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A metalinguagem no cinema 
CINÉFILOS
30 maio 2020 | Por Mariana Carrara (marianacarrara@usp.br)

O cinema é considerado a sétima arte. A arte “síntese”, que concilia todas as outras. É no cinema que se tem a possibilidade de criar, recriar, abordar diferentes cenários, realidades e temas. Tanto que até mesmo o próprio cinema e sua produção é frequentemente representado nos filmes. Cantando na Chuva (1952), Cinema Paradiso (1988), Saneamento básico, o Filme (2007) e Era uma Vez em… Hollywood (2019) são alguns dos filmes que utilizam essa  metalinguagem. Mas como cada um representa o cinema? 

Cinema Paradiso (1988) é um filme italiano que conta a história de Totó (Salvatore Cascio), um menino de uma pequena cidade da Sicília que é fascinado pela sétima arte e vive circulando pelos bastidores do cinema local. Ele inventava mentiras e dava desculpas para poder assistir aos filmes, mas a parte que mais o interessava eram as técnicas de produção. Essa paixão faz com que Totó crie amizade com Alfredo (Philippe Noiret), o projetista do cinema que, no começo, tenta manter ele afastado dos bastidores mas logo passa a ensinar as técnicas de ofício para Totó. 

Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro, Cinema Paradiso retrata como o cinema era importante no cotidiano da população e o que o ato de ir ver um filme representava na vida das pessoas. Retratando um período anterior à televisão, o filme mostra a sétima arte como forma de entretenimento da população. As sessões estavam sempre lotadas, com o máximo de pessoas que coubessem: nas cadeiras, em pé, sentadas no chão. A vida na cidade girava em torno daquele cinema: o Cinema Paradiso. 

O longa mostra técnicas de produção muito diferentes das atuais, mas muito mais avançadas do que as primeiras. O projetista não precisava mais girar a manivela, por exemplo, mas as películas ainda eram utilizadas.

Através do fascínio de Totó, Cinema Paradiso impacta o espectador e romantiza a produção cinematográfica e tudo que gira em torno dela.

Assim como este filme, Cantando na chuva (1952) também trata do cinema como sonho, mas o cinema Hollywoodiano. Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são dois astros famosos e seus filmes são sucessos. O filme apresenta o luxo de Hollywood: noites de estreia, tapetes vermelhos, paixão dos fãs, relações entre os atores como forma de publicidade. Mas mais do que isso, ele aborda como a evolução da técnica impactou os atores e o cinema como um todo.

 

Cena clássica de Cantando na Chuva em que Don canta feliz pelo amor e pelo sucesso. [Imagem: Reprodução]

Cena clássica de Cantando na Chuva em que Don canta feliz pelo amor e pelo sucesso. [Imagem: Reprodução]

O musical evidencia as dificuldades que Don, Lina e todo o estúdio, o Monumental Pictures, tiveram para se adaptar a novidade que chegava: o cinema falado. Os roteiristas precisavam escrever diálogos consistentes, e os atores, passar a falar. Surgiram os técnicos de dicção, as dificuldades técnicas com microfones e a necessidade de silêncio no estúdio.

Com a temática da evolução tecnológica, Cantando na chuva faz refletir sobre uma realidade que não se encaixa somente no cinema. A dificuldade de adaptação com a evolução tecnológica e a perda de espaço de trabalhadores que faziam do jeito “não tecnológico” é atual e afeta todos os setores. Por isso, o filme traz uma reflexão interessante sobre como isso sempre ocorreu atrelado à evolução do cinema. 

Era uma vez em… Hollywood (2019) também retrata a sétima arte em uma época de transformação, em que novas tendências surgiam e deixavam para trás técnicas e atores. O filme utiliza da metalinguagem para expor as angústias de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator galã dos faroestes do final da década de 60 nos Estados Unidos, que teme tornar-se obsoleto frente às inovações no cinema.

Dalton, sensível e inseguro, acostumado a interpretar o herói, passa a interpretar os vilões coadjuvantes e aceita propostas em produções italianas pela falta de oportunidades em Los Angeles.

 

Rick Dalton atuando em um filme faroeste. [Imagem: Divulgação]

Rick Dalton atuando em um filme faroeste. [Imagem: Divulgação]

O novo longa de Tarantino traz questões estereotipadas do cinema hollywoodiano que, às vezes, se aproximam da realidade, como paparazzis, relacionamento entre astros, atores “estrelinhas”, esquecimento de falas, alcoolismo, entre outras. Apesar disso, o filme  não aborda o cinema romantizado, como um sonho, mas, diferentemente de Cantando na Chuva, quebra a idealização hollywoodiana.

Saneamento básico, O Filme (2007) foge da proposta dos longas citados anteriormente. Ele não fala do cinema de grande alcance, como algo grandioso e luxuoso, mas do independente, com baixo orçamento. A comédia brasileira conta a história de moradores da fictícia Linha Cristal, uma vila de descendentes de italianos na Serra Gaúcha, que se reúnem para tomar providências a respeito da construção de uma fossa para tratamento de esgoto da comunidade. A prefeitura reconhece a necessidade de obra mas não tem verba de saneamento básico para a construção. 

No entanto, o prefeito dispõe R$ 10.000 concedidos pelo governo federal para a produção de um filme exclusivamente de ficção que, se não forem usados, serão devolvidos. É nesse momento que surge a ideia da comunidade de produzir um filme sobre a própria obra da fossa. 

É a produção desse filme que o longa apresenta ao espectador: a dificuldade de captação de patrocínio dos comerciantes locais, a gravação com filmadora emprestada, a posse de somente uma fita, os problemas técnicos, a falta de conhecimentos de edição e de habilidade para atuar e várias outras dificuldades de se produzir um filme barato.  

Um dos personagens chega a questionar: “Desde quando fazer um filme de esgoto é fazer cinema?” Mas eles mostram que é. Apesar das dificuldades o filme sai, faz sucesso e ainda atrai turismo para região. Mas o objetivo, que era a construção da fossa, acaba não sendo cumprido. 

 

Cena de Saneamento Básico, o filme em que é possível perceber a precariedade estrutural da gravação. [Imagem: Divulgação]

Cena de Saneamento Básico, o filme em que é possível perceber a precariedade estrutural da gravação. [Imagem: Divulgação]

Os filmes citados são apenas alguns do muitos que o utilizam o cinema para falar sobre produzir, fazer e consumir cinema. Os antigos, como Cinema Paradiso e Cantando na Chuva, costumam romantizar mais esse universo enquanto os mais novos desconstroem essa idealização. Mas todos, cada um do seu jeito, utilizam a metalinguagem para representar o cinema como ele é. 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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