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Alcoolismo e quarentena: convivendo com a dependência em meio ao isolamento

Impactos da quarentena sobre o consumo de álcool e a convivência familiar

JPRESS
07 jul 2020 | Por Mara Mendes de Matos (mara.mmatos@usp.br)

Vivemos um momento de extrema fragilidade. A pandemia do coronavírus interrompeu drasticamente a rotina de todos e a atmosfera, de uma forma geral, faz com que o estresse aumente. O medo da doença, a solidão e ansiedade quanto a um futuro, mais do que nunca, incerto destacam-se em meio ao turbilhão de emoções recorrentes nos dias de quarentena. Das crianças aos mais idosos, ninguém escapa da insegurança, nesse momento.

As pessoas entre si têm reações diversas diante da situação. Cada um vem tentando à sua própria maneira se adaptar à nova realidade, seja com prática de meditação, exercícios físicos e até apelando para medidas que podem ser autodestrutivas. A busca por fuga da realidade é uma resposta rápida à dificuldade de processar todas as informações e emoções recorrentes. Assim, então, muitos podem acabar por apelar ao álcool diante do estresse.

 

Consumo de álcool no contexto da pandemia

A seção europeia da Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 14 de abril, fez uma publicação recomendando a restrição do acesso ao álcool durante a pandemia. “Em momentos de bloqueio durante a pandemia da Covid-19, o consumo de álcool pode exacerbar a vulnerabilidade à saúde, comportamentos de risco, problemas de saúde mental e violência”, alerta. 

No Brasil, o consumo de álcool faz parte de nossa cultura. Legalizado e enormemente difundido, é socialmente aceito e, muitas vezes, estimulado desde muito cedo. Durante quarentena, de uma forma geral, é perceptível a adesão às bebidas alcoólicas. Segundo a presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e Drogas), Renata Araújo, “já se tem observado isso, não só na prática clínica como através de algumas pesquisas”. Nota-se também que não há mais horário fixo para o uso. “As pessoas se sentem mais entediadas em casa, às vezes mais ansiosas, deprimidas e por conta disso elas usam a bebida alcoólica como estratégia para lidar com essas emoções negativas, o que não funciona”, afirma.

Se antes grande parte do consumo de bebida alcoólica acontecia em festas, bares, restaurantes, agora restringe-se ao ambiente doméstico. Essa mudança no padrão de consumo fez com que novas estratégias de propaganda fossem adotadas. Vem acontecendo um estímulo muito grande através das lives, uma alternativa de entretenimento altamente difundida nesse período. No dia 14 de abril, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) chegou a abrir um processo contra as ações publicitárias feitas pelo cantor Gusttavo Lima em uma de suas lives, por julgá-las irresponsáveis pela carência de “cuidados recomendados pelo Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária para a publicidade de bebidas alcoólicas”.

O momento é de vulnerabilidade para todos, mas especialmente para aqueles que já convivem com o alcoolismo. “Quem é dependente químico deve ficar muito atento para que não haja recaídas”, alerta Renata. Toda essa insegurança e instabilidade na rotina podem ser ainda mais perigosas para esse grupo, em específico.

 

Alcoolismo e o tratamento

O alcoolismo, considerado uma doença pela OMS, consiste no consumo compulsivo de álcool em decorrência de dependência física e emocional à substância. Nesse caso, a capacidade de controle do uso é prejudicada e a tolerância à bebida aumenta, sendo necessário que o indivíduo beba cada vez mais para que surtam os efeitos do álcool. A interrupção ou redução do uso de álcool pode levar o  dependente a apresentar sintomas de abstinência,  dificultando o processo de recuperação.

