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As 7 músicas que quebraram o silêncio da ditadura
Escuta Aí
14 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

A ditadura se desenvolveu no Brasil durante os anos de 1964 até 1985. Períodos de terror para aqueles que pensavam diferente dos militares, cidadãos brasileiros foram expostos a torturas silenciosas e tiveram seus gritos abafados durante 21 anos.

Mas nem tudo permaneceu deste jeito sombrio: surgiram protestos, manifestações, pessoas que acreditavam em um governo que lhes representasse e, por trás de tudo isso, canções que encabeçavam ações revolucionárias.

Cálice – Chico Buarque e Milton Nascimento

“Cálice” foi escrita em 1973 por Chico Buarque e Gilberto Gil, mas só conseguiu ser lançada cinco anos depois devido à censura. Milton Nascimento assumiu o lugar de Gilberto Gil após este mudar de gravadora.

Provavelmente essa seja a primeira música a vir na cabeça ao se pensar em músicas de protesto à ditadura.

A primeira frase da música já deixa claro o tom de resistência (“Pai, afasta de mim este cálice”). Os compositores trazem a referência de uma passagem bíblica: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Marcos 14:36); e a aplicam ao seu contexto atual, reforçando a ideia de perseguição e sofrimento vivenciados. Além disso, criam um duplo sentido: “Cálice” transfigura-se em “Cale-se”, o imperativo de calar. Assim, pedem para que seja afastada a censura vigente.

Em outro trecho, o eu lírico da música revela querer viver em “outra realidade menos morta”, declarando que há “tanta mentira”, referindo-se ao suposto “milagre econômico” do qual o governo militar se vangloriava, e “tanta força bruta”, referindo-se ao autoritarismo, violência policial e tortura do regime.

Desta maneira segue a letra da música, cabendo ao ouvinte decifrar suas entrelinhas. Hoje, com todos os livros de história  livres de censura, não é difícil perceber que mensagem Chico Buarque, Gilberto Gil e Milton Nascimento queriam, e conseguiram, passar.

A ideia inicial da música era ser apresentada no show Phono 73, mas devido à censura, a música foi reprovada. Mesmo assim, Chico Buarque e Gilberto Gil decidiram cantá-la através de murmúrios, até que o som de seus microfones foi cortado. A única palavra que se consegue distinguir é “Cálice”, ou melhor, “Cale-se”.

 

Alegria Alegria – Caetano Veloso

A música de Caetano Veloso foi composta em 1967, sendo um dos marcos iniciais do movimento tropicalista da década de 60. Alegria, Alegria foi apresentada no festival da Record, em disputa pelo “Berimbau de ouro”.

Apesar do sucesso que faz hoje, a música foi recebida com vaias quando apresentada no festival. Isso porque a letra, que traz protesto aos “anos de chumbo”, fez de Caetano Veloso um traidor e oportunista para os nacionalistas que assistiam ao show. Acabou ficando em quarto lugar do festival.

A música apresenta diversas metáforas e ironias que denunciam e contestam o regime militar. Ao mencionar “Brigitte Bardot”, “Cardinales” e “Coca-cola”, mostra como a cultura importada era alienante, trazendo a marca de refrigerante estadunidense como símbolo do país norte-americano que financiava os exércitos em toda a América Latina.

Há também a repetição da palavra “sol” quatro vezes, mas não se trata apenas de uma palavra. “Sol” era o nome de um jornal-escola da época, reconhecido por ser contra a ditadura militar. Olhando por esse aspecto, trechos como “O sol se reparte em crimes”, ”O sol nas bancas de revista” e “O sol é tão bonito” fazem mais sentido do que se o compositor se referisse apenas ao Sol como astro, embora Caetano Veloso viesse a afirmar mais tarde que não se lembrava ao certo se realmente era esta a referência que pretendia.

Além de todas as metáforas e ironias presentes na canção, há também intertextualidade com a música “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, quando o eu lírico declara: “Eu vou”, seguido por “Por que não? E por que não?”. Esta seria uma possível resposta para o trecho de Vandré: “Vem, vamos embora”, em que o compositor pedia para que marchassem todos juntos contra o regime militar.

 

Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré

Escrita em 1968, a música ganhou segundo lugar no Festival Internacional da Canção daquele ano. Tornando-se um dos maiores hinos de resistência ao período ditatorial, Geraldo Vandré foi perseguido pela polícia militar e teve de fugir do país para evitar represálias, exilando-se.

