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Era uma Vez… em Hollywood: a fábula da despedida de Tarantino
CINÉFILOS
13 ago 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

A década de 60 é quase uma grande fantasia no imaginário popular, principalmente quando se fala de Los Angeles. Hollywood trabalhava incessantemente desde os anos 30, estendendo pelo maior tempo possível os ares de sua Era de Ouro. A televisão produzia mais entretenimento do que nunca. As celebridades eram parte da paisagem urbana, desfilando pelos boulevards sempre que decidiam sair de seus castelos em Hollywood Hills. Além do glamour, outra lembrança marcante é a presença dos hippies na cultura pop e por todos os cantos da cidade, carregando suas bandeiras de paz e conciliação. Com apenas um fato, grande parte desse sonho morreu. 

Na noite de 9 de agosto de 1969, um pequeno grupo de discípulos de Charles Manson, uma espécie de guru que se dizia a reencarnação de Jesus Cristo, invade a casa do diretor Roman Polanski, assassina sua esposa, a belíssima Sharon Tate, que estava grávida, e outros amigos que estavam na mansão no momento. Manson liderava uma comunidade de jovens, em sua maioria alinhados com os ideais hippies, e alimentava a esperança de uma insurreição gigante: um dos passos para ela seria o desaparecimento da cultura massificada. Esse momento destruiria duas utopias de uma só vez. A morte fatal do idealismo hippie, que por mais encantador que parecesse, foi usado e manipulado em nome de atrocidades terríveis, e da aura fascinante e sedutora da vida das estrelas hollywoodianas, que foi completamente desmantelada em questão de horas. 

Quentin Tarantino, como um amante irreconciliável da sétima arte, não poderia deixar de contar essa história antes de se despedir de seu ofício (pelo menos por enquanto), no filme Era uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019). O 9º filme do diretor é simultaneamente uma ode à sétima arte e um conto de fadas inspirado nos anos 60 californianos. O principal objetivo desse filme é retratar as crueldades do serial killer Charles Manson e seus devotos, mas ele faz muito mais do que isso.

Charles Manson, de Tarantino, interpretado por Damon Herriman [Imagem: Divulgação]

Na contramão do que muitos esperavam, este é de longe o filme mais engraçado da carreira do diretor. Apesar de tratar de um tema extremamente denso, é leve e fácil de apreciar. A presença de cenas de ação sanguinolentas é unânime, mas diferentemente de outros filmes de Tarantino, aqui elas possuem uma carga escrachada e divertida, e isso acaba tornando o filme mais espirituoso ainda. É interessante ver o diretor passear por um estilo inesperado pelo público, e apesar de ter brincado um pouco com humor em outras de suas produções, desta vez, ele provou que um humor inteligente pode ser um excelente condutor de narrativas. 

O longa passa muito tempo apresentando seus personagens, o que pode ser interpretado simultaneamente de formas diferentes. Ao mesmo tempo que pode ser massante assistir a um longo ato com poucos eventos, os personagens criados pelo diretor são extremamente deliciosos de se saborear lentamente. Não há nenhum elemento sobrando na narrativa, e todos eles possuem personalidade, conflitos e motivações únicas e individuais. O elenco contratado para retratar os anti heróis é de peso, como diCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie e Al Pacino, e a direção  de atores de Tarantino é reconhecidamente muito boa, o que faz as performances serem sensacionais.

A trama gira em torno, principalmente, de duas personalidades: Rick Dalton (Leonardo diCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt). O primeiro é um astro de Hollywood em declínio de carreira. Por muitos anos, Dalton foi a estrela de seu próprio programa de televisão, onde interpretava um bravo cowboy e era idolatrado pelo público. Mesmo com sua série cancelada e poucas propostas de trabalho, ele ainda se enxergava como uma grande celebridade, até uma conversa com o personagem de Al Pacino o despertar para a vida real. A partir de então, o ator passa a ter crises existenciais sobre seu talento e sua relevância para o mundo das telas. Esse sentimento rende momentos simultaneamente melancólicos e hilários, e é claro que diCaprio dá conta do recado perfeitamente.