As condições de isolamento afetam as dinâmicas de tratamento do alcoolismo. Mas, há muito trabalho sendo feito para dar continuidade à recuperação. Camila Ribeiro, Presidente da Junta de Serviços de Alcoólicos Anônimos do Brasil, informou a preocupação em acolher os membros do A.A. (Alcoólicos Anônimos) e continuar a oferecer um espaço de compartilhamento. A profissional conta que tem acompanhado a aceitação da ferramenta de reunião à distância e, mais do que isso, o ingresso de novos membros. “As salas de reuniões são espaços onde as pessoas fazem o reconhecimento de sua própria doença e compartilham suas histórias. Com isso, elas vão se fortalecendo na rotina para que consigam superar os desafios”, afirma.

O A.A. é uma irmandade que se debruça sobre um programa de 12 passos com o objetivo de manter a sobriedade. Ainda que não seja um método científico, apresenta um cunho espiritual muito importante. A irmandade foi fundada ao se perceber que a troca de experiência daqueles que viviam o problema e, portanto, entendiam as nuances do mesmo, os fortalecia e ajudava a lidar com a compulsão pelo álcool. Há um propósito primordial, assim nominado por eles, no trabalho, que seria os membros manterem-se sóbrios e levarem a mensagem para desenvolver seu próprio tratamento e dos outros membros.

Roda de conversa

Roda de conversa. [Imagem: Reprodução/Site do A.A.]

Camila conta que antes da pandemia do coronavírus já existiam algumas iniciativas de reunião à distância, mas que não eram tão difundidas. “A própria dinâmica da sala presencial é muito característica. O acolhimento, o sentimento de pertencimento, o aperto de mão, o cafezinho. Isso tudo torna a sala de reunião presencial um espaço de pertença, que é muito importante no processo de recuperação da doença do alcoolismo”, disse.

A partir do momento em que foi instituído o isolamento social, então, as reuniões foram adaptadas ao módulo à distância. A profissional destaca também que os números obtidos nas reuniões on-line não contemplam em tudo a realidade, pois muitos grupos já existentes optaram por utilizar outras plataformas, em função da facilidade de manuseio. Muitas reuniões têm acontecido também através de grupos nas redes sociais. Nota-se, então, que a organização tem se preocupado em acolher a todos e obtido sucesso no trabalho, até  com a entrada de novos membros.

 

Pensando no ambiente familiar 

O isolamento social também tem afetado de maneira ainda mais direta a família dos alcoólicos, já que agora passam mais tempo em ambiente doméstico. Ainda que existam casos em que o isolamento venha a trazer benefícios à relação familiar, não é uma realidade unânime. Ruth Blay Levisky, psicanalista de casal e família e presidente da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família, destaca que, “quando há algum membro da família que sofre de qualquer tipo de patologia, isso se reflete na dinâmica familiar”. O consumo maior de álcool em meio ao confinamento, seja o recreativo ou o compulsivo dos dependentes, reflete um aumento nos índices de violência doméstica, por exemplo. 

“O álcool é uma droga depressora do sistema nervoso central, que num primeiro momento inibe o freio do nosso cérebro, o lóbulo pré-frontal, fazendo com que a pessoa fique mais solta, mais impulsiva e pode fazer com que fique mais agressiva também”, diz Renata Araújo. Com as pessoas mais alcoolizadas, todas as situações de risco aumentam. O efeito do álcool também provoca a perda dos reflexos, a letargia e torna o indivíduo mais vulnerável a ser vítima de violência também. Todos esses casos devem ser denunciados, ainda que haja medo ou culpa. Ninguém deve passar por isso sozinho. Sabe-se que a violência doméstica, geralmente, é associada diretamente à violência de gênero, por serem as mulheres as mais afetadas. O grupo apresenta, portanto, maior vulnerabilidade diante disso.

Silvia Brasiliano, psicóloga, psicanalista e coordenadora do Programa da Mulher Dependente Química (PROMUD), explica que o isolamento por si só já é promotor de angústias e aumenta a irritabilidade das pessoas. Estando essas pessoas alcoolizadas, todas essas proporções aumentam. O que num determinado momento era tolerado, momentos depois pode ser que não seja mais. Pensando agora nas crianças, “quando um dos pais é alcoólico, os filhos ficam em geral muito acuados e amedrontados, por não existirem regras fixas”, diz. “Além disso, muitas vezes um dos filhos acaba se responsabilizando por cuidar do pai ou ficar do lado de um dos pais em situação de violência doméstica.”

