tipicamente barrocos como a valorização de fachadas pela criação de espaços ‘fronteiros’ que as enriquecem”. E complementa: “determinados recursos de organização do espaço que valorizam certo ambiente caracterizam o barroco”.

A forma curva é um dos elementos principais do barroco e é geralmente observada em construções nesse estilo. “Formas curvas, em que existem volutos [espirais], como se fosse um volume sendo aberto, em movimento, como se alguém estivesse moldando a partir de uma forma geométrica mais pura”, diz Lefevre.

Nas estruturas barrocas, é possível ainda encontrar ilusões de ótica. Lefevre diz que “a pintura que engana o olho, em que o forro passa uma sensação de fundo infinito e as figuras estão voando, é um artifício do barroco”.

Forro da Igreja Nossa Senhora do Carmo onde percebe-se figuras voando [Imagem: Kaynã de Oliveira]

O barroco brasileiro, por conta da influência ibérica, apresenta também certa rigidez na fachada, sem tantos ornamentos se posto em comparação com a manifestação em outros países europeus. “Essa dureza, essa rigidez das igrejas que não são muito movimentadas pode ter sido de alguma forma influenciada pelo modo que a arquitetura era feita em Portugal e Espanha, e como as ordens religiosas trouxeram esses projetos para cá”, diz Megiani.

A matriz ibérica que influencia o estilo no Brasil é diferente e se for jesuíta é mais ainda. Diz Ana Paula que é “porque os jesuítas são rígidos. E aqui em São Paulo eles têm uma presença muito forte, então vai ter uma rigidez interessante. Mas não é uma rigidez que desqualifica a obra”.

Fachada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, que apresenta certa rigidez, porém, as curvas e a imitação de movimento são presentes [Imagem: Kaynã de Oliveira]

O barroco se manifesta no Brasil geralmente em prédios religiosos, e em São Paulo não é diferente, mas não impede o estilo de ser expressado também em construções particulares, muitas vezes inspirado na religiosidade do proprietário. No estado, são várias as igrejas que o ostentam em suas naves, tetos, esculturas e fachadas. Dois exemplos são as igrejas de Nossa Senhora do Carmo e a de Santo Antônio, ambas localizadas na região central.

Igreja Santo Antônio 

A Igreja Santo Antônio se localiza na praça do patriarca, próxima ao Viaduto do Chá, e se mantém imponente e única entre dois prédios contemporâneos. Sua história é um tanto quanto antiga, construída no final do século 16, aproximadamente 1592. Durante o passar dos anos, passou por diversas reformas e teve sua fachada reinaugurada em estilo eclético nos anos 20.

Fachada da Igreja Santo Antônio. Atualmente passando por restauração. Também apresenta curvas e círculos, características barrocas mesmo a fachada sendo considerada eclética [Imagem: Kaynã de Oliveira]

Sendo uma das igrejas remanescentes mais antigas de São Paulo, a construção abriga expressões artísticas que foram vigentes no Brasil-colônia. O altar principal ostenta a talha barroca, uma técnica em que a madeira é talhada e depois é deixada dourada, geralmente com ouro. Por sua importância, a igreja foi tombada em 1970 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). O prédio já passou por várias reformas ao longo de sua história e em 2005 iniciou-se obras de restauro a fim de recuperar as expressões barrocas no interior da igreja.

Altar da igreja Santo Antônio. Ao fundo e ao centro percebe-se a talha barroca. Nota-se também toda a movimentação da madeira e volutos na ornamentação do altar [Imagem: Kaynã de Oliveira]

Igreja Nossa Senhora do Carmo

Já a Igreja Nossa Senhora do Carmo é também chamada de Igreja da Terceira Ordem do Carmo, ou Capela da Venerável Ordem Terceira, ou Capela dos Terceiros do Carmo. O termo terceira ordem associa-se ao fato da fundação ter sido feita por leigos, maioria bandeirantes.

A primeira Igreja foi demolida, de acordo com o sacristão Lucas Antonio, portanto o prédio que se vê atualmente já é um segundo e foi construído no século 18, entre 1747 e 1758. “A ordem terceira tem 400 anos, a igreja tem 300, então houve uma construção anteriormente”, diz Lucas.

Segundo Lucas, atualmente a igreja lota de pessoas inspiradas pela beleza artística da arquitetura. A edificação é feita de taipa de pilão, material composto de terra e madeira. Os ornamentos do interior da igreja são todos em madeira esculpida. “Um incêndio aqui seria terrível porque até as paredes pegam fogo fácil, o sinal de internet também é ruim por causa das paredes enormes. É bonito, mas tem seus pontos negativos também”, comenta o sacristão.

Interior da Igreja de Nossa Senhora do Carmo [Imagem: Kaynã de Oliveira]

Importância da preservação da produção cultural

As duas igrejas são apenas exemplos da longevidade do estilo no passar dos anos. O barroco ostenta intimamente o interior dos edifícios e encanta qualquer transeunte do centro de São Paulo. Dá-se, então, a importância da preservação. “Nós temos uma contradição interna na nossa existência que é: o que nós somos, para onde nós vamos e de onde nós viemos. Preservar significa que a gente possa entender, conhecer e respeitar outras épocas”, afirma Megiani.

Detalhes de ornamentação da Igreja Santo Antônio [Imagem: Kaynã de Oliveira]

Lucas, o sacristão da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, diz se sentir lisonjeado por poder estar no meio histórico, onde passaram muitas personalidades importantes da memória do município. “É uma alegria imensa estar aqui no meio”, diz ele.

A beleza da arte barroca é de impressionar. Conhecida pelo exagero, os detalhes são demasiados e prendem o olhar, seduzem. Sua ascensão acontece na Europa como fruto de uma reação da Igreja Católica contra a reforma protestante que se espalhava pelo continente, conquistando cada vez mais fiéis. A intenção era criar uma arte que expressasse a imponência da Igreja e que dialogasse e se aproximasse dos indivíduos, a fim de tocá-los pela força da religião.

De acordo com Megiani, no Brasil, o barroco tem uma produção majoritariamente voltada ao religioso. Tanto na Europa quanto no território nacional, a Igreja foi o maior mecena do estilo. No entanto, muitos fiéis de altos estratos sociais também financiavam o barroco nas construções, porque acreditava-se que o bom cristão o bom católico teria seus pecados perdoados se auxiliasse na expansão da fé.

A manifestação barroca no centro de São Paulo deriva das influências que a sociedade da época recebia dos estilos artísticos e arquitetônicos vigentes no período. As construções são um verdadeiro desbunde e uma carícia no olhar do visitante. Cada passada pelo centro vale uma rápida parada para a observação da rica arquitetura que se mantém resistente ao longo dos séculos. O barroco resiste.

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