A letra fácil e envolvente procura trazer o ouvinte para dentro de suas palavras e de suas intenções. Assemelha-se muito às canções usadas em passeatas, protestos e manifestações, por ser justamente isso que Vandré pretendia causar com a composição: ação. Assim se dá pelos trechos “Caminhando e cantando e seguindo a canção” e “Vem, vamos embora, que esperar não é saber”.

Além disso, denuncia a miséria que agricultores e camponeses viviam à época (“Pelos campos há fome em grandes plantações”) e faz crítica ferrenha aos pacifistas que pretendiam vencer a crise política com diplomacia e “paz e amor”, contracultura hippie denominada “flower power” (“Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/E acreditam nas flores vencendo o canhão”)

O que se vê de diferente na canção de Geraldo Vandré, além da crítica aos pacifistas, é também a humanização que o compositor faz dos militares. Sempre tratados como inimigos, em Pra não dizer que não falei das flores, são tratados como pessoas que obedeciam ordens cegamente, quase como que por lavagem cerebral (“Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/De morrer pela pátria e viver sem razão”).

 

O bêbado e o equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Escrita em 1978 e mais tarde interpretada por Elis Regina, que a fez cair nas graças do público, a música originalmente pretendia apenas homenagear Charles Chaplin, falecido no natal de 1977.

A letra, entretanto, é cheia de referências que vão além de Charles Chaplin. Em “Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil”, por exemplo, Marias e Clarisses representam as viúvas dos presos políticos pela ditadura, sendo Maria a mulher de Manuel Filho e Clarisse a mulher de Vladimir Herzog, ambos mortos nos porões do DOI-CODI. Em “Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil”, referem-se ao irmão exilado de Henfil, o sociólogo Herbert de Souza.

 

 

Jorge Maravilha e Apesar de você – Chico Buarque

Jorge Maravilha foi inicialmente creditada a Julinho de Adelaide, pseudônimo criado por Chico Buarque para tentar escapar da censura do regime militar. A canção tem a fama de ter sido criada para o ex-presidente Ernesto Geisel e sua filha, fã do cantor. Por isso o refrão “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

Chico Buarque explicou, em declaração para a Folha de S. Paulo em 1977, que na verdade a música fora criada para agentes do Dops que pediam autógrafos do cantor para as filhas: “Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança (do Dops), e no elevador o cara pedir autógrafo para a filha dele”.

Apesar da brincadeira que Chico Buarque faz na canção, esta revela, através do pseudônimo e da motivação de ser criada, a hipocrisia e a censura ditatorial.

 

Apesar de você foi lançada em 1970, e é a única música que Chico Buarque assume ter escrito para criticar a ditadura. Escreveu-a depois de voltar do exílio, percebendo que o país pouco havia mudado. Esperava que fosse parada na censura, porém isto não veio a ocorrer, e a canção chegou a vender 100 mil compactos em uma semana. Quando declarou em nota para um jornal que o “você” da canção era o presidente Médici, a canção foi censurada, sendo gravada em disco apenas em 1978.

Fica claro na letra o descontentamento do artista com o regime e a sede de mudar o cenário político.

https://www.youtube.com/watch?v=1ZNNUU_AbXs

 

É proibido proibir – Caetano Veloso

O lema “é proibido proibir” tornava-se famoso entre os jovens franceses nos protestos contra o conservadorismo e a favor da liberdade. Caetano Veloso o resgata em solos brasileiros, com o intuito de assim também incentivar os brasileiros a lutarem pela liberdade.

A música foi apresentada no Festival Internacional da Canção em 1968. Sob vaias, Caetano não conseguiu terminar de cantar, e trocou a melodia por um discurso fervoroso. “Mas é isso que é a juventude que quer tomar o poder?”, indagava, perplexo. “Vocês não estão entendendo nada!”.

Nelson Rodriguez descreve como Caetano Veloso foi recebido pelo público naquela noite: “A vaia selvagem com que o receberam já me deu uma certa náusea de ser brasileiro. Dirão os idiotas da objetividade que ele estava de salto alto, plumas, peruca, batom etc. etc. Era um artista. De peruca ou não, era um artista. De plumas, mas artista. De salto alto, mas artista. E foi uma monstruosa vaia (…) Era um concorrente que vinha ali, cantar; simplesmente cantar. Mas os jovens centauros não deixaram”.

Apesar dos pesares, a mensagem é clara e luta contra a censura da ditadura militar brasileira, tendo grande contribuição para a sobrevivência da cultura deste período sombrio.

 

Por Lígia Andrade
ligia.andradem@gmail.com

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