O alcoolismo acaba gerando, então, eventos violentos, medo por parte dos filhos, problemas na dinâmica familiar, nas relações afetivas, em todas as áreas do desenvolvimento. Às vezes, somente um dos integrantes da família acaba sendo responsabilizado por toda a organização familiar. Ruth explica que, em casos como esse, há uma “desilusão, frustração, culpa em decorrência da presença desse indivíduo. Às vezes, isso é completamente inconsciente, esses sentimentos nem são reconhecidos.” E atrelado a isso está o estigma quanto à mulher alcoólica. 

Já existem muitas cobranças quanto à figura de uma mulher, especialmente quando ela é mãe. Essas exigências, muitas vezes sufocantes, juntas a todas as ocupações da mulher, podem influenciar na admissão do problema e na busca por tratamento. Camila Ribeiro conta que, nesse momento de pandemia, tem observado maior participação das mulheres nas reuniões do A.A. Acredita-se que, em muitos casos, isso aconteça porque o isolamento implicaria menos julgamentos de outras pessoas e pelo maior tempo disponível, que pode agora ser dividido entre si e suas outras tarefas. 

O Programa da Mulher Dependente Química (PROMUD) atende gratuitamente mulheres maiores de 18 anos com problemas relacionados ao abuso de álcool e drogas. Acontece no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e lá são feitas, além disso, pesquisas e ensino sobre esses casos. As mulheres que já participavam desse programa têm continuado o acompanhamento à distância. 

Ruth Blay Levisky lembra da importância de estudar cada caso de alcoolismo e investigar como a dependência foi desenvolvida. “É necessário entender um pouco a história familiar, entender sua história de vida. Há razões para que se chegue a isso”, diz. Esse diagnóstico é muito importante ao pensar o tratamento para o alcoolismo, então. E acrescenta: “em geral, há uma carência muito grande nessas pessoas, um lado muito solitário. No momento em que você acolhe, que você escuta, essa pessoa vai se sentindo mais fortalecida”.

 

Novos casos

Mais uma preocupação que surge é a possibilidade de que venham a se desenvolver novos casos de alcoolismo com a quarentena. Renata Araújo diz que é, sim, possível, mas “isso não ocorre da noite para o dia. É necessário um tempo para que isso aconteça”. Devem se manter atentos, especialmente, aqueles que persistirem com o alto consumo de álcool pós-pandemia e os que possuem predisposição biológica para o alcoolismo. Camila Ribeiro lembra que para participar das reuniões do A.A. basta ansiar a sobriedade – todos que querem parar de beber podem participar. “Se eu vejo que a minha relação com a bebida não é saudável e não me serve mais, eu posso frequentar uma sala”. Existem ainda salas somente para familiares e qualquer um pode entrar para conhecer.

 

LOCAIS DE ATENDIMENTO CITADOS:

Renata Araújo, presidente da ABEAD, atende em Modus Cognitivo

Modus Cognitivo- Núcleo de Terapia Cognitivo-Comportamental

Tratamento psicológico e Psiquiátrico 

Contato: (51) 30192398

 

A.A- Alcoólicos Anônimos do Brasil 

Acesso pelo site: https://www.aa.org.br/

As reuniões estão acontecendo diariamente às 20h

Qualquer um pode participar da reunião

Não há taxa, não há cadastros, o anonimato é assegurado

 

Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família (ABPCF)

Acesso pelo site: https://www.abpcf.com.br/


Programa da Mulher Dependente Química (PROMUD)

Acontece, normalmente, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas

Não está atendendo pacientes novas agora, durante a quarentena

Contato:  (11) 3082-1876

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COMENTÁRIOS
Isabele Vintecinco
Assunto de extrema importância 👏🏼
07 jul 2020
 
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