Rick Dalton emocionado em seu camarim [Imagem: Divulgação]

O outro protagonista é Cliff: o dublê de Dalton. Durante alguns anos ele foi substituto do ator em cenas de ação, porém a idade começa a pesar e seu passado obscuro assusta algumas figuras de Hollywood. Por isso ele acaba ganhando a vida mais como motorista e faz-tudo de Rick. As auras desconfiada e desleixada do personagem criam uma personalidade bruta, porém simpática. Impulsivo, mas muito inteligente, Booth é aquele que desvenda o quebra cabeça da trama em sua maioria e movimenta a narrativa, sem nunca deixar o tom divertido cair. 

Um dos maiores pontos positivos do filme é a amizade entre ambos os protagonistas. A personalidade dramática e teatral de Rick  complementa a brutalidade e a rusticidade de Cliff, fazendo com que a cumplicidade entre os dois flua levemente e divirta os espectadores. É possível atribuir toda essa química, talvez, à parceria antiga entre diCaprio, Pitt e Tarantino, que parecem se sentir completamente à vontade no set de filmagens. 

Um outro destaque da atuação é Margot Robbie. Ela interpreta a doce e sensual Sharon Tate, esposa do diretor polonês Roman Polanski. Linda e ingênua, Tate é colocada como uma esposa troféu, que passa a vida atuando em produções pouco inovadoras e aproveitando a vida de celebridade. Em alguns momentos é possível perceber que ela até simpatiza com os ideais hippies, mas que deixa isso de lado pelo american dream. A grande ironia da trama aqui é que seu marido estava extremamente em alta no mercado cinematográfico, e o casal acaba se mudando para a casa vizinha de Rick Dalton em Hollywood Hills. Obviamente, Dalton não deixaria a oportunidade de recuperar sua carreira escapar, e esta, que inicialmente parecia uma trama meio devagar, logo se torna uma das mais interessantes do longa, se não a mais.

Sharon Tate se diverte em mais uma das grandes festas da nata hollywoodiana [Imagem: Divulgação]

A forma com que Tarantino apresenta a comunidade de Manson no filme, é no mínimo, curiosa. No começo, ele os coloca assim como os imaginamos, jovens felizes e despreocupados, vivendo uma vida sem grandes deveres além de promover a paz mundial. Conforme a trama vai progredindo, eles começam a se tornar cada vez mais sombrios e cheios de segredos. O diretor, de forma muito inteligente, faz com que se assemelhem a zumbis, dominados por um ideal comum e vago. Esses e alguns outros pequenos jogos de cena imprimem a marca do cineasta responsável pela obra.

A comunidade de Charles Manson na visão de Tarantino [Imagem: Divulgação]

Outras características típicas dos filmes tarantinescos não faltaram. Os diálogos são o que realmente movimenta a história, trazendo um sarcasmo e inteligência irretocáveis. A atenção aos detalhes é tão observadora como sempre, revelando o final aos mais atenciosos. A trilha sonora é sensacional. Ela traz os mais diferentes gêneros do rock nos anos 60 de acordo com cada pequeno momento e dá o ritmo das cenas, instigando o espectador. 

Era uma vez…em Hollywood é uma história engraçada e perspicaz, quase fabulesca e muito diferente de tudo o que Quentin Tarantino já trouxe à vida. O conto da década de 60 é ainda mais prazeroso devido ao elenco incrível que o narra e aos pequenos detalhes que impulsionam a história. O longa com certeza surpreende mesmo aqueles que já são fãs do diretor e empolga muito com suas reviravoltas bem planejadas.

O filme tem previsão de estreia no Brasil para o dia 15 de agosto, e você pode conferir o trailer aqui:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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