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Hitmaker: Kurosawa mudou a visão do mundo em relação ao cinema japonês

O diretor e escritor fez obras que conseguem transpor as barreiras da linguagem e da cultura

CINÉFILOS
28 ago 2021 | Por Isabel Vernier (isabel.vernier@usp.br) e Matheus Nistal (matheus.nistal@usp.br)

A Olimpíada de Tóquio 2020 uniu pessoas de todos os cantos do mundo e voltou os olhos do planeta à cultura japonesa. Para além da tradição, conhecemos um Japão extremamente tecnológico e inovador. Os japoneses se mostraram um povo simpático e cosmopolita que presta atenção aos mínimos detalhes. Mas nem sempre foi assim.

Historicamente, o Japão sempre foi visto como uma ilha fechada com uma cultura que influenciava apenas poucos nichos. Um dos pioneiros em quebrar essas barreiras e servir de inspiração para produção cultural no mundo todo foi Akira Kurosawa. Do faroeste a franquia Star Wars, o cineasta ajudou a construir uma nova cultura pop ocidental.

Conheça um pouco mais sobre a vida e a obra de Kurosawa com esse texto do Cinéfilos.

Foto em preto e branco do diretor de cinema Kurosawa apontando. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Kurosawa, o diretor que levou a cultura cinematográfica japonesa ao mundo. [Imagem: Reprodução/Flickr]

O jovem samurai Kurosawa

Nascido em 1910 na capital do país, Akira Kurosawa vem de uma família privilegiada. Sua mãe descendia de importantes mercadores e seu pai era diretor do Instituto de Educação Física do Exército, além de ter tido um papel muito importante no trabalho do futuro diretor por ter sido bem aberto à cultura ocidental. Mesmo assim, a tradição nipônica foi muito importante na sua formação, já que ele praticava a arte marcial do Kendo, que teve origem na cultura Samurai, sendo o próprio Kurosawa descendente direto do caudilho Abe no Sadato que viveu no século XI.

Desde jovem, Kurosawa era ligado à arte, principalmente à pintura. No entanto, não conseguiu entrar na escola de artes desejada por não passar no exame de ingresso. Mas isso possibilitou também que seu contato com cinema se intensificasse. Seu irmão mais velho, Heigo, era narrador de filmes mudos e conseguia ingressos para o caçula da família. O jovem artista aproveitava ainda para vender suas pinturas quando a sessão acabava. Akira acabou se mudando com o irmão no começo da juventude, quando trabalhou na Liga de Artistas Proletária. 

Contudo, a era do cinema mudo entrou em decadência, o que trouxe instabilidade financeira para ele e o irmão. Isso fez com que o jovem Kurosawa voltasse para a casa dos pais e seu irmão se suicidasse em 1935. Nesse mesmo ano, Akira conseguiu um emprego no estúdio cinematográfico PCL (que viria a se tornar Toho) como assistente de direção. Lá, ele aprendeu as bases de como fazer um filme e teve papel de destaque na produção de uma película de Kajirō Yamamoto chamada Uma (1941). No ano seguinte, Kurosawa teve a primeira experiência como diretor, na produção A Saga do Judô (Sanshiro Sugata,1942).

Praticantes do Kendo. [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

Praticantes do Kendo. [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

Conflitos nacionais e a censura

Seu então mentor, Yamamoto, compartilhou um ensinamento que Kurosawa levou para o resto da vida: um diretor deve saber escrever seu próprio roteiro. Em toda sua carreira, Kurosawa escreveu ou co-escreveu seus 30 filmes e ainda outras dezenas de películas dirigidas por outros. Essa lição foi valiosa, já que, durante a Segunda Guerra Mundial, as oportunidades para Kurosawa na direção foram interrompidas, visto que a indústria sofreu com atrasos e censuras. 

Durante a guerra, Kurosawa continuou tentando emplacar sua carreira no cinema, e acabou por dirigir filmes de propaganda sempre talhados pela censura. Inclusive, seu longa Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre (The Men Who Tread on the Tiger’s Tail, 1945), o qual não possuía nenhuma mensagem política e era considerado mais comercial pelo próprio diretor, sofreu censuras do governo japonês, e depois dos líderes americanos durante a ocupação do país. 

Um dos seus filmes de propaganda aprovados pelos censores ainda durante a guerra foi A Mais Bela (The Most Beautiful, 1944). A história era sobre trabalhadoras japonesas das fábricas. Uma das principais atrizes da produção era Yōko Yaguchi. Ela e o diretor se envolveram em muitas brigas durante a filmagem, mas acabaram se conhecendo melhor e se casando. Eles viveram juntos até a morte da atriz em 1985.

 Ao final da guerra, outras crises se avizinhavam. O estúdio no qual trabalhava, agora chamado Toho, estava em crise em meio a diversas greves. Mesmo assim, Kurosawa conseguiu imprimir sua voz pela primeira vez no filme O Anjo Embriagado (Yoidore tenshi, 1948). Mas foi Rashomon (1950)  que mudou sua vida. Inicialmente, teve sucesso moderado no público doméstico. Foi seguido pelo fracasso de bilheteria O Idiota (Hakuchi , 1951) o que pôs Kurosawa em um breve ostracismo.

Toshirô Mifune e Machiko Kyô em Rashomon. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Toshirô Mifune e Machiko Kyô em Rashomon. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Explosão no Ocidente e Hit atrás de Hit

Contudo, em 1951, Giuliana Stramigioli, representante de uma companhia de filmes italianos, viu Rashomon e insistiu para Daiei (estúdio que tinha os direitos do filme) inscrevê-lo no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Mesmo sem ter conhecimento,  a obra foi muito bem vista e ganhou o prêmio principal, o Leão de Ouro. Iniciou-se, então, uma trajetória por vários festivais internacionais, o que rendeu um Oscar Honorário para a produção japonesa. 

O sucesso no exterior fez com que Kurosawa voltasse a conseguir emplacar seus filmes. Uma vez que ele escrevia-os, sentia a necessidade de ter controle criativo total, que o fazia entrar em rota de colisão com os estúdios. Porém, o sucesso internacional levou as companhias a investirem e apostarem nas suas produções.

Daí veio uma década de hits. Em 1954, dirigiu os Sete Samurais (Shichinin no samurai), uma de suas maiores obras. Tanto em tamanho quanto em reconhecimento e impacto na cultura cinematográfica mundial. 

Nesse mesmo período, ocorria também a Guerra das Coreias e testes de bombas nucleares. Nesta atmosfera de instabilidade e tensão, Kurosawa lança Anatomia do Medo (Ikimono no Kiroku, 1955), o qual conta a história de uma família que planeja se mudar para o Brasil a fim de fugir de possíveis ameaças contra o território japonês. Também adaptou a história shakespeariana clássica de Macbeth no aclamadíssimo Trono Manchado de Sangue (Kumonosu jo, 1957). Situado no Japão medieval, e tomando liberdades criativas com a obra original, o filme marca essa época pessimista do diretor. 

Impulsionado pelo estúdio, o diretor decidiu fazer uma obra mais leve, que tendia mais para o gênero de aventura. A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no san-akunin, 1958), ainda que sem o sucesso estrondoso de suas produções prévias, teve grande importância e influência na carreira de futuros gênios do cinema. 

A partir desse filme, Kurosawa começou a bater recordes de bilheteria seguidos. O primeiro foi Yojimbo, o Guarda-Costas (Yojimbo, 1961), que conta a história de um samurai que salva uma vila pondo duas gangues uma contra a outra. O longa fez tanto sucesso que Kurosawa teve que fazer uma sequência espiritual chamada Sanjuro (Kakushi-toride no san-akunin, 1962). Em seguida, Céu e Inferno (Tengoku to jigoku, 1963) arrecadou ainda mais do que os outros dois filmes. Ainda dirigiu e produziu O Barba Ruiva (Akahige, 1965) que fez menos sucesso e iniciou um período mais difícil para o diretor.

Tatsuya Nakadai e Toshirô Mifune em Yojimbo - O Guarda-Costas. [Imagem: Divulgação/Toho Company]

Tatsuya Nakadai e Toshirô Mifune em Yojimbo – O Guarda-Costas. [Imagem: Divulgação/Toho Company]

A Fênix Japonesa

O Barba Ruiva ficou marcado como um final de ciclo da sua carreira e, a partir daí, o diretor tentou trabalhar de outras maneiras. Foi então que decidiu tentar se inserir no cinema hollywoodiano e não obteve sucesso, pelo contrário, sua reputação foi manchada por suas falhas tentativas de produção americana.

Tora! Tora! Tora! (1970) é um exemplo de sua turbulenta relação com o cinema dos Estados Unidos. Ainda que tenha sido contratado para trabalhar no projeto, teve problemas envolvendo a escolha de elenco, os prazos, a duração e o orçamento, ele acabou sendo afastado da produção e voltando para o seu país.

No entanto, o cinema japonês vivia uma crise com a chegada e o sucesso da televisão. O diretor tentou se aventurar nesse mundo, mas também não se acostumou com a nova tecnologia e entrou em um período de silêncio e frustração, chegando a cometer uma tentativa de suicídio. 

Kurosawa se afastou da indústria. Escrevia e desenhava só para si mesmo, até que, em 1973, foi convidado pela União Soviética para fazer um filme sobre um grupo de  cartógrafos russos que se utilizaram da ajuda de um caçador mongol para lidar com os perigos da área desconhecida. Nasceu, então, Dersu Uzala (1974), um longa que dividiu reações, mas fez certo sucesso nas bilheterias. Hoje, essa obra é mais bem vista do que foi nos anos 1970.

Só que algo mais aconteceu nos anos 1970. George Lucas lançou Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977), claramente inspirado em A Fortaleza Escondida. Além disso, com o sucesso da obra, Lucas e seus amigos Martin Scorsese, Steven Spielberg e Francis Ford Coppola – todos fãs de Kurosawa- resolveram pressionar seus estúdios e produtoras a darem uma nova chance ao diretor. 

Essa geração de grandes diretores americanos tinha Kurosawa como um ídolo, e não gostaram de vê-lo cair no ostracismo no Japão. Ao ajudar no financiamento de Kagemusha – A sombra do Samurai (Kagemusha, 1980), eles tiveram sucesso em provar que Akira ainda tinha muitas grandes obras para dar ao mundo.

Durante a gravação do seu próximo filme, Ran (1985), sua esposa Yōko Yaguchi ficou doente, e Kurosawa parou a produção para ficar no que seria o leito de morte de sua companheira de toda vida. Ran teve sua produção concluída e virou mais um dos grandes clássicos de guerra. Com cores fortes e grandes batalhas, a história é uma outra recontagem shakespeariana, dessa vez do Rei Lear.

Kagemusha é um filme cheio de cores e que reflete o artista em Kurosawa. [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

Kagemusha é um filme cheio de cores e que reflete o artista em Kurosawa. [Imagem: Divulgação/Splendor Films]

Fim da vida e Imortalidade

Depois, Kurosawa se dedicou a um projeto mais pessoal e introspectivo. Pela primeira vez em quarenta anos, escreveu um roteiro sozinho. Sonhos (Dreams,1990) marca um período introspectivo do grande diretor. Com uma aclimatação sempre muito etérea, o filme conta várias histórias sem começo nem fim definidos. Em alguns momentos, parece um sonho de quando se dorme, em outro um sonho daquilo que se projeta para o futuro. Entre pessimismo e otimismo, a película acaba se posicionando pelo último. Acabando com a história de um turista que encontra uma aldeia japonesa tradicional, sustentável  e extremamente feliz. Esse longa teve apoio financeiro de Steven Spielberg e contou com a atuação de Martin Scorsese interpretando um jovem Van Gogh.

Seu penúltimo projeto foi Rapsódia em Agosto (Hachigatsu no kyoshikyoku, 1993),  que envolveu a atuação de Richard Gere, é uma reconciliação entre, não somente as gerações passadas e futuras, mas também entre americanos e japoneses em relação às bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Ainda que o filme tivesse tido um bom desempenho nas bilheterias, os americanos acharam a obra ingênua em relação a posição dos países envolvidos no conflito, já que o ataque a Pearl Harbor não foi discutido na película. 

Sua carreira na direção cinematográfica se encerra em 1993 com o filme Madadayo. Já em 1995, ele sofreu um acidente doméstico que, somado a sua idade avançada, o pôs numa cadeira de rodas e o impediu de continuar dirigindo filmes. Em 1998, veio a notícia de que o grande mestre Akira Kurosawa havia falecido após um derrame. 

Além de sua enorme influência e contribuição para a linguagem cinematográfica mundial, diversos roteiros escritos por ele continuam sendo produzidos, também remakes e filmes baseados em suas obras. Mesmo em 2020, o IMDb continua creditando Kurosawa em filmes, longas para TV e vídeo games recém-lançados ou prestes a estrear. 

Sua obra completa inspira diretores atualmente tanto no ocidente quanto no oriente. Aparentemente, sua filmografia ainda tem muito a oferecer e não dá sinais de que seu legado e história vão deixar de unir e mudar o mundo